quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Tudo sobre a incrível encenação de “A guerra dos mundos”, em 1938, de Orson Welles...

Hoje vamos falar sobre um episódio mais do que antológico e histórico na comunicação social, sempre aprendido nos bancos das faculdades de Cinema e de Jornalismo. Trata-se do ano de 1938, quando Orson Welles (foto abaixo) encenou o clássico “Guerra dos mundos” no rádio e causou, por causa da extrema semelhança com a realidade, causou grande pânico em todos Estados Unidos. É o nosso tema do post de hoje: a história do episódio, os fatos verídicos, os boatos espalhados, as consequências etc.


A encenação de “Guerra dos mundos” é um episódio antológico da história da comunicação social. Aconteceu em homenagem ao Halloween, no dia 30 de outubro de 1938, e foi ao ar pela cadeia de rádios da CBS. Dirigida e narrada pelo ator, diretor e roteirista Orson Welles, o caso trata-se de uma adaptação extremamente bem feita do livro “Guerra dos mundos”, clássico de H. G. Wells, publicado em 1898.

A transmissão durou 62 minutos e foi apresentada como uma simulação de boletins noticiários, que davam a entender sobre uma real invasão de marcianos por todos Estados Unidos. Os efeitos sonoros fizeram com que o realismo fantástico fosse ainda mais “real”, o que causou pânico em diversas cidades, principalmente porque o show sequer teve pausas comerciais, mas sim uma atuação vibrante com “jornalismo”, “testemunhos”, “entrevistas”.

Muitos jornais da época deram uma cobertura extremamente sensacionalista para o caso da encenação, o que contamina demais as pesquisas de cunhos histórico e social sobre o ocorrido. O que ocorreu é que muitas pessoas estavam ouvindo a rádio NBC, líder de audiência na época, e ao terminar o show popular de Edgar Bergen, rodaram o dial procurando outro tipo de programação e encontraram uma transmissão com tom jornalístico na rádio CBS, que na verdade era a encenação de “Guerra dos mundos”. Entretanto, o que poucas pessoas sabem é que antes da transmissão foi anunciado que se tratava de uma emissão especial, fictícia, do Halloween, mas os outros ouvintes já pegaram a transmissão acontecendo, o que gerou grande histeria coletiva e pânico nas ruas.


Nos dias seguintes à famosa transmissão houve enorme indignação por parte dos concorrentes da CBS e da população em geral, dizendo ter sido enganada em uma brincadeira de mal gosto. Isso fez com que entrasse em cena a Comissão Federal de Comunicação, que regulamenta as concessões de rádio e TV nos Estados Unidos. Apesar da fama ruim do episódio, que hoje é legendário, isso garantiu enormemente a fama de Orson Welles como ótimo roteirista, diretor e dramaturgo, garantindo sua entrada no seleto rol de Hollywood.

Contexto da época...
O livro de H. G. Wells conta a história de uma invasão marciana a Terra, com direito a muita ficção científica e terror entre os crédulos da invasão, pois nesta história os nossos inimigos vêm com vontade de matar.

Vale ressaltar que desde o final do século 19 até os anos 50, Marte foi um planeta que reproduziu grande interesse da comunidade científica. Seus canyons pareciam canais feitos por seres inteligentes. Suas possíveis pirâmides ainda atraem os olhos dos teóricos dos deuses astronautas. E é por causa disso que a encenação causou tanto pânico – até mesmo em membros da comunidade científica que estavam em suas casas descansando o dia de trabalho.

Durante a produção do especial de Welles, a censura (que ainda estava em alta nos meios de comunicação dos Estados Unidos) disse que o documentário era “extremamente realista”, mas acabou liberando porque acreditou que naquele contexto, do Halloween, as pessoas levariam o fato na brincadeira. Outro fato importante para causar realismo foi Welles trocar termos conhecidos por nomes parecidos, assim as pessoas não assimilaram: “Observatório de Princeton” virou “Universidade de Princeton”, e o “Escritório Federal de Climatologia” virou “Escritório Americano de Climatologia”.


Mais informações...
Após a informação de que se tratava de uma encenação, uma ficção, o programa em forma de jornalístico começou com um boletim supostamente meteorológico alertando para a aproximação de um meteorito ao planeta Terra. Em seguida, um “repórter” informou que um meteoro de formato cilíndrico caiu nos arredores de Grover’s Mill, perto de Nova Jersey. Uma multidão partiu de carro para o local, segundo informações do acervo do New York Times. O documentário continuou, dizendo que deste meteorito saíram vários robôs com tentáculos que, com raios poderosos, destruíam tudo que viam pela frente. Após isso, sem verificação, o governo do estado de Nova Jersey declarou toque de recolher.

