terça-feira, 13 de maio de 2014

Você sabe quem foram os fariseus? Por que eles são tão comentados na história religiosa?

Fariseu é o nome comumente dado a um grupo de judeus radicais devotos da Torá surgidos no século 2 antes de Cristo. Opositores de outro grupo de judeus, os saduceus, criaram uma lei oral em conjunto com a lei escrita, mas sua grande importância é a criação das sinagogas como ponto máximo de encontro dos seguidores do Judaísmo. Entretanto, na nossa cultura popular, os fariseus são ditos como mesquinhos, arrogantes, traidores, assassinos de Jesus. Mas qual será a verdadeira história dos fariseus?


Com a morte de Jesus e a destruição de Jerusalém em 70 d.C. e a queda do poder dos saduceus, cresceu a influência dos fariseus dentro da comunidade judaica, se tornando precursores do judaísmo rabínico, com formação de homens em seminários para a função de rabino. Já a palavra “fariseu” tem o significado de “separados” ou “santos” – isso porque eles viviam em separado dos outros judeus que não levavam tão a sério os mandamentos da Torá.

Sua oposição ferrenha ao Cristianismo rendeu-lhes através dos tempos uma figura de fanáticos e hipócritas que apenas manipulam as leis para seu interesse. Esse comportamento deu origem à ofensa “fariseu”, comumente dado às pessoas dentro e fora do Cristianismo, que são julgados como religiosos aparentes. Mas essa origem de ofensa tem a ver diretamente com o antissemitismo que surgiu na Europa medieval.


Apesar do aspecto cultural negativo sobre os fariseus, graças a eles o Judaísmo segue vivo até os dias de hoje com uma importante tradição cultural e idiomática do hebraico. Isso porque eles fundaram as primeiras sinagogas, mostraram a importância de ler e escrever para se ter acesso à palavra de Deus, formaram as grades de estudos básicos para a formação de rabinos etc. Muitos cristãos e judeus não sabem deste aspecto cultural e histórico desta parte dos judeus, que até hoje levam uma tremenda má fama.

A origem mais provável dos fariseus é que tenham surgido do grupo religioso judaico chamado “hassidim”, que apoiou a revolta dos macabeus (168-142 a.C.) contra Antíoco IV Epifânio, rei do Império Selêucida, que incentivou a eliminação de toda cultura não-grega através da assimilação forçada e da proibição de qualquer fé particular. Uma parte da aristocracia da época e dos círculos dos sacerdotes apoiaram as intenções de Antíoco, mas o povo em geral, sob a liderança de Yehudah Makkabi (Judas Macabeu) e sua família revoltou-se.

Os judeus conseguiram vencer os exércitos helênicos e estabelecer um reino judaico independente na região entre 142 a.C.- 63 a.C., quando então foram dominados pelos romanos. Durante este período de 142-63 a.C., a família dos macabeus estabeleceu-se no poder e iniciou uma nova dinastia real e sacerdotal, dominando tanto o poder secular como o religioso. Isto provocou uma série de crises e divisões dentro da sociedade israelita da época, visto que pelas suas origens os macabeus (também conhecidos pelo nome de família como asmoneus) não eram da linhagem de Davi, não podendo assim ocupar o trono de Israel, e também não eram da linhagem sacerdotal araônica.


Foi provavelmente nesta época que alguns grupos apareceram dentro da sociedade judaica, começando a estabelecer um certo tipo de divisão de posturas, normalmente com relação à política e/ou à religião e com a vida em geral, e com isso se relacionando com a maneira de pensar e de se encaixar na sociedade da época.

Dois dos grupos são: os saduceus, clamando ser os legítimos descendentes de Tzadok e portanto os legítimos detentores do sumo-sacerdócio e da liderança religiosa em Israel; e os fariseus, oriundos dos hassidim que, geralmente, desiludidos com a política, voltaram-se para a vida religiosa e estudo da Torá, esperando pela vinda do Messias e do reino de Deus.

Outras linhas já existiam há algum tempo e tiveram também seu papel neste cenário, mesmo que de maneira indireta ou subjetiva; um exemplo são os essênios, que viviam mais em uma vida de consagração ao Criador se estabeleciam na região do deserto, nos montes, como o Carmelo, e em algumas outras regiões a fim de preparar o caminho para a vinda do Rei Messias.


Os fariseus agrupavam-se em “havurot”, associações religiosas que tinham os seus líderes e suas assembleias, e que tomavam juntos as suas refeições. Segundo Flávio Josefo, historiador do 1º século d.C., o número de fariseus na época era de pouco mais de seis mil pessoas.

Eles estavam intimamente ligados à liderança das sinagogas, ao seu culto e escolas. Eles também participavam como um grupo importante, ainda que minoritário, do Sinédrio, a suprema corte religiosa e política do Judaísmo da época. Isso rompe totalmente com a ideia de que os fariseus que manipulavam e eram maior número no Sinédrio no período do julgamento de Jesus Cristo.

Muitos dentre os fariseus tinham a profissão de escribas, ou seja, as pessoas responsáveis pela transmissão escrita dos manuscritos e da interpretação dos mesmos. Duas escolas de interpretação religiosa se desenvolveram no seio dos fariseus e se tornaram famosas: a Escola de Hillel e a Escola de Shammai. A Escola de Hillel era considerada mais liberal na sua interpretação da Lei, enquanto a de Shamai era mais estrita. No entanto, os fariseus eram uma seita de grande influência em Israel devido ao ensino religioso e político. Aceitavam a Torá escrita e as tradições da Torá oral, na unicidade do Criador, na ressurreição dos mortos, em anjos e demônios, no julgamento futuro e na vinda do rei Messias. Eram os principais mestres nas sinagogas, o que os favoreceu como elemento de influência dentro do Judaísmo após a destruição do Templo. São precursores por suas filosofias e ideias do Judaísmo rabínico.


Por terem uma preocupação muito grande com a vinda do Messias em tempos tão difíceis, quando sua terra foi invadida por Roma e sua cultura praticamente destruída pela helenização, talvez seja o motivo de os fariseus ficarem tão incomodados com as pregações de Jesus Cristo, uma vez que ele mudou muito do que está escrito na Torá através de novos ensinamentos – tais como a cura no Shabáth, enquanto este deveria ser um dia santo de guarda, e não de trabalho.

Com o tempo os fariseus foram sumindo, e de acordo com a maior parte dos historiadores e teólogos o resquício de seu pensamento está diretamente ligado ao Judaísmo ortodoxo, com homens que tentam seguir à risca a Lei e se dedicam ao estudo dela. Abaixo temos algumas frases importantes supostamente atribuídas aos mestres fariseus:

“A verdade é o selo de Deus”
“Aquele que comete uma falta em segredo, nega a onipotência de Deus”
“Ditoso o homem que sai deste mundo, limpo e sem pecado, como entrou”
“Mais que toda ação religiosa, Deus quer um coração puro”
“Mais vale estar entre os perseguidos que entre os perseguidores”
“Não julgues teu próximo até que te encontres no lugar dele”
“Sêde dos discípulos de Arão, amai a paz e sacrificai tudo para mantê-la”
“Toda oração deve ser precedida por um ato de caridade”


De um modo geral podemos dizer que muito do que conhecemos sobre os fariseus são mitos criados pelo antissemitismo e pelo messianismo cristão da Idade Média. Graças a eles temos até hoje uma cultura hebraica viva, e principalmente: graças aos fariseus nos seus ofícios de escribas temos uma Bíblia que não se perdeu no tempo nem na oralidade. Isso já deveria ser o fato de agradecimento por parte dos cristãos, e não de acusações que já duram milênios.