sábado, 21 de junho de 2014

E se o Brasil, após a independência de Portugal, tivesse se tornado uma República?!

Em 04 de julho de 1776, os ventos da mudança chegaram às Américas coloniais sob o princípio do Iluminismo francês. Nesta data, os Estados Unidos assinaram sua carta de independência contra o domínio britânico em seu território. Assim começa a história das independências no nosso continente. Em 1804 é a vez do Haiti, quando os negros escravizados se uniram e expulsaram os dominadores franceses, proclamando uma república frágil diante dos olhos do mundo, estupefatos pela agilidade dos negros e dos índios naquela ilha.


Na América espanhola o vento da mudança também veio com força, transformando as antigas capitanias e vicerreinados em países como o México, Chile, Venezuela, Peru, Colômbia e Argentina. O que a análise desses movimentos mostra é a vontade das elites locais (os chamados “criollos”, brancos filhos de europeus nascidos nas colônias) em deter o poder, somente trocando de mãos e deixando a grande parte da população à míngua. Outro ponto interessantíssimo é que o regime político escolhido tenha sido o do Republicanismo, sem exceção.

O caso do Brasil foi à parte. Em setembro de 1822 declara-se independente de Portugal e já era conhecido na América como “flor exótica”, por ser o único lugar onde havia uma coroa europeia vivendo no continente – lembrando que a Família Real havia fugido da Europa em 1808 por conta das invasões napoleônicas. Os livros de história latino-americanos evidenciam como Simón Bolívar e San Martín não gostavam da figura do Brasil por este representar, ainda, o Antigo Regime: monarquia, absolutismo, escravidão etc. Assim, nosso país continuou a ser conhecido nos anais historiográficos como “a flor exótica das Américas”; para muitos historiadores, não houve uma real ruptura em 1822, uma vez que o governante novo, Pedro I, era filho do governante colonial e era português, não havendo ainda uma identidade nacional brasileira em foco, como já ocorria nos Estados Unidos e em toda hispanoamérica.


O fato é que o Brasil tem toda essa unidade nacional com um território de mais de oito milhões de quilômetros quadrados e mais de 200 milhões de indivíduos falando o mesmo idioma com culturas totalmente diferentes graças à unidade territorial imposta pelo regime Monárquico dos partidários de Pedro I. Sob a espada ele enfrentou os interesses locais, com mercenários ingleses abafou revoltas e deu ao país Brasil uma unidade que temos até hoje. Mas e se tudo fosse diferente e tivéssemos tomado o mesmo caminho de nossos vizinhos hispânicos?

O Brasil como uma suposta República no século 19...
De acordo com todos os historiadores que investigam a história brasileira, há uma unanimidade em dizer que, caso o país tivesse optado pelo sistema republicano de governo, com toda certeza não teríamos uma nação de oito milhões de quilômetros quadrados, mas sim inúmeros países com culturas diferentes, mas um mesmo idioma, conforme ocorre hoje em toda a América Latina de ascendência colonial espanhola.

Imagine, por exemplo, hoje em dia vermos notícias da Bahia e do Pará como informes internacionais nos telejornais do Rio e de São Paulo. Ou então um gaúcho programando as férias de verão nas praias de Fortaleza, no Ceará, e indo até a Polícia Federal para tirar passaporte e visto, com direito a deportações por imigração ilegal dos nordestinos em São Paulo. Esse seria o Brasil do século 21 à luz de uma República criada por volta de 1822.



Segundo alguns historiadores, caso fôssemos República desde a nossa gênese, o Brasil sofreria um duro golpe na sua expansão territorial. (1) o Rio Grande do Sul e Santa Catarina poderiam ser uma República em separado, ou teriam se anexado à Argentina; (2) o Sudeste e Centro-Oeste seriam um país forte centralizado no Rio de Janeiro; (3) a Bahia seria outro país; (4) Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí, Paraíba e Pernambuco formariam outro Estado independente; (5) Maranhão e Pará seriam um outro país que demoraria mais a ter sua independência, pois sentiam-se mais confortáveis economicamente como colônia portuguesa.

Outro ponto em questão é a Cisplatina, antiga província brasileira que em 1828 ficou independente de nós e transformou-se no Uruguai. Para os historiadores, se permanecesse sob a égide do Brasil sem as interferências da Argentina, estaria anexada a um território independente do Rio Grande do Sul junto a Santa Catarina.

Outro ponto importante é que durante as guerras de independência hispânicas, o Paraguai tentou se anexar ao Brasil como província para ter acesso ao mar sem ter que passar dentro do território argentino, com quem batalhava. A intervenção interna de políticos argentinos dentro do Paraguai evitou isso, e caso tivesse sucesso não teríamos a Guerra do Paraguai, o conflito mais sangrento da história do nosso continente.


A base que os historiadores têm para falar desse suposto desmembramento territorial do Brasil está na própria América Latina: (1) o México se despedaçou em territórios interessados mais em estar ao lado dos Estados Unidos graças às elites locais; (2) a capitania da América Central se desfez em países como Costa Rica, El Salvador etc.; (3) a Colômbia se partiu com o Panamá graças aos interesses norte-americanos em 1902, dentre outros.

Entretanto, o exemplo mais interessante e óbvio é o da Argentina. Desde o século 18 tinha o título de Vicerreinado do Rio da Prata e compunha um território vasto, que aumentou com a entrada da província conhecida como Alto Peru. Após sua independência, em 1810, as elites locais queriam se desprender de Buenos Aires e trilhar seus próprios caminhos; foi quando o centro do poder entrou em guerra civil contra as elites locais (cabildos). Assim, o Vicerreinado do Rio da Prata se despedaçou em Argentina, Paraguai e Bolívia, além de ter perdido territórios para o Brasil e o Chile. Durante esse processo de guerra civil, chegou-se a cogitar um reinado no Prata para dar unidade nacional, reinado este que seria dado a Carlota Joaquina, esposa de Dom João VI, rei de Portugal. Desta forma, se tivesse aceitado, Argentina e Brasil poderiam ter sido uma união americana como fora a União Ibérica entre Portugal e Espanha, o que permitiu ao nosso país expandir seus territórios para o interior da Amazônia e do Cerrado.

Abaixo, para finalizar, temos o suposto mapa de como ficaria o Brasil “quebrado aos pedaços” se tivesse optado pela República assim que se declarou independente da metrópole portuguesa. Difícil pensar em um território assim, com vários países falando português, mas sob regimes totalmente diferentes e histórias locais múltiplas e variadas.