terça-feira, 16 de setembro de 2014

A história dos crânios de cristal: maldição, folclore popular, fato ou farsa?!

No post de hoje vamos falar um pouco sobre os crânios de cristal encontrados principalmente no sul do México e ao longo da América Central (Mesoamérica). De acordo com uma lenda local, eles têm o poder da vida e da morte, e quando todos os crânios forem descobertos e reunidos estaremos próximo do fim dos tempos. Entretanto, a história desses objetos antropológicos também é cheia de mentiras e farsas deliberadas, de falsos pesquisadores que no século 19 queriam conseguir mais dinheiro para pesquisas falsas e terem seus nomes registrados nos anais da ciência.


1. Crânio de cristal é o nome dado a uma série de esculturas no formato de crânios humanos esculpidas em quartzo rosa ou leitoso, artisticamente conhecido como “cristal de rocha”, às quais se alega, por seus descobridores, serem artefatos de civilizações pré-colombianas;

2. Um dos pontos mais controversos envolvendo a história dos crânios de cristal é que nenhum dos exemplares disponíveis em museus e institutos de pesquisas, colocados à prova em estudos científicos, foi autenticado como de origem mesoamericana pré-colombiana;

3. Resultados de estudos demonstraram que os exemplares examinados foram fabricados em meados do século 19, provavelmente na Europa. Apesar de algumas reivindicações no sentido de popularização literária, as lendas dos crânios de cristal com poderes místicos não figuram na genuína mitologia mesoamericana ou de outros nativos americanos;

4. Os crânios são frequentemente alegados como representantes de fenômenos paranormais por alguns membros do movimento da Nova Era, e têm sido muitas vezes retratados como tal na ficção. Além disso, têm sido um tema popular que aparece em numerosos representantes de ficção científica em séries de televisão, romances e videogames;

5. Foi feita uma distinção, por alguns pesquisadores, entre os menores crânios de cristal, do tamanho de uma pérola, que apareceram pela primeira vez em meados do século 19, e os maiores (aproximadamente em tamanho real), que apareceram no final do século 20. Os crânios de cristal maiores têm atraído muito a atenção popular nos últimos tempos, e alguns pesquisadores acreditam que eles tenham sido fabricados como falsificações na Europa;

6. O comércio de artefatos pré-colombianos falsificados se desenvolveu durante o século 19;

7. Embora vários museus tenham adquirido crânios, foi Eugène Boban, um negociante de antiguidades que abriu sua loja em Paris em 1870, quem ficou mais associado às coleções de crânios de cristal. Muito de sua coleção, incluindo três crânios de cristal, foi vendida para o etnógrafo Alphonse Pinart, que doou a coleção para o Trocadéro Museum, que mais tarde se tornou o Musée de l'Homme;

8. Muitos crânios de cristal são reivindicadas como sendo pré-colombianos, geralmente atribuídos aos astecas ou maias. A arte mesoamericana tem numerosas representações de crânios, mas nenhuma dessas coleções de museus vem de escavações documentadas;

9. Pesquisas realizadas em vários crânios de cristal no Museu Britânico, em 1967, 1996 e novamente em 2004, mostraram que as linhas recuadas na marcação dos dentes (esses crânios não tinham mandíbulas separadas, ao contrário do Crânio de Cristal de Mitchell-Hedges) foram esculpidas usando equipamentos de joalharia (ferramentas rotativas) desenvolvidos apenas no século 19, questionando uma suposta origem pré-colombiana;

10. O tipo de cristal foi determinado por exame de inclusões de cloreto, e só pode ser encontrado em Madagascar e no Brasil, sendo, portanto, inalcançável ou desconhecido dentro da Mesoamérica. O estudo concluiu que os crânios foram criados no século 19 na Alemanha, muito provavelmente em workshops na cidade de Idar-Oberstein, conhecida por elaborar objetos feitos a partir de quartzo brasileiro importado no período no final do século 19;


11. Foi estabelecido, tanto pelo Museu Britânico, quanto pelo de Paris, Musée de l'Homme, que os crânios de cristal foram originalmente vendidos pelo francês Eugène Boban, negociante de antiguidades, que estava atuando na Cidade do México entre 1860 e 1880;