Para dar um tom maior à realidade, Orson Welles colocou um ator imitando a voz do então presidente Franklin Roosevelt afirmando que os Estados Unidos estavam, a partir daquele instante, sob lei marcial e todo país estava sob toque de recolher, que as pessoas deveriam ficar em casa ouvindo as informações pelo rádio, o que causou enorme audiência recorde à Rádio CBS.

Após essa “declaração” do presidente, outro informe dizia que outros cilindros com objetos cheios de tentáculos estavam caindo por todo país, desde Los Angeles até Chicago, além dos arredores de Nova York. Como as pessoas supostamente deveriam estar em casa sob toque de recolher, a veracidade do fato não poderia ser colocada em xeque e prendeu a atenção das pessoas para o espetáculo.


Depois de vários minutos de muita adrenalina e sensacionalismo, veio uma vinheta da CBS e o locutor Dan Seymour mencionou que o documentário tratava-se de uma ficção científica em homenagem ao Dia das Bruxas; Welles voltou ao ar e agradeceu ao prestígio e à audiência, assim voltava ao normal a programação da CBS. O show terminava com os marcianos sendo contaminados com vírus humanos e morrendo de gripe, varíola, catapora, sarampo etc.

Reação do público em geral...
De acordo com testemunhas da época da transmissão, muitas pessoas saíram de casa correndo para igrejas, escolas e albergues procurando por abrigo. As delegacias de polícia e corpos de bombeiros receberam centenas de ligações desesperadas. Segundo alguns jornalistas, chegaram a ser registrados casos de suicídio e homicídio, o que é uma farsa. Não foi registrada nenhuma morte neste caso de histeria coletiva. De acordo com um estudo feito por alunos de mestrado em Comunicação Social da Universidade de Washington, em 1938 foram publicadas nos Estados Unidos pelo menos 12 mil matérias jornalísticas sobre o caso.

O caso mais especial na reação do público em geral aconteceu em uma vila no estado de Washington, pois o pânico foi geral e fez com que os funcionários da companhia elétrica deixassem o local de trabalho, deixando toda região sem luz. Assim, as pessoas acreditaram veementemente numa invasão marciana aos Estados Unidos; a população da distante vila ficou ainda mais desesperada e fugiu para uma igreja local, ficando lá até a manhã do dia seguinte, quando a luz foi estabelecida e puderam se conectar com o mundo.

Mais informações...
A cobertura jornalística do programa foi afetada pelos recursos extremamente limitadas da época. Assim, jornais da Costa Oeste falavam que a invasão não chegou até lá, mas tinha feito vítimas na Costa Leste, e vice-versa. No geral houve uma cobertura extremamente sensacionalista, o que fez com que nascesse o mito dos suicídios, mas o pânico geral em alguns lugares foi bem real.

De forma geral, muitos editoriais caíram em cima da indústria da comunicação de massa por permitir que um fato desse pudesse ocorrer, alegando que o governo federal dos Estados Unidos comia na mão das grandes indústrias de rádio e de cinema. Entretanto, muitos especialistas em comunicação dizem que esse tipo de editorial vinha da rixa antiga porque os jornais perderam muita publicidade depois do rádio – gratuito – entrar no ar com informação e entretenimento.

Já os jornais e rádios opositoras do governo naquela época culparam o próprio governo federal pela histeria coletiva, alegando que a falta de educação e de cultura no interior do país fez com que as pessoas desconhecessem a cultura das cidades grandes, uma vez que os casos mais graves durante a transmissão de “Guerra dos mundos” foram registrados nos estados mais pobres e nas cidades mais interioranas.


Em 1994, um estudo feito por um grupo de alunos do doutorado em Comunicação Social da Universidade de Colúmbia apontou que cerca de 30 milhões de pessoas ouviram esta transmissão em 1938, nos Estados Unidos e no Canadá. Deste total, cerca de 3 milhões acreditaram que a invasão marciana estava acontecendo e outros 1,3 milhão pensaram que fosse alguma invasão de país europeu à América, como a Alemanha nazista. O estudo ainda mostra, a partir de artigos de revistas e jornais da época, que o assunto ainda era manchete seis semanas depois do ocorrido!

Consequências da encenação…
Depois dos vários relatos polêmicos sobre a encenação de “Guerra dos mundos”, a CBS e Welles vieram a público pedir desculpas à população e ao governo dos Estados Unidos pelo feito, considerado pela imprensa como “de extremo mau gosto”. Nos bastidores, muitos disseram que Orson Welles foi forçado a pedir desculpas sob o risco de ser demitido da cadeia de emissoras da CBS, mas esse feito performático alavancou sua carreira rumo a Hollywood.

