terça-feira, 2 de setembro de 2014

Considerações sobre a lenda da Mulher da Meia-Noite...

A história da Mulher da Meia-Noite é uma das mais comuns do folclore latino-americano. Seu mito é riquíssimo, e por isso tem diversas variantes – principalmente no continente sulamericano.

De acordo com os folcloristas, a versão que parece ser a mais antiga e bem documentada é uma novela escrita por Wilkie Collins em 1859, chamada “The woman in white”, publicada como folhetim entre 1859 e 1860 pela revista “All the year round”, na Inglaterra, e pelo “Harper’s Bazar”, nos Estados Unidos, e pela primeira vez em livro em 1860; é considerada a primeira novela de mistério e fez muito sucesso entre o público jovem da época.

No Brasil, a Mulher da Meia-Noite também recebe os nomes de Bela da Noite ou Mulher de Branco – esta lenda chegou a aparecer em algumas novelas da Rede Globo, inclusive. Na Venezuela é chamada de La Sayona. No México é conhecida como La Llorona. Nos países andinos existe uma figura folclórica chamada Paquita Muñoz. Na Argentina e no Uruguai acabou sendo chamada de Verónica del Espejo.


No Brasil, por ter uma dimensão territorial gigantesca, a lenda da Mulher da Meia-Noite tem pelo menos três versões para aterrorizar os ouvintes curiosos:

1º) Uma grávida de gêmeos, prestes a dar à luz, logo após o casamento, foi abandonada pelo marido. Quando os filhos nasceram, ela os matou e fugiu de casa. Mais tarde, percebeu o erro que cometera. Uma das maneiras de destruí-la seria fazê-la ir até onde estão enterrados os filhos;

2º) Uma bela jovem que aparece em estradas e pede carona para os homens. Muito bela e sedutora, tenta seduzi-los e fazê-los cometer traição. Se ele realmente trair, ela poderá matá-lo, caso contrário, ela apenas irá feri-lo;

3º) Aparentemente, uma mulher que anda pelo cemitério madrugada adentro vagando pelas lacunas e sepulturas. Ouve-se o choro pelos filhos que ela mesma estrangulou.

Ainda segundo os folcloristas mais renomados, essa lenda é tão rica que também tem versões locais para a própria versão nacional. Algumas delas que foram documentadas por estudantes de antropologia urbana, em pesquisa de campo, estão listadas a seguir:


- A Mulher de Branco: talvez tenha sido baseada no conto original inglês. Trata-se da história de uma mulher muito bonita que, em estradas movimentadas, aborda os homens durante a madrugada, principalmente caminhoneiros;

- A Loura do Bonfim: habitaria o Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte;

- A Loura de Caeté: cuja lenda diz ter sofrido um acidente de carro na perigosa estrada que liga a BR-381 à cidade de Caeté, em Minas Gerais, e morrido, juntamente com o filho. O fantasma da loura vai, então, à beira da estrada em busca de uma carona que a leve à cidade para buscar ajuda. Os que não param seus veículos para socorrê-la, ao olhar pelo retrovisor no decorrer da viagem, a verão sentada no banco traseiro, de onde desaparecerá em seguida;

- A Loura do Banheiro: a história que tem vertentes em todo o continente americano, uma das lendas urbanas com temática escolar mais conhecida. Neste blog temos um post exclusivo para falar sobre este assunto e o debate histórico-pedagógico envolvendo este mito;

- Maria Degolada: lenda regional do Rio Grande do Sul sobre uma mulher que viveu em Porto Alegre. Reza a lenda que ela foi degolada pelo marido infiel logo após a lua-de-mel no morro que hoje é conhecido como Morro da Maria Degolada, que se chama também Morro da Conceição, localizado na zona leste de Porto Alegre no Alto do Bairro Partenon;


La Llorona talvez seja a lenda urbana mais famosa do México. É tão marcante para aquele povo que os imigrantes vivendo nos Estados Unidos levaram para lá esta história tão triste e tão medonha para os crédulos. Assim como no Brasil, existem várias versões para o mesmo mito, mas a mais conhecida é a que remonta o século 16, quando os moradores da Cidade do México se refugiavam em suas moradias durante a noite. Isto se dava, especialmente, com os moradores da antiga Tenochtitlán, que trancavam suas portas e janelas, e todas as noites eram acordados pelos prantos de uma mulher que andava sob o luar, chorando; daí o nome “La Llorona”, ou seja, “A Chorona”.

Aqueles que procuraram averiguar a causa do pranto, durante as noites de lua cheia, disseram que a claridade lhes permitia ver apenas uma espessa neblina rente ao solo e aquilo que parecia com uma mulher, vestida de branco com um véu a cobrir o rosto, percorrendo a cidade em todas as direções. Ao chegar às margens do Lago Texcoco, desaparecia. Poucos homens se arriscaram a aproximar-se do espectro fantasmagórico – aqueles que o fizeram sofreram com espantosas revelações, ou morreram.


A lenda envolvendo a história de La Llorona é tão antigo e comum no México que, em 1933, serviu de temática para a gravação de um filme homônimo, que fez muito sucesso no México e em alguns países latinos.

Algumas variantes desta lenda urbana afirmam que:

- A versão original da lenda seria de origem mexicali (povo primitivo que habitou o México), e narra que esta misteriosa mulher era a deusa Cihuacóatl, que se vestia com roupas da nobreza pré-colombiana e quando da conquista do México, gritava: “Oh, meus filhos! Onde os levarei, para que não acabe por perdê-los?”, e realizava augúrios terríveis;

- Uma versão diz que La Llorona era a alma de Malinche, penando por trair os mexicanos durante a conquista do México;

- Outra relata a tragédia de uma mulher rica e gananciosa que, enviuvando-se, perdeu a riqueza e, não suportando a miséria, afogou seus filhos e matou-se, mas retornou para penar por seus crimes;

- Outra fonte diz que uma jovem apaixonada morreu um dia antes de casar-se, e trazia para seu noivo um buquê de rosas, que nunca chegou entregar;

- Uma variante relata que seria uma esposa morta na ausência do marido, a quem voltaria para dar um beijo de despedida;

- Diz, ainda outra versão, que esta mulher fora assassinada pelo marido e aparecia para lamentar sua morte e protestar sua inocência;

- Outra variante diz que ela fora uma princesa inca que tinha se apaixonado por um soldado espanhol. Eles viveram um grande romance e tiveram um filho. Para ele, era um filho bastardo, e casou-se com outra. A princesa então afogara a criança, e o arrependimento pelo seu crime a fizera morrer;

- Já outra versão, baseada na variante venezuelana, diz que esse seria um espírito de uma mulher que, depois de descobrir as traições do marido, teria tido um surto de loucura e teria afogado seus filhos. Depois de tomar consciência do que fez, ela teria se matado. E agora, ela vaga pelas estradas punindo com a morte os homens infiéis.