12. Uma investigação realizada pelo Instituto Smithsoniano em 1992, sobre um crânio de cristal fornecido por uma fonte anônima, que afirmou tê-lo comprado na Cidade do México em 1960, e que era de origem asteca, concluiu que, igualmente, fora feito recentemente. De acordo com o Instituto Smithsoniano, Boban adquirira os crânios de cristal que ele vendeu a partir de fontes na Alemanha – conclusões que estão em consonância com as do Museu Britânico;

13. Um estudo detalhado do Museu Britânico e do crânio de cristal Smithsoniano foi aceito para publicação pelo Journal of Archaeological Science. Usando microscópio eletrônico e cristalografia de raios X, uma equipe de pesquisadores britânicos e americanos descobriu que o crânio do Museu Britânico foi trabalhado em uma substância dura abrasiva, tal como coríndon ou diamante, e foi moldado usando uma ferramenta de disco rotativo feito de algum metal adequado;

14. A amostra do Instituto Smithsoniano havia sido trabalhada com um abrasivo diferente, o composto de carbeto de silício, ou carborundum, que é uma substância sintética fabricada utilizando modernas técnicas industriais;

15. Nenhum dos crânios existentes em museus vem de escavações documentadas. Outro exemplo paralelo é fornecido pelos espelhos de obsidiana na Mesoamérica, objetos rituais amplamente representados na arte asteca. Embora alguns espelhos de obsidiana sobreviventes tenham vindo de escavações arqueológicas, nenhum dos espelhos astecas de obsidiana é documentado;

16. Crânios de cristal têm sido descritos como “um exemplo fascinante de artefatos que fizeram o seu caminho em museus sem nenhuma evidência científica para provar sua origem pré-colombiana”. Um caso semelhante é a máscara Olmeca talhada em jade; curadores e estudiosos se referem a ela como “estilo olmeca”, apesar de, até o presente momento, nenhum exemplo ter sido recuperado em um contexto olmeca arqueologicamente controlado, o estilo é igual. No entanto, tais máscaras foram recuperadas a partir de sítios de outras culturas, incluindo uma depositada no recinto cerimonial de Tenochtitlán (Cidade do México);

17. Talvez o crânio mais famoso e enigmático tenha sido o descoberto em 1924 por Anna Le Guillon Mitchell-Hedges, filha adotiva do aventureiro e autor popular britânico Frederick Albert Mitchell-Hedges. Tem-se observado, após o exame por pesquisadores do Instituto Smithsoniano, ser quase uma réplica do crânio do Museu Britânico – quase exatamente o mesmo formato, mas com mais modelagem detalhada dos olhos e os dentes;

18. Anna Hedges alegou tê-lo encontrado enterrado sob um altar desabado dentro de um templo em Lubaantun, Belize. Tanto quanto pode ser determinado, F. A. Mitchell-Hedges não fez nenhuma menção à alegada descoberta em qualquer um dos seus escritos sobre Lubaantun, assim como outras pessoas presentes no momento da escavação não foram documentadas como observando tanto a descoberta do crânio, como a presença de Anna na escavação;

19. Em uma carta de 1970, Anna também afirmou que “foi contado pelos poucos remanescentes maias que o crânio fora usado pelo sumo sacerdote a serviço da morte”. Por esta razão, o artefato é por vezes referido como “Crânio da Condenação”. Anna Mitchell-Hedges excursionou com o crânio em 1967, cobrando pela exibição, e continuou a dar entrevistas sobre o artefato até sua morte em 2007;

20. O crânio é feito de um bloco de quartzo claro com o tamanho de um crânio humano pequeno, medindo cerca de 13 centímetros de altura, 18 centímetros de comprimento e 5 centímetros de largura; a mandíbula inferior é desanexada. No início de 1970, ficou sob os cuidados temporários do restaurador de arte Frank Dorland, que ao inspecioná-la reivindicou que tinha sido “esculpida” sem respeito aos eixos naturais do cristal, portanto sem o uso de ferramentas de metal;


21. Dorland relatou ter sido incapaz de encontrar qualquer marca, exceto para os traços de moagem mecânica sobre os dentes, e especulou que ela foi esculpida de forma rudimentar, provavelmente com diamantes, e as mais finas formações, afiação e polimento foram conseguidas através do uso de areia ao longo de um período de 150 a 300 anos;

