terça-feira, 7 de outubro de 2014

Fatos, farsas e curiosidades por trás do clássico conto “Chapeuzinho vermelho”...

Quem nunca passou a infância sem ter conhecido a história de “Chapeuzinho vermelho”? Conto de fadas clássico, sua origem é europeia do século 14. O nome do conto vem da protagonista, uma menina que usa um capuz vermelho. O conto sofreu inúmeras adaptações, mudanças e releituras modernas, tornando-se parte da cultura popular mundial, e uma das fábulas mais conhecidas de todos os tempos, junto de outras: “Joãozinho e Maria” (conto já analisado neste blog), “Branca de Neve e os sete anões” etc.


A história do conto...
As origens de “Chapeuzinho vermelho” podem ser rastreadas em vários países europeus, por volta do século 14. Portanto, foi no século 17 que o conto ganhou a forma conhecida atualmente, com a versão dos irmãos Grimm. De acordo com folcloristas, existe a hipótese de o conto ter nascido nas aldeias de três possíveis lugares: França, Itália ou Alemanha, sempre com caráter muito popular.

A versão impressa mais antiga é de Charles Perrault (foto abaixo), intitulada “Le petit chaperon rouge”, que foi retirada do folclore francês. Entretanto, a história de Perrault não fala de uma criança na floresta, mas sim uma “moça jovem, atraente e bem educada”, que ao sair de sua aldeia é enganada por um lobo, que come a velha e arma uma armadilha para a jovem, que também termina sendo devorada, sem o final feliz que conhecemos com o caçador salvando a velha e a criança. Essa versão foi escrita para a corte do Rei Luís 14, no final do século 17, destinada a um público que o rei entretinha com festas extravagantes e prostitutas, que pretendia levar uma moral às mulheres para perceberem os avanços de maus pretendentes e sedutores. Um coloquialismo comum da época era dizer que uma menina que perdeu a virgindade tinha “visto o lobo”. O autor explica a moral da historia ao fim do conto nos seguintes termos:

A partir desta história se aprende que as crianças, especialmente moças jovens, bonitas, corteses e bem educadas, não se enganem em ouvir estranhos. E não é uma coisa inédita se o lobo, desta forma, arranjar o seu jantar. Eu chamo lobo, para todos os lobos que não são do mesmo tipo do lobo da história, há um tipo com uma disposição receptiva – sem rosnado, sem ódio, sem raiva, mas dócil, prestativo e gentil, seguindo as empregadas jovens nas ruas, até mesmo em suas casas. Ai de quem não sabe que esses lobos gentis são de todas as criaturas como as mais perigosas!


A versão dos irmãos Grimm...
No século 19, duas versões da história foram contadas aos irmãos Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, a primeira por Jeanette Hassenpflug e a segunda por Marie Hassenpflug. Os irmãos registram a primeira versão para o corpo principal da história e a segunda em uma sequência do mesmo.

A história com o título de “Rotkäppchen” foi incluído na primeira edição de sua coleção “Kinderund hausmärchen”, de 1812. Perrault é quase certamente a fonte do primeiro conto. No entanto, eles modificaram o final, introduzindo o caçador que abre a barriga do lobo e tira a menina (desta vez uma criança) e sua avó; esse final é idêntico ao do conto “O lobo e os sete cabritinhos”, que parece ser a fonte.

A segunda parte contou como a menina e sua avó prendem e matam um outro lobo, desta vez antecipando seus movimentos baseados em sua experiência anterior. A menina não deixou o caminho quando o lobo falou com ela, sua avó trancou a porta para mantê-lo fora, e quando o lobo se escondia, a avó manda chapeuzinho colocar no fogo uma panela com água de salsichas tinha sido cozidas. O cheiro que sai da chaminé atrai o lobo para baixo, e ele se afogou.

A primeira versão do conto foi eternizada porque os irmãos Grimm reeditaram seus trabalhos em 1857, e só apresentaram ao público a versão que contém o lenhador como figura salvadora da menina e da sua avó.


Outras versões de autores diferentes...
Andrew Lang pesquisou e publicou uma variante com o título “A verdadeira história de chapeuzinho dourado”, obra derivada do conto de Charles Marelles. Esta variante dizia explicitamente que a história havia sido mal contada. A menina foi salva, mas não pelo caçador, quando o lobo tentou comê-la, mas sua boca foi queimada pelo capuz de ouro que ela usava, que ficou encantado.

