terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nos Estados Unidos houve escravidão de negros? Sim! E como foi isso? Descobriremos agora...

Hoje vamos tratar de um tema interessante para a historiografia: a questão da escravidão em outros países. Costuma-se debater somente a escravidão no Brasil, como se o problema só tivesse ocorrido no nosso país; entretanto, ele ocorreu em todo continente americano durante o Colonialismo. Também é comum o discurso de que a escravatura brasileira tenha sido extremamente cruel com os negros, mas os indícios históricos mostram que ela foi dura em toda América.

Pouco se debate sobre a história da escravidão dos negros durante o período colonial norte-americano. Parece que o negro aparece nos Estados Unidos só a partir dos anos 1950 com as lutas raciais no sul daquele país e, mais tarde, com as figuras de Martin Luther King Junior, Rosa Parks e Malcolm X. Mas esses problemas que eles lutaram tanto surgiram, justamente, com o preconceito gerado na escravidão de africanos levados para os Estados Unidos.

As imagens usadas no post de hoje, todas elas, foram tiradas dos escravos nos Estados Unidos, bem como as pinturas. Elas mostram como a rotina e os castigos do norte eram bem parecidos com os métodos aplicados nas colônias portuguesas.



Uma das primeiras farsas históricas que devemos romper é a fala comum de que na colônia inglesa do norte americano só havia mão de obra livre com seres humanos usufruindo de liberdade religiosa, liberdade política, liberdade de ir e vir, liberdade individual. Pelo contrário. Encontramos muitos problemas comuns às colônias, como o Pacto Colonial, o Mercantilismo, as taxas coloniais altíssimas e, claro, a escravidão.

Começo da história da escravidão americana...
Nos primeiros anos dos assentamentos da Baía de Chesapeake, era muito difícil conseguir mão de obra, e a taxa de mortalidade era altíssima; os europeus não estavam acostumados àquele ambiente e os índios atacavam com frequência. Escravizar os índios era impossível porque eles não entendiam o sistema capitalista europeu e não se encaixavam ao molde de trabalhador graças ao preconceito generalizado que o índio era preguiçoso.

A maior parte dos trabalhadores vinha do Reino Unido, da Irlanda e da Alemanha como “servos”. Assinavam contrato com os donos das terras, que pagava salário (baixo) ou então eram meeiros. Essas pessoas fugiam das perseguições religiosas, da fome e das guerras dos séculos 17 e 18 – a colonização dos Estados Unidos é tardia em relação à latina, começando no século 16. Assim, não podemos falar ainda em escravidão nesse período dos “pioneiros”, como lá são conhecidos os primeiros colonizadores.

De acordo com os dados feitos no Arquivo Nacional da Inglaterra, entre 1519 e 1867, os navios negreiros ingleses entregaram a maior parte dos escravos no Brasil (38%) e os Estados Unidos receberam cerca de 11% (ficando em quarto lugar neste estranho e sangrento ranking vergonhoso) desses negros como mercadorias, e o maior comércio de escravos na América do Norte estava no porto de Boston.

Os primeiros “tumbeiros” (como eram chamados no Brasil os navios negreiros) chegaram aos Estados Unidos em 1619 na colônia de Jamestown, na Virgínia, trazidos por piratas holandeses que os roubaram de uma embarcação espanhola que levava os homens e mulheres para a atual Colômbia. No início da escravidão, se o negro se convertesse ao Protestantismo, poderia ficar livre depois de alguns anos e, por isso, muitos se converteram por interesse; e isso fez com que os senhores de terras mudassem essa regra.



Em 1621 chega aos Estados Unidos outro carregamento de negros, desta vez liderados por comerciantes portugueses que, de acordo com os documentos disponíveis, eram mulatos filhos de homens portugueses com negras da África. Foi assim que, aos poucos, a escravatura foi crescendo na América do Norte, convivendo com os trabalhadores europeus livres, donos de pequenas propriedades agrícolas. Em 1640, por exemplo, uma corte na Virgínia condenou à “escravidão eterna” um negro que tentou fugir do seu senhor de terras.

Os historiadores apontam que o auge da chegada de tumbeiros nos portos norte-americanos acontece em dois períodos: entre 1700 e 1760 e entre 1800 e 1860 (nota-se que é depois da independência dos Estados Unidos, em 1776, documento que declara que todo ser humano nasce igual e com os mesmos direitos – mas o homem que escreveu esta frase tinha 250 escravos em sua fazenda baseada no plantation de algodão e laranja).

