sábado, 3 de janeiro de 2015

“Terapia primal”: você conhece esse estudo controverso da psicologia?!

A “terapia primal”, também conhecida como “terapia do grito primal” é um exemplo de terapia que envolve o processo de consciência e inconsciência, sendo estes processos descobertos pelo psicanalista Freud. Já no caso da terapia primal, esta foi desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Arthur Janov, nos anos 1960. Basicamente, essa terapia entende que as neuroses humanas são criadas a partir do chamado “trauma de nascimento”. A repressão da dor do parto, ou do trauma do ato de nascer, além da expulsão do corpo da mãe seriam as responsáveis por todo o conjunto de neuroses que surgem nos seres humanos.


De acordo com o criador da terapia, o trauma de nascimento é uma experiência muito dolorosa para mãe e filho, assim o ato de nascer, passar por todo processo de expulsão do corpo da mãe, ser pego pelo médico, levar o famoso tapinha etc. seriam responsáveis por uma série de conflitos interiores e exteriores, que na idade adulta se apresentam como neuroses. Essa é uma terapia considerada controversa e como “terapia de choque”, pois as experiências que ela suscita são fortes e bastante intensas.

Assim, a terapia do grito primal tem como meta produzir a catarse a partir da repetição da experiência do ato de nascer. Essa repetição teria a propriedade de produzir um alívio da carga retida, sendo possível liberá-la no momento em que ela é revivida. Neste aspecto, a terapia primal é muito parecida com a hipnose regressiva e a terapia de vidas passadas, pois a base da promoção da cura é a catarse. A ideia é provocar novamente a dor reprimida por meio da inserção num estado de consciência onde a dor do parto pode ser novamente sentida. Segundo a teoria de Janov, todas as pessoas possuem, em grau maior ou menor, a neurose presente dentro de si e em seu comportamento.


No momento de maior intensidade da experiência, onde provavelmente se revive a cena mais carregada de sentimentos reprimidos, a pessoa é incentivada a dar um grito, denominado de “grito primal”. Esse grito seria a expressão mais forte das emoções retidas e a melhor forma de colocá-las para fora de si, obtendo uma libertação da dor da neurose.

O idealizador dessa abordagem, inclusive, faz uma críticas as psicoterapias baseadas apenas na fala e no discurso consciente, pois, traduzindo em termos neuronais, elas lidam apenas com o córtex cerebral, que permite o raciocínio por meio da análise objetiva de questões determinadas. O raciocínio concreto nos afasta da esfera do sentimento, que é o nível onde podemos obter certas vivências capazes de liberar emoções retidas e mal elaboradas, como no caso do nascimento. O que Janov faz é criticar os psicoterapeutas que tomam como base a logoterapia ao invés de aprofundar nos estudos das terapias dos estados alterados de consciência. A partir do confronto direto dos traumas de infância e do nascimento, revive-se o incidente, e pode-se então expressar as emoções que, na época do evento, não puderam ser adequadamente vividas. Para Janov, a verdadeira cura implica uma reexperimentação da dor do trauma.

A Terapia Primal ficou bastante popular nos Estados Unidos. Tanto é assim que muitas personalidades a defenderam publicamente e deram-na mais força para sua propagação. Dentre seus defensores contam-se figuras como John Lennon, James Earl Jones e o pianista Roger Williams. Isso fez com que ao longo das décadas de 70 e 80 muitas pessoas comuns procurassem psicólogos a fim de darem seus “gritos primais” e terem a catarse do mundo estressante capitalista contemporâneo.


Dentre os princípios da terapia primal podemos ressaltar a ideia de que as causas da dor na infância, que depois se transformam em neuroses, são o resultado de necessidades básicas não assistidas. Janov diz que, em primeiro lugar, nossas necessidades básicas são nutrição, abrigo, segurança e conforto. Depois de alguns anos, começamos a sentir necessidade de afetos, sentimentos e emoções de outras pessoas, como carinho, respeito e compreensão. Depois, passamos a sentir como necessário o alimento intelectual e de compreensão do mundo. É simples notar como esse desenvolvimento de necessidades lembra a teoria de Maslow da hierarquia de necessidades.

Janov afirma que quando essas necessidades não são supridas por um período mais longo, o resultado passa a ser a dor, porém não a dor meramente física, mas uma dor mais interna e emocional. A dor seria o resultado da falta de uma necessidade básica específica. Segundo Janov, essa dor não dói exatamente como uma dor comum, pois ela é reprimida em seus efeitos e passa a incorporar-se no campo do sentimento.


Dentre as críticas à terapia primal, parece que a principal é a que alega os perigos dessa técnica pela intensidade com que muitas vezes é aplicada. Por ser uma terapia de choque, muitos indivíduos podem ter alguns problemas decorrentes de sua prática. É o que defende, por exemplo, Gerda Boyesen, no livro “Entre a Psique e Soma”. Ela afirma que quando o terapeuta primal libera defesas demais, em níveis mais profundos, e de uma só vez, há perigo para o paciente. Quando os psicoterapeutas exageraram na dosagem de intensidade expressiva, os resultados podem ser, em suas palavras, “extraordinariamente negativas”.

Por esse motivo, é preciso ter em mente que não se deve forçar a experiência em níveis que o cliente não possa suportar e o terapeuta deve ter a competência adequada para perceber esse limite. Da mesma forma que um remédio pode curar numa dosagem e ser prejudicial em outra, o mesmo ocorre em terapias com os estados alterados. A medida correta da aplicação da técnica deve ser conhecida e é muito importante para não causar nenhum prejuízo as pessoas. É de nossa opinião que qualquer terapia ou psicoterapia, incluindo a psicanálise, podem ter efeitos muito negativos quando mal conduzidas. Por outro lado, autores de peso como Bert Hellinger, que experimentaram a terapia primal, relataram bons resultados em seu uso.