Ao longo do século 20, a história ganhou enorme popularidade nos contos infantis de todo o planeta. Artistas locais dos países deram retoques regionais ao conto de “Chapeuzinho vermelho”, mas a essência da narrativa era sempre a mesma: o perigo de uma criança andar sozinha, a desobediência às ordens dos pais, a preguiça ao cortar o caminho, a conversa com pessoas estranhas etc. Nos anos 60, a história chegou a ganhar tons de crítica por parte dos grupos feministas, que alegavam ser um conto sexista mostrando uma força selvagem no homem e uma dependência angelical e inocência exacerbada nas mulheres.

Um exemplo dessas versões regionais que ganharam o mundo é o de Guimarães Rosa, em “Fita verde no cabelo”, traz uma versão para adolescentes. Ela vai desde o fluxo das fantasias de uma jovem até o momento em que se defronta com a morte de sua avó, sendo desta forma, obrigada a enfrentar seus medos, angústias e solidão.


Interpretações sociológicas, antropológicas, psicanalíticas e historiográficas...
A parte da menina na cama com o lobo mau traz, além da advertência ostensiva sobre falar com estranhos na rua, no domínio fora de casa, traz muitas interpretações com cunho sexual e pedófilo, como dito anteriormente: na Europa, quando se falava que uma menina havia perdido a virgindade, dizia-se que ela “vira o lobo”.

De acordo com os antropólogos, “Chapeuzinho vermelho” tem sido visto como uma parábola da maturidade sexual. Nesta interpretação, o manto vermelho simboliza o sangue do ciclo menstrual, enfrentando a “floresta escura” da feminilidade. (Não podemos esquecer que o conto original não fala de uma menina, mas de uma jovem sensual). Ou a capa poderia simbolizar o hímen (versões anteriores do conto geralmente não afirmam que o manto é vermelho). Neste caso, o lobo ameaça a virgindade da menina. O lobo antropomórfico simboliza um homem, que poderia ser um amante sedutor, ou predador sexual. Isso difere da explicação ritual em que a entrada na idade adulta é biológica, não socialmente determinada. Essa conotação sexual é muito forte, porém é velada nos antigos contos medievais.

Já Geist Valerius, da Universidade de Calgary, no Canadá, escreveu que a fábula foi baseada em risco real de ataques de lobo na época. Ele argumenta que os lobos eram de fato perigosos predadores, e fábulas serviam como uma advertência válida para não entrar em florestas onde era conhecido para que os lobos viviam, e estar a olhar para tal. Essa interpretação tem o respaldo dos muitos ataques de lobos frequentes em regiões campestres da França, onde a historia era frequentemente contada.


O conto tem sido interpretado como um ritual de puberdade, decorrente de uma origem pré-histórica. A menina sai de casa, entra em uma liminar e passando pelos atos do conto, é transformada em uma mulher adulta pelo ato de sair da barriga do lobo. A menina que insensatamente ouviu o lobo renasceu como uma nova pessoa ao ser salva da barriga dele. Havendo aí um paralelo com a narrativa bíblica em que Jonas consegue ressurgir com vida de dentro da barriga de um grande peixe.

Também há outra interpretação da fábula. No começo da história a protagonista pode escolher entre um caminho longo e seguro e um caminho rápido e perigoso. Fica então evidente um arquétipo cristão de moralidade, quando a menina escolhe um caminho que vai lhe levar de encontro à fera do lobo, ao invés de perseverar na segurança do caminho longo, porém com certeza seguro. Essa seria uma moral essencial das fábulas em geral, onde o protagonista é levado a fazer uma escolha entre a virtude e desafio, ou o vício e o aparente atalho que este parece oferecer.


Há algum tempo mostramos as análises historiográficas, antropológicas, sociológicas e psicológicas do famoso conto “João e Maria”. Ele também mostra muito sobre a época em que era contado, também o período medieval europeu. Essas análises não têm o objetivo de tirar o suposto encanto dessas fábulas quase milenares; mas sim tentamos resgatar os motivos de tais narrativas terem determinados “roteiros moralizantes”. E assim foi, também, com “Chapeuzinho vermelho”, que mostra a dicotomia da época entre religião, sexualidade, amadurecimento, chegada à idade adulta, cuidados com a vida pública contra a vida privada da mulher.