terça-feira, 26 de agosto de 2014

Teorias conspiratórias envolvendo o Papa João 23. Fatos ou farsas?!

Apesar de ser amado, aclamado e homenageado por muitos, o Papa João 23 (1881-1963) (foto abaixo) é também alvo de várias críticas, acusações e teorias de conspiração, que são feitas e defendidas majoritariamente por alguns grupos de católicos tradicionalistas. Como, por exemplo, estes grupos minoritários e marginalizados defendem que João 23 era maçom ou rosacruciano; era simpatizante ou cúmplice do comunismo, do socialismo e de correntes radicais anticatólicos; e era um herege modernista por defender o ecumenismo, a liberdade religiosa e a realização do Concílio Vaticano II. Por acusá-lo de ser um herege, alguns até defendem a teoria conspiratória de que João 23 era um antipapa que usurpou ilegalmente a cátedra de São Pedro, que devia pertencer ao cardeal Giuseppe Siri.


Existem também alguns grupos, ligados à ufologia ou à detecção e crença de profecias apocalípticas, que defendem que João 23 teve vários contatos com extraterrestres e redigiu um conjunto de profecias com muitas metáforas que abrangem desde a Segunda Guerra Mundial até ao fim do mundo. Parte destas profecias obscuras foram registradas no livro “As profecias do Papa João XXIII”, de Pier Carpi.

Os principais grupos católicos não acreditam ou negam todas estas críticas, teorias e especulações conspiratórias mencionadas e descritas com maior pormenor nas seções seguintes. Eles defendem-se dizendo que estas acusações, vindas de grupos marginalizados e ávidos de teorias de conspiração, são tão vagas e mal fundamentadas que a igreja católica nunca se deu ao trabalho de refutá-las. Eles defendem que todas as dúvidas importantes acerca da santidade, catolicidade e conduta do Papa João 23 foram clarificadas ou refutadas direta ou indiretamente pela sua beatificação. Eles também mencionam que a Igreja conseguiu beatificá-lo e canonizá-lo sem grandes problemas e escândalos, sendo um forte sinal revelador do pouco impacto que estas críticas e acusações conspiratórias causaram.


Suposta relação do Papa com a Maçonaria...
Vários grupos de pessoas, nomeadamente certos grupos católico-tradicionalistas, acusam o Papa João 23 de ter ligações com a Maçonaria e de ser fortemente influenciado por esta mesma associação. Segundo uma outra teoria, João 23, desde 1935 (naquela altura, ele era delegado apostólico na Turquia e na Grécia), já era um membro de uma sociedade iniciática com características maçônicas e rosacrucianas.

Outros até dizem que ele foi um membro do Priorado de Sião. Algumas destas teorias estão registadas e defendidas no livro “As profecias de João XXIII”. Yves Marsaudon, um barão e maçom francês, afirmou que o Papa tornou-se um maçom de 33º grau durante a sua estada na França como núncio apostólico. Em 1994, o grão-mestre do Grande Oriente da Itália declarou que Roncalli iniciou-se na Maçonaria em Paris e participou nos trabalhos das lojas maçônicas de Istambul (Turquia). Em 2002, um jornal português revelou mais algumas supostas provas de que Roncalli era de fato um maçom praticante.

As acusações mencionadas são graves porque a Igreja ensina que todos “os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”. Os principais grupos católicos negam qualquer envolvimento do Papa João 23 na Maçonaria ou em qualquer associação secreta.


Relações do Papa com o comunismo, o socialismo e o radicalismo...
Além de acusarem-no de maçom, o Papa João 23 é também acusado de ser um simpatizante e até um cúmplice do comunismo, do socialismo e de correntes radicais. Estes movimentos modernos são todos eles condenados pela igreja católica. Existem relatos que dizem que Roncalli, antes de ser Papa, convivia e socializava amavelmente com muitos comunistas, socialistas e radicais. No seu octagésimo aniversário (em 1961), o Papa até recebeu, por telegrama, felicitações de Khrushchev, que era, naquela altura, líder da União Soviética.

O Papa é também acusado de firmar um acordo secreto com a União Soviética, em 1962. Neste acordo, João 23 comprometeu-se com o negociador soviético a não atacar o povo nem o regime da Rússia. Isso era para que Moscou permitisse que os observadores ortodoxos russos comparecessem ao Concílio Vaticano II.

Vários católicos tradicionalistas acusam também o Papa de não condenar abertamente o comunismo e o socialismo na sua encíclica “Mater et magistra” e no Concílio Vaticano II. Eles também acusam esta famosa encíclica de promover e conter ideias socialistas. Mas, a verdade é que o próprio Papa João 23 teve o cuidado de incluir na “Mater et magistra” as condenações do Papa Pio 11 sobre o comunismo e o socialismo.


Concílio Vaticano II e acusações de heresia e modernismo...
Existem vários grupos de católicos tradicionalistas que acusam o Papa João 23 de ser um defensor e praticante da “heresia modernista”. Eles afirmam que, já em 1925, Roncalli era suspeito pelo Santo Ofício de ser modernista, acabando por ter que ser enviado para Bulgária como Visitante Apostólico. Tais grupos afirmam também que Roncalli era um grande admirador do movimento modernista francês Le Sillon, que foi condenado pelo Papa Pio 10.

