sábado, 12 de julho de 2014

Você conhece a hipótese de dilúvio no Mar Negro? Fato ou farsa?!

Se você reparar na foto de satélite abaixo do Mar Negro, vai reparar que ele parece ser um imenso lago, pois só tem uma única saída para o Mar Mediterrâneo, que é o chamado Estreito de Bósforo, onde está localizada a cidade de Istambul, na Turquia, antiga Constantinopla, que um dia foi capital do Império Romano do Oriente, rivalizando a primazia com Roma, esta sendo capital do Império Romano Ocidental.


O dilúvio do Mar Negro é uma hipótese da história natural, que propõe que o antigo Mar Negro havia sido um mar fechado e doce (um enorme lago) a ocupar o fundo de uma depressão; este mar doce teria sido inundado pelas águas salgadas da bacia do Mediterrâneo por volta do ano 5600 a.C., quando um acidente geológico provocou o rompimento de um istmo que unia a Trácia à Anatólia e, por consequência, a invasão do Mar Negro pelas águas da Bacia Mediterrânica e a submersão das suas depressões costeiras. Esta teoria foi manchete de jornais como o The New York Times em dezembro de 1996, que foi quando a teoria tornou-se popular.

Na imagem abaixo, feita a partir de imagens de satélites da Nasa, vemos o leito do Mar Negro; as partes em azul claro seriam as terras que um dia foram secas e habitadas por pastores e agricultores, emersas por volta do século 56 antes de Cristo.


Analisando as hipóteses do dilúvio...
Em 1998, William Ryan e Walter Pitman, geólogos da Universidade de Colúmbia, publicaram evidências do rompimento de um suposto “Istmo do Bósforo” por volta do ano 5600 a.C. Nesta época de nossa história geológica, ocorria, no nordeste da Europa, o derretimento das vastas camadas de gelo da última glaciação, cuja consequência direta foi transformar o Mar Negro e o Mar Cáspio em vastos lagos de água doce (ou salobra, no caso do Cáspio), ao mesmo tempo em que o nível da Bacia Mediterrânica permanecia bem abaixo das quotas atuais. Cogita-se, inclusive, que, a certo ponto, o Mar Negro e o Mar Cáspio poderiam ter estado ligados.

Conforme, todavia, o degelo avançava, muitos dos cursos de água que alimentavam o Mar Negro mudaram de direção e começaram a encontrar saídas que levavam à Bacia Atlântica – pelo Mar Báltico, ou mesmo pelo Mar do Norte –, o que teria causado um déficit na alimentação do Mar Negro e feito o seu nível regredir, e perder também a ligação com o Cáspio, se esta realmente existiu. Do recuo do Mar Negro surgiu uma depressão fertilíssima, onde, muito possivelmente, hordas populacionais se sedentarizaram, como, por exemplo, a civilização indo-europeia dos curganos, ao norte, ou os proto-sumérios, ao sul.

O prosseguimento do degelo, em benefício do Atlântico, fez elevar o nível do Mediterrâneo, e por consequência, do Mar Egeu, que absorveu as águas doces de regiões costeiras da Anatólia e da Grécia.

Quando, finalmente, em fins do sexto milênio a.C., o nível do Mediterrâneo (e do Egeu) subiram a quotas similares às modernas, e segundo a sugestão de Ryan e Pitman, a pressão do Mediterrâneo forçou o rompimento do antigo Istmo do Bósforo, provocando o surgimento de uma cascata de água salgada que inundou os 155.000 quilômetros quadrados da antiga depressão do Mar Negro e expandiu os limites daquele mar em direção ao norte e ao oeste (principalmente).

A principal consequência antropológica deste evento foi a diáspora dos indo-europeus que vicejavam às margens do antigo Mar Negro; estes foram forçados a fugir, espalhando-se em direção à Europa Central, ao Vale do Danúbio, à Anatólia, ao Cáucaso, ao Irã, à bacia Caspiana e outras regiões. É possível também que os sumérios tivessem-se refugiado do dilúvio no planalto iraniano, de onde mais tarde desceriam para a Mesopotâmia.

Quem acredita nesta teoria de um antigo Mar Morto como um grande lago fértil também faz uma associação: ao antigo dilúvio descrito na Bíblia, que dizimou grande parte da população de um lugar ao qual não temos certeza, mas a Bíblia afirma ser o mundo inteiro. Entretanto, vale lembrar que, no século 56 antes de Cristo, o conhecimento de “mundo” era extremamente limitado e, por isso, acreditava-se que aquelas terras fossem todo o planeta Terra.