Apesar de todo o sensacionalismo causado pela cobertura do programa, a CBS recebeu mais de 3.500 cartas e telegramas de ouvintes dando os parabéns pela qualidade do show e pela performance da equipe de apoio de Welles. Entretanto nem tudo são flores; a Comissão Federal de Comunicações recebeu mais de 15 mil reclamações sobre o excesso de realismo, e alguns cidadãos chegaram a registrar ocorrências na polícia contra a rede de rádios.


Outras informações…
Em 1957, através da rede de TV CBS, Welles deu uma entrevista exclusiva falando sobre o episódio. Ele contou tudo, desde a concepção do show encenando “Guerra dos mundos” até o sensacionalismo da imprensa na época. No geral podemos dizer que a encenação foi tão clássica que o script original de 1938 foi leiloado por algumas centenas de milhares de dólares (143 mil dólares) em 1988.

Adaptações de “Guerra dos mundos” em outros idiomas e países...
No próprio ano de 1938, a encenação de Welles já tinha se tornado clássica para a história dos meios de comunicação por conta do abalo que fez surgir na comunidade norte-americana, envolvendo até mesmo políticos. Por isso é que, com o tempo, ocorreram outras encenações de “Guerra dos mundos” em outros países e outras regiões dos Estados Unidos; e é isso que vamos falar agora...


1. Em 1949, foi produzida no Equador a mesma história dos Estados Unidos, sendo a primeira encenação em língua hispânica. A veiculação de “Guerra dos mundos” causou enorme pânico em Quito, capital do Equador. Nesse país a polícia e os bombeiros foram chamados para vários casos de incêndios e pânico coletivo. O caso gerou um processo judicial contra a emissora rádio e os responsáveis foram exilados na Venezuela;

2. Em 1968, para comemorar os 30 anos da encenação norte-americana, uma rádio AM de Buffalo, em Nova York, repetiu o roteiro sem maiores problemas públicos como ocorrera em 1938;

3. Em 1980 e em 2012, outra rádio da cidade de Buffalo irradiou uma encenação de “Guerra dos mundos” que não teve tanta audiência, o que não causou pânico na população mas somente frustração na direção da emissora FM;

4. Em 1987 e em 1997, duas rádios norte-americanas, uma em Denver e outra em Washington, adaptaram o roteiro de “Guerra dos mundos” para suas realidades temporais e locais. Em 1938 foi encenado um pronunciamento do presidente Roosevelt, e em 1997 foi a vez de uma voz forjada do então presidente Bill Clinton;

5. Em 1988, a NPR, rádio pública dos Estados Unidos, comemorou os 50 anos de aniversário da encenação refazendo o capítulo da “Guerra dos mundos”. Esta encenação acabou ganhando o Grammy naquele ano como melhor gravação em estilo não-musical;

6. Em 1994, uma rádio de Los Angeles irradiou o roteiro original de Welles para “Guerra dos mundos”. Mais uma vez o feito não teve tanta audiência porque o roteiro foi irradiado em uma emissora de baixa audiência;

7. Por sua vez, em 1997, uma grande rádio das Filipinas decidiu fazer uma adaptação de “Guerra dos mundos”. A adaptação dizia que em partes do país já havia furacões e tsunamis causadas pelos aliens. Houve pânico geral e os produtores do show foram processados pelo Ministério Público de Manila, capital daquele país;

8. Em 2010 houve duas adaptações importantes, uma em uma emissora universitária húngara e outra em uma rádio comunitária de Pittsburgh, nos Estados Unidos;

9. Em março de 2011, uma emissora FM de Toronto, no Canadá, também usou o roteiro original criado por Orson Welles para encenar “Guerra dos mundos”, mas o ocorrido não causou nenhum pânico por conta da baixa audiência;

10. Em 2012, uma rádio polonesa, uma no interior dos Estados Unidos e outra rádio universitária no estado de Connecticut também encenaram “Guerra dos mundos”, mais uma vez sem causar nenhum tipo de reação no público;

11. O ano de 2013 talvez tenha sido o mais rico de adaptações deste clássico da comunicação social. “Guerra dos mundos” teve o roteiro adaptado para uma rádio na França, na Malásia, na Austrália, no Canadá, três emissoras nos Estados Unidos e na Inglaterra.

O que podemos observar é que, com o passar do tempo, com as tecnologias de mídia mais recentes, as pessoas pararam a entrar em pânico coletivo porque já contavam com transmissões de televisão ao vivo e espírito crítico suficiente para compararem uma estação da outra, comparando realidade de ficção. Um caso interessante é que no continente dos Estados Unidos muitas pessoas pensaram que o ataque a Peral Harbor, no Havaí, durante a Segunda Guerra Mundial, pelos japoneses, era mais uma encenação de rádio.