sábado, 15 de março de 2014

O Judaísmo é uma religião com passado obscuro? Fato ou farsa?

Por muitos milênios as religiões dos povos faziam uso da magia para entender o presente e prever o futuro, evitando possíveis imprevistos e surpresas, às vezes para burlar a morte. Entretanto, a magia já é condenada no Antigo Testamento como uma intervenção proibida diante da onipotência de Deus. Mas as Sagradas Escrituras dos judeus são uma mina de ouro de práticas mágicas. Nelas sobreviveram resquícios da antiga magia egípcia e babilônica, que os judeus absorveram durante seus cativeiros no Egito e na Babilônia. Desfaz também a piedosa noca de que os judeus teriam sido o primeiro povo monoteísta, cultuando uma só divindade, um Deus espiritual, que não reside em imagens, que é tanto invisível quanto onipotente e onipresente, que domina todo o mundo material.


Conforme prova o estudioso Riwkah Schärf em sua tese “A figura de Satanás no Antigo Testamento”, o Deus judeu Javé (ou Jeová) tinha, originalmente, um irmão gêmeo, Malek-Javé, que representava a noite e tudo o que representa de ruim e sombrio. Está aí o maniqueísmo dia-noite, Sol-Lua, bom-mau etc. Noção esta que se reporta aos antigos deuses gêmeos babilônicos. No livro de Jó, Malek-Javé passa a ser um suposto “filho” de Deus. Agora é Lúcifer que, ainda como príncipe dos anjos, faz uma aposta de igual para igual com seu pai por causa da inveja. Em textos posteriores, ele toma o nome de Satã, mas ainda é mensageiro de Deus. É mágico-mor. Só no Novo Testamento Lúcifer se torna rei do inferno, opositor de Deus, o poder do mal; com isso também a magia passou a ser uma arte infernal.

De acordo com muitos teólogos, o Antigo Testamento não conhece o inferno como nós o imaginamos; apenas um céu, o reino de Javé e dos anjos imortais. Seu inferno é o deserto, noção muito compreensível num povo nômade e pastor. O senhor do deserto é conhecido como Azazel, antigo demônio do folclore árabe dos desertos, da era pré-mosaica. Ele simboliza a aridez e o vazio, a ausência de vida. A esta entidade os israelitas consagravam, por ocasião da farta colheita, um bode; sobre estes eram depositados, junto com fórmulas mágicas de esconjuração, todos os erros e pecados do povo, enfim, tudo de mal que ocorrera naquela tribo. A seguir, o animal era enxotado para o deserto. Para a psicologia, este conceito mágico de bode expiatório se tornou uma característica recorrente do inconsciente humano: a tendência de atribuir sempre a terceiros todos os nossos erros, atitudes errôneas ou insucessos, em vez de procurar as causas no próprio íntimo.


Peculiarmente, em passagem alguma do Antigo Testamento se encontra a descrição exata do Além. A rigor, só há distinção entre viver e não viver. O Antigo Testamento não conhece igualmente ritos de iniciação no mistério da morte, seja como porta para o renascimento – sob qualquer forma –, seja como transição para o prosseguimento da vida após a morte, sob forma espiritual. O que os profetas anunciam como redenção é a Terra Prometida, onde corre leite e mel. A morada de Deus é o Monte Sinai, como o Monte Olimpo é a morada dos deuses gregos. Céu e inferno, os paramos do Além, são imaginados, por assim dizer, só para a vida terrestre. É possível que este conceito materialista de vida tenha explicação na sina dos judeus: sem condições de se defender dos povos vizinhos, com um Estado fraco, sofreram diversos períodos de escravidão e invasões.

No entanto, apesar da proibição divina, também praticavam a necromancia, e evocação dos mortos para predição do futuro. O Rei Saul, por exemplo, certa vez procurou, na calada da noite, a bruxa de Endor, conforme se pode ler no livro 1º de Samuel, capítulo 28, versículos 7 a 25. Exigiu dela a convocação do espírito de Samuel, para que ele lhe revelasse o desfecho de uma grande batalha. O espírito compareceu e anunciou a morte do rei. A Bíblia não diz se isto se deu em consequência do resultado da batalha, desfavorável para Saul, ou como castigo pelo ato proibido de consultar a tal bruxa. Predizer e profetizar, como magia aplicada, era hábito generalizado entre os judeus, conforme mostram os livros dos profetas; mas só o sumo-sacerdote podia consultar oráculos, e isto unicamente no recinto do Templo. O Antigo Testamento proibia, sob pena de morte, procurar conselhos junto a bruxas e feiticeiros.

É importante também pontuarmos que por muito tempo a cultura judaica tenha sido politeísta, e os nomes que atribuem a Deus, como sinônimos para Javé, eram nomes de deuses do deserto, das águas, dos mares etc. Assim, temos El-Shadai, El-Shalom, El-Aharim, El-Shadok etc. São importantes estruturas que hoje ficam escondidas sob o discurso de relativismo teológico.

Ainda sobre a magia, também o Rei Davi, sucessor de Saul, consultou oráculos, desafiando a Lei Mosaica. Quando viu as colheitas ameaçadas pela seca, mandou até exumar os corpos dos seus antepassados, para pendurar os esqueletos como feitiço de chuva no “monte diante do Senhor”, ou seja, no Monte Sinai. O sábio Rei Salomão tomou por esposa uma princesa egípcia, e em seu harém viviam mulheres das mais variadas procedências. Era tolerante, e permitia que elas consultassem os deuses de origem. Consta que ele conhecia os mais recônditos segredos da magia e da demonologia do Egito. Seu sinete mágico desempenhou posteriormente papel significativo no Talmude e na Cabala judaica.


Após a sua morte, o reino decaiu. Ao norte de Israel venerava-se Deus sob a forma de um touro. É o chamado bezerro de ouro citado na Bíblia, e que integra o culto ao deus Baal. Ao sul, reavivaram-se conceitos religiosos da época do xamanismo. Veneravam-se árvores, fonte, a Lua, o Sol, como remanescentes dos tempos no Egito. A posição de divindade suprema é ocupada pela maternal deusa da fertilidade Ishtar, também a deusa suprema da Babilônia.

Só com a queda do Império Assírio, aproximadamente em meados de 1000 a.C., o Rei Josias desencadeia a grande derrubada de todos os “deuses estranhos”. Foi nessa época que o Antigo Testamento tomou a forma como o conhecemos hoje na Bíblia e no Pentateuco. Corresponde igualmente ao período em que na Antiga Grécia se processava a filosofia e o início da transição do pensamento mágico para o pensamento lógico.

Como podemos perceber, religião é questão de fé. Mas também pode ser questão de antropologia e historiografia, evidenciando que a teologia pode ser uma ciência humana ou social, pois a sociedade é formada por seres humanos, mutantes conforme o tempo. A religião é formada pela sociedade, e por isso também está passível de sofrer mudanças de regras, o que faz o assunto ficar cada vez mais animador e interessante.