sábado, 29 de março de 2014

Frenologia: apontamentos sobre o uso preconceituoso da psicologia e da antropologia...

Hoje vamos falar um pouco sobre a frenologia, uma chamada pseudociência que já teve validade para muitos psicólogos, médicos e antropólogos europeus durante a segunda metade do século 19 e primeira metade do século 20. Pode parecer loucura, mas para este estudo, o formato do crânio mostraria uma série de perfis psicológicos e psicopatologias. Isso fez com que houvesse o uso preconceituoso da psicologia e da antropologia.


1. Frenologia tem origem no grego “Frén”, “Cabeça, mente” e “Lógos”, “Estudo, pesquisa, conhecimento”. É uma teoria que reivindica ser capaz de determinar o caráter, personalidade e grau de criminalidade de alguém somente pela forma da cabeça, “lendo-se ‘caroços’ e protuberâncias”;

2. A teoria foi desenvolvida pelo médico alemão Franz Joseph Gall por volta de 1800 e acabou sendo muito popular em todo século 19 e início do século 20, agora totalmente desacreditada e classificada como “perigosa e preconceituosa pseudo ciência”, apesar de ainda encontrar ferrenhos defensores – principalmente na internet;

3. A frenologia, contudo, recebeu crédito como uma protociência por contribuir com a ciência médica com as ideias de que o cérebro é o órgão da mente e áreas específicas do cérebro estão relacionadas com determinadas funções do cérebro humano;

4. Seus princípios eram que o cérebro é o órgão da mente, e essa mente tem um jogo de diferentes faculdades mentais e comportamento, cada sentido em particular tem sua representação em uma parte diferente do órgão ou cérebro. Estas áreas seriam proporcionais a cada indivíduo, dadas as propensões e importância da faculdade mental e personalidade, e o osso sobrejacente do crânio refletiria estas diferenças;

5. Curiosamente, graças aos estudos e popularidade da frenologia a psicologia entrou em cena nos consultórios da Europa e dos Estados Unidos e, anos mais tarde, um médico austríaco chamado Sigmund Freud lançaria as bases da psicanálise, igualmente controversa por lidar com conexões tão complexas, tais como a sexualidade em uma sociedade hipocritamente pudica, como a vitoriana;


6. É importante destacarmos que a frenologia, que foca a personalidade e o caráter, é diferente da craniometria, que é o estudo do tamanho do crânio, peso e forma, e fisionomia, é o estudo das características faciais;

7. No entanto, estes campos de estudo têm tentado reivindicar a suposta capacidade de predizer características ou inteligência. Este assunto também é razão de estudo e controvérsias na antropologia e etnologia, e às vezes utilizado “cientificamente” para justificar o racismo;

8. Enquanto no passado alguns princípios da frenologia foram estabelecidos, atualmente a premissa básica de uma personalidade poder ser determinada em grande parte pelo formato do crânio é considerada como extremamente falsa;

9. A tentativa de localizar os sentidos ou a personalidade dentro da cabeça remonta ao filósofo Aristóteles, da Grécia Antiga. No entanto, as primeiras tentativas científicas de medir o formato de um crânio e tentar estabelecer uma suposta relação com o caráter foram feitas por Franz Joseph Gall, que é o fundador e pai da frenologia. Franz Joseph Gall foi um dos primeiros a considerar o cérebro como o lar de todas as atividades mentais;

10. Para termos uma ideia, durante muitos séculos e milênios os gregos imaginavam que os sentimentos eram processados e criados no fígado. Enquanto no Egito Antigo, acreditava-se que os sentimentos fossem criados pelo coração, e por isso até hoje ