sábado, 20 de dezembro de 2014

“Chuva de sangue”: fato, farsa, mistério, algo sobrenatural, um milagre?!

Chuva de sangue”, ou “chuva vermelha”, é um fenômeno em que se percebe que sangue estaria caindo do céu junto com a chuva, ou no lugar da chuva. Os casos registrados são vários, e vão desde as poesias de Homero até vilas medievais e, mais recentemente, na Índia. Antes do século 17, acreditava-se que a chuva realmente fosse sangue e era usada pelas pessoas como se fosse o anúncio de um mau presságio ou anúncio de que Deus não estava se agradando com a população da terra e, assim, faria um banho de sangue.

Os casos registrados de “chuvas de sangue” cobrem uma pequena área, ao contrário de chuvas de verão e frentes frias. A duração de tempo, também, geralmente é bastante curta demorando somente uma pancada de, no máximo, duas horas – de acordo com todos os registros meteorológicos e históricos feitos até hoje. Só por volta do século 17 que as explicações científicas para o fenômeno foram sobressaindo às explicações sobrenaturais, mas estas ainda existem. No século 19, alguns cientistas começaram a coletar água desse tipo de chuva e criou-se a teoria de que a poeira suspensa no céu faria a chuva ficar desta cor avermelhada. Hoje há muitas teorias envolvendo a “chuva de sangue”, como a da poeira de chuva, ou devido à presença de micro-organismos específicos. As últimas ocorrências deste tipo de chuva foram em Kerala, Índia, em 2001 e em 2007.


Historiografia do fenômeno e uso na literatura...
Ocorrências de “chuva de sangue” aparecem em toda a história da Humanidade, desde a Antiguidade até os dias atuais. O mais antigo exemplo literário está na “Ilíada”, de Homero, quando Zeus, por duas vezes, manda uma chuva de sangue à terra para alertar os humanos sobre massacres em batalhas. O mesmo acontece num texto grego de Hesíodo. Críticos literários apontam que Hesíodo poderia ter sido influenciado por Homero, que por sua vez foi influenciado por uma chuva real. Plutarco também fala de “chuva de sangue” na cidade de Roma logo após ela ter sido fundada pelos irmãos Romulo e Remo. Alguns autores romanos também registraram na Itália pelo menos quatro “chuvas de sangue” e também indicaram o fenômeno como péssimo presságio.

Eventos incomuns como a “chuva de sangue” era considerados como péssimos presságios durante a Antiguidade, e esse pensamento permaneceu durante a Idade Média e o início da Idade Moderna. Entretanto, no norte da Europa, esse fenômeno era considerado como um milagre de Deus porque, na Bíblia, Jesus deu seu sangue na cruz pela Humanidade. Em 685, na Inglaterra, há a história de que a “chuva de sangue” também transformou manteiga, queijo e leite em puro sangue. Gregório de Tours anota que em 582 d.C., nos arredores de Paris, uma “chuva de sangue” caiu sobre diversas pessoas causando muito pânico e horror. Em 1190, também em Paris, houve outra ocorrência parecida, também causando enorme pânico na sociedade do medievo, que via todos acontecimentos com olhares sobrenaturais.


Muitos trabalhos escritos que falam da ocorrência de “chuvas de sangue” foram escritos muito tempo depois dos eventos. Por exemplo, o escrito do século 14, do Monge Ralph Higden, afirma que em 787 houve “chuva de sangue” na Irlanda e que isso foi um presságio de uma terrível invasão viking. Outro escrito do século 12 aponta que em 868, na Escócia, também houve pelo menos três “chuvas de sangue” antes de outra invasão viking muito sangrenta que culminou no assassinato de vários monges enquanto suas abadias eram saqueadas.

Durante o reinado de Ricardo Coração de Leão, na Inglaterra, houve a ocorrência de “chuva de sangue” em Londres, que acabou sendo interpretada pela população como sendo um presságio sobre a forte determinação do rei em seus empreendimentos. Alguns entenderam como reprovação divina aos atos do rei; outros entenderam como total aprovação de Deus, que dava seu sangue para o reinado em troca de total fé. Na Alemanha, uma tempestade com episódio de “chuva de sangue”, em 1348, foi vista como um péssimo sinal durante a Peste Negra. Esse fenômeno ganhou maior exposição no século 16, durante a Reforma Protestante: para os seguidores de Lutero, isso era um sinal dos céus de que Deus estava descontente com a Igreja católica. Ainda em território alemão, poucos foram os indivíduos que acreditavam em causas naturais para essas “chuvas de sangue”.

Na Europa, houve mais ou menos 30 casos registrados de “chuva de sangue” entre os séculos 13 e 15. E mais de 190 casos registrados no mesmo continente entre os séculos 16 e 17. Logo depois, entre os séculos 18 e 19, foram registradas 187 ocorrências de “chuva de sangue” em toda Europa. Como sinal milagroso há muitos testemunhos, mas a ciência só foi se interessar com maior profundidade nesse fenômeno no final do século 20, início do século 21, com os registros indianos e paquistaneses de “chuva de sangue”.


Explicações possíveis para o estranho fenômeno...
Enquanto a maior parte dos antigos autores, tais como Hesíodo e Plínio, tendem a descrever a tal chuva como atos dos deuses, Cícero foi o único do período a ter a ideia de que a “chuva de sangue” poderia ter motivos da natureza, ou seja, causas biológicas e fatores naturais. De acordo com o filósofo Heráclito, as duas “chuvas de sangue” no épico “A ilíada” poderiam ser somente água avermelhada, e não sangue propriamente dito. Naqueles tempos, comentaristas naturalistas acreditavam até que a “chuva de sangue” era causada pela evaporação do sangue no solo depois de épicas batalhas, e isso seria a explicação de o fenômeno ocorrer esporadicamente e em uma pequena área.

Durante o século 19 houve maior tendência em examinar cientificamente os fenômenos conhecidos como “chuva de sangue”. Alguns cientistas tentaram conduzir experiências na Academia de Ciências de Berlim, criando chuva a partir de poeira de terra vermelha, por exemplo; a experiência foi bem sucedida e começou-se a compreender que a “chuva de sangue” poderia ser a mistura de terra vermelha com restos de vegetais e animais decompostos. As experiências posteriores feitas na Europa compreenderam que o pó da chuva tinha origem africana, provavelmente vinda das enormes tempestades de areia vindas do Saara, levadas até o continente europeu durante os verões. Essa tem sido a explicação usada até hoje para os fenômenos de “chuva de sangue” na Europa desde antes da Idade Média.

Outros estudos científicos também dão possíveis respostas para a “chuva de sangue”. Por exemplo, a chuva que caiu na Índia mais recentemente está conectada a bactérias vindas de pântanos próximos à cidade de Kerala, onde o fenômeno acabou se tornando mais popular. Essas bactérias, quando em decomposição com produtos orgânicos, fazem a água ficar de coloração avermelhada e elas se alimentam de matérias orgânicas vindas de poluição (como esgoto doméstico).


Como podemos observar e compreender neste post, muitas vezes os fenômenos sobrenaturais não têm nada de sobrenatural. São falhas na interpretação científica ou excesso de superstição de um povo em determinado tempo histórico (como a compreensão medieval para a “chuva de sangue”). Hoje podemos compreender, através da ciência, que há duas explicações plausíveis e bastante possíveis para este fenômeno que ainda faz muitas pessoas ficarem extremamente assustadas.