Os referidos sectores referem também que o Papa João 23, já desde cedo, tinha ideias muito heterodoxas e até heréticas. Como, por exemplo, eles alegam que Roncalli, sendo um maçom, não acreditava na divindade de Jesus e em milagres, sendo conhecido por vários maçons como um deísta e racionalista. Roncalli era também visto como um defensor acérrimo da liberdade e dos direitos humanos (incluindo a liberdade religiosa), do ecumenismo, do diálogo interreligioso (nomeadamente com os judeus) e do respeito e tolerância religiosas. Roncalli chegou mesmo a designar os “cismáticos” e os “heréticos” de “irmãos separados” que pertencem a uma única “família cristã”.

Os grupos tradicionalistas dizem que a queda dos “valores morais” começou no Concílio Vaticano II, idealizado justamente por João 23, onde se introduziu também muitas outras inovações, como a colegialidade dos bispos, o ecumenismo, a liberdade religiosa, a valorização da dignidade e dos direitos humanos, a reforma litúrgica do Rito Romano e a abertura da Igreja ao mundo moderno. Eles acreditam que estas inovações são heréticas e constituem uma ruptura com a tradição católica, fazendo com que a atual Igreja não seja verdadeiramente católica.


Teoria do Antipapa...
O Papa João 23 é também acusado de ser um antipapa por alguns grupos tradicionalistas. Eles alegam que João 23 era de fato um herege, um apóstata e um não-católico que pretendia conspirar contra a Igreja através do Concílio Vaticano II. Alguns destes grupos acreditam inclusivamente que o Cardeal Giuseppe Siri (foto abaixo) foi de fato eleito Papa no conclave de 1958, mas que teve que dar o seu lugar a Roncalli devido às ameaças dos comunistas (nomedamente dos soviéticos).


Os apoiadores desta teoria afirmam também que esta suposta resignação do Cardeal Siri era ilegal, por isso eles acreditam que Siri é que era o verdadeiro e legítimo Papa (eles até acreditam que Siri escolheu o nome papal de Gregório 17). Eles acham por isso que João 23 era só um mero usurpador ilegal da cátedra de São Pedro. Mas existem também muitos estudiosos, entre os quais católicos tradicionalistas que defendem que esta teoria é falsa e foi baseada em interpretações confusas e distorcidas dos fatos e de certas notícias em língua italiana.

Supostas profecias e encontros com extraterrestres...
Para além das críticas e acusações, existem também várias alegações e teorias que defendem que Angelo Roncalli redigiu, em 1935, um conjunto de profecias “surpreendentemente claras”, sendo em parte reveladas ao mundo no livro “As profecias do Papa João XXIII”, de Pier Carpi. Como qualquer profecia, as suas mensagens estão carregadas de metáforas. Abrangem desde a iminente II Guerra Mundial até o final dos tempos.

Os conspiracionistas acham que João 23 prognosticou a entrada em cena de um Santo Padre em cujo tempo “a Mãe estenderá o braço e se abrirá ao mundo” – ou seja, a Igreja abarcará o mundo todo. A Igreja aceitará então “uma pequena corrente”, isto é, adotará princípios gnósticos. Assim, a doutrina da reencarnação será então aceita.

De acordo com as supostas profecias, João 23 previu os avanços da biogenética, como o Projeto Genoma Humano, e a clonagem de animais. De acordo com ele, nesse ponto entrará em cena o Anticristo.


No final da década de 1990, um grupo de conspiracionistas espalhou rumores na internet dizendo que o diário privado de João 23 contém mais revelações e profecias sobre o futuro. Eles afirmam que o Papa, através do seu contato direto com Cristo e com Nossa Senhora, recebeu a preciosa informação de que, no dia 25 de dezembro de 2000, Cristo apareceria em Nova York, dando início à Parusia e ao fim do mundo, o que não aconteceu. Apesar de este Papa ter de fato um diário, não existem evidências fundamentadas de que este diário privado contenha visões apocalípticas do futuro.

Existe, ainda, o grupo de ufólogos que atribuem a João 23 uma profecia relativa ao suposto ressurgimento de Atlântida, o continente perdido, e ao contato imediato com extraterrestres e discos voadores no Vaticano. Ainda de acordo com esse assunto extremamente controverso, alguns ufólogos declaram categoricamente que João 23 teve vários encontros com seres supostamente não-humanos, sendo que um grupo deles esteve com o Papa no Castel Gandolfo, em 1961, só não se sabe como os ufólogos tiveram essa informação, que deveria ser secreta.

Segundo estes relatos, no fim deste encontro em Castel Gandolfo, o Papa afirmou a um dos seus assistentes o seguinte: “os filhos de Deus estão em todas as partes; algumas vezes temos dificuldade em reconhecer a nossos próprios irmãos”.