22. Enquanto sob os cuidados de Dorland, o crânio chamou a atenção do escritor Richard Garvin, na época trabalhando numa agência de publicidade onde supervisionava a Hewlett-Packard. Garvin fez arranjos para que o crânio fosse examinado pelo laboratório de cristal da HP em Santa Clara, onde foi submetido a vários testes. O laboratório determinou que não era um composto (como Dorland tinha suposto), mas que fora formado a partir de um único cristal de quartzo;

23. Assim como os traços de moagem mecânica sobre os dentes observados por Dorland, o arqueólogo Norman Hammond relata que os orifícios (presumivelmente destinados a serem estacas de apoio) mostraram sinais de serem feitos por perfuração com metal. Anna Mitchell-Hedges recusou os pedidos subsequentes para submeter o crânio a mais testes científicos;

24. Há provas documentais de que Mitchell-Hedges comprara o crânio em 1944. O crânio estava sob a custódia de Anna Mitchell-Hedges, filha adotiva de Frederick. Ela se recusou a deixá-lo ser examinado por peritos (fazendo muito duvidosa a alegação, que foi relatada pela R. Stansmore Nutting, em 1962). Em algum lugar entre 1988 e 1990, Anna Mitchell-Hedges excursionou com o crânio;

25. De acordo com a documentação historiográfica, os crânios de cristal do Museu Britânico, de Paris e do Instituto Smithsoniano foram comprados no século 19 por especialistas em forjar antiguidades egípcias e mesoamericanas, por serem “civilizações da moda” na época, quando o interesse europeu era muito maior em relação aos artigos e artefatos que, juntos deles, vinham cheios de lendas para incrementar o valor do negócio;

26. Alguns acreditam na alegação paranormal de que crânios de cristal podem produzir uma variedade de milagres. Ann Mitchell-Hedges dizia que o crânio que ela supostamente descobrira poderia produzir visões, cura do câncer, uma vez que ela usou suas propriedades mágicas para matar um homem e, em outra instância, viu nele uma premonição do assassinato de John F. Kennedy;

27. Reivindicações da cura e de poderes sobrenaturais dos crânios de cristal não têm nenhum apoio da comunidade científica, que não encontrou qualquer evidência de fenômeno incomum associado aos crânios, nem qualquer razão para uma investigação mais aprofundada, além da confirmação de sua proveniência e método de manufatura;

28. Outras especulações historicamente infundadas da lenda dos crânios de cristal são alegadas com a conclusão do ciclo-b'ak'tun do calendário maia em 21 de dezembro de 2012, sob a alegação de que a reunião das treze caveiras místicas iria evitar uma catástrofe, como previsão implícita no fim deste calendário – o que não chegou a acontecer, obviamente;

29. Alguns protoarqueólogos falam que os crânios de cristal também poderiam estar ligados à possível civilização de Atlântida, um assunto totalmente debatido e controverso. Outro grupo chega a falar de uma possível relação com uma civilização marciana que fora devastada daquele planeta há mais de 36 mil anos;

30. Crânios de cristal são também referenciados pelo autor Drunvalo Melchizedek. Ele escreve ter se deparado com descendentes indígenas maias na posse de crânios de cristal em cerimônias nos templos de Yucatán, e que eles continham almas dos antigos maias que haviam entrado neles para aguardar o momento em que seu conhecimento antigo fosse, uma vez mais, necessário;


31. As alegadas associações e origens dos mitológicos crânios de cristal ao folclore espiritual nativo americano, por escritores ligados ao neoshamanismo, tais como Jamie Sams, são igualmente descartadas pelos antropólogos que estudam os mitos mesoamericanos;

32. Na década de 1970, os crânios de cristal entraram na mitologia da Nova Era como relíquias potentes da antiga Atlântida, e eles adquiriram um número canônico: houve exatamente treze crânios. Nada disso teria a ver com as questões indígenas norte-americanas, se os crânios não tivessem atraído a atenção de alguns dos mais ativos autores de Nova Era;

33. Alguns adeptos da teoria dos deuses astronautas afirmam que os crânios são autênticos, mesmo com todas as provas mostrando o contrário. Para eles, seres vindos de outros planetas ou galáxias, teriam ensinado os maias e astecas a desenvolverem tais objetos de cultuação religiosa a partir de técnicas somente desenvolvidas pelos terráqueos no século 19, o que explicaria a confusão de datas quando estudados com mais rigor tais objetos, hoje considerados mais artísticos do que históricos.