Sobre o evento geológico, Ryan e Pitman escreveram: “A cada dia, 42 quilômetros cúbicos de água foram despejadas, duzentas vezes o volume do que flui pelas cataratas do Niágara. A torrente do Bósforo rugia e jorrava em fluxo máximo por pelo menos trezentos dias”. A análise dos sedimentos no Mar Negro em 2004 por um projeto europeu revelou-se compatível com a conclusão de Pitman e Ryan; isso porque no leito do Mar Negro próximo às margens atuais foram encontradas casas toscas, ferramentas, cercados, pequenas fazendolas, templos rudimentares etc. Ou seja, a teoria foi confirmada pela pesquisa submarina.

O outro lado da história: as críticas à teoria...
Contrária a esta hipóteses, dados coletados por cientistas ucranianos e russos podem antecipar a data do dilúvio do Mar Negro. A pesquisadora russa Yanko Hombach alega que o fluxo de água através do Bósforo continuamente mudou de direção no tempo geológico, dependendo de mudanças nas quotas relativas de espelho de água do Mar Negro e do Mar Egeu. Isto contradiz o proposto desastre geológico da ruptura repentina do Bósforo em que Ryan e Pitman sustentam sua teoria. Da mesma forma, os níveis de água calculados por Yanko Hombach foram diferentes, por larga margem, daqueles propostos por Ryan e Pitman.

Em 2007, Hombach, agora presidente do Instituto Avalon de Ciência Aplicada em Winnipeg, no Canadá, publicou um volume científico do qual constava 35 relatos feitos por um grupo internacional de estudiosos do Mar Negro, inclusive sua própria pesquisa no tópico. O livro avalia muito das pesquisas anteriores, feitas por russos e britânicos pela primeira vez, e combina-as com as mais recentes descobertas científicas. Já em 2006, um projeto de pesquisa multidisciplinar estabelecido pela Unesco e pela União Internacional de Ciências Geológicas tomou prosseguimento no assunto.

Vale ressaltar algo muito importante: a crítica feita nunca negou o dilúvio do Mar Morto. Pelo contrário, ela confirma que o Mar Negro um dia foi um lago com populações de pequenos agricultores e pastores, que iniciavam a agricultura e a pecuária. A crítica somente trabalha a datação do ocorrido, acreditando que o desastre tenha sido muito posterior ao século 56 antes de Cristo. Portanto, quanto à existência do dilúvio do Mar Negro não existe dicotomia no discurso.


Pauta arqueológica do dilúvio do Mar Negro
Embora a agricultura do Neolítico já houvesse, por volta de 5600 a.C., atingido a Planície Panônica, os autores ligam essa expansão ao êxodo de elementos indo-europeus das terras inundadas pelo dilúvio do Mar Negro. Exames mais recentes, feitos por oceanógrafos jogam algumas dúvidas sobre esta teoria de dilúvio catastrófico. Os arqueólogos encontraram depósitos de lama no Mar de Mármara e concluíram que houve uma forte, contínua interação entre o Mediterrâneo e o Mar Negro por pelo menos dez mil anos.

Numa série de expedições, uma equipe de arqueólogos marinhos, liderados por Robert Ballard, identificou, no fundo do Mar Negro, vestígios do que pareciam ser antigas costas, cascas de caramujos de água doce, barrancas de rios submersos, madeira trabalhada por instrumentos e até estruturas construídas por mão humana a 90 metros de profundidade ao largo da costa da Anatólia. Datação por radiação a carbono dos fósseis de caramujos indicaram-lhes idades para além de sete mil anos.

De acordo com um relato na revista “New Scientist” publicada em 04 de maio de 2002, os pesquisadores descobriram um delta submarino a sul do Bósforo, evidência de um forte fluxo de água doce para fora do Mar Negro no oitavo milênio antes de Cristo.

A análise de sedimentos no Mar Negro, provindo de uma série de expedições que tiveram lugar entre 1998 e 2005, primeiro no âmbito de um projeto de colaboração entre a França e a Romênia, e depois prosseguidos por um projeto pan-europeu coordenado por Gilles Lericolais, confirmaram a conclusão de Pitman e Ryan. Estes resultados foram também completados pelo Projeto Noé, liderado pelo Instituto Búlgaro de Oceanologia. Adiante, cálculos feitos por Mark Siddall predisseram a existência de um desfiladeiro submarino, que foi de fato localizado. A hipótese, contudo, permanece um ativo objeto de debate entre os arqueólogos.