Em 1654 uma outra corte coloca uma punição severa a um escravo que tentou fugir para um quilombo na Geórgia (os quilombos nos Estados Unidos eram chamados “marons”). O homem, John Casor, foi condenado a 250 chibatadas nas costas e nas pernas. Depois de alguns anos ele acabou sendo liberto porque um vizinho comprou sua liberdade depois de testemunhar uma série de violências contra Casor.



Como os africanos não eram protestantes e nem europeus, eles eram considerados estrangeiros (até mesmo os filhos dos escravos nascidos nos Estados Unidos) e, portanto, contavam com leis ainda mais severas. A situação era pior entre os mulatos, pois não eram considerados nem africanos escravizados, nem americanos por direito. Até 1662, os filhos de escravos nasciam livres até que a situação mudou em favor dos senhores de terras: eles incentivavam que os casais escravizados tivessem filhos para terem mais trabalhadores futuros em seu favor. Se a criança fosse filha de um pai europeu, ela ficaria com a mãe até os quinze anos e depois seria liberta e viveria à própria sorte (geralmente acabavam mendigando ou se tornando pequenos batedores de carteiras).

Em 1705 as leis coloniais dão outro duro golpe nas minorias: as práticas religiosas dos índios americanos e dos africanos foram consideradas “práticas satânicas e, portanto, totalmente ilegais”. Estamos falando do contexto geral da caça às bruxas que terminou com a matança de Salém, em Massachussetts. Assim, a conversão forçada tornou-se prática comum entre os escravos e os índios. Todo esse conjunto de lei foi dando força à escravatura nos Estados Unidos enquanto os portos de Boston, de Chesapeake e de Jamestown abarrotavam-se de negros expostos à venda.

Em 1735, algumas cortes de vilarejos na Geórgia tentaram proibir a escravidão em vista dos maus tratos que os negros passavam nas grandes fazendas de algodão, entretanto a força do dinheiro foi maior e as leis e proibições foram barradas. Com o tempo os senhores de terras foram ganhando cada vez mais força porque contavam com o apoio da metrópole inglesa.



Durante o período das Treze Colônias, e depois da independência dos Estados Unidos, a escravidão foi comum. Nas colônias do norte os negros eram comuns como empregados domésticos, artesãos, trabalhadores braçais urbanos. Nas colônias do sul a escravidão era mais comum, mais árdua e mais agressiva; os homens e mulheres trabalhavam 17 horas por dia nos grandes plantations de algodão, laranja, arroz, tabaco e banana. Em 1720, por exemplo, na Carolina do Sul, 65% da população era formada por escravos; de cada dez habitantes, quase sete eram negros escravizados.

De acordo com os historiadores, no período que a escravidão foi aceita e legalizada nos Estados Unidos, pelo menos 1,6 milhão de homens e mulheres chegaram àquele território para trabalharem compulsoriamente. No censo de 1860 havia quatro milhões de escravos nos Estados Unidos (registrados); e a taxa de mortalidade era altíssima por conta das agressões e condições de vida.

O fim da escravidão nos Estados Unidos...
Apesar de o tráfico negreiro ter sido proibido nas terras norte-americanas em 1815, o contrabando continuou até pelo menos 1860 porque era um tipo de mercado extremamente lucrativo. Nesse meio tempo já era forte a campanha abolicionista vinda dos estados do norte. O Compromisso do Missouri, de 1820, autoriza a escravidão apenas abaixo do paralelo 36º. O apoio que ainda poderia existir no Norte a favor da escravidão esvaiu-se com o livro “A cabana do Pai Tomás”, de Harriet Elizabeth Stowe, uma ardente abolicionista que o publicou em 1852.

Com o avanço da campanha abolicionista, em 1860 a Carolina do Sul se declarou independente do restante do país, fato que culminou no movimento de independência das colônias do sul (ainda escravagistas). O “novo país” era formado pelos seguintes estados: Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Geórgia, Flórida, Alabama, Mississippi, Louisiana, Arkansas, Texas e Tennessee. Isso gerou a Guerra Civil Americana (Guerra de Secessão), que terminou com a vitória dos estados do norte. Por fim, em 1865 o governo federal norte-americano aboliu todos os escravos do território, pondo fim, no papel, à escravidão.



Entretanto esse era o ponto exposto do iceberg. Como libertar, do nada, pessoas marginalizadas, pessoas despreparadas para o mercado de trabalho, geralmente analfabetas, extremamente pobres? Esses problemas foram culminando até os anos 50 e 60 do século 20, quando vemos surgir as figuras de Rosa Parks, Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Até hoje a diferença social entre negros e brancos é enorme, mas vem diminuindo aos poucos com políticas afirmativas – como acontece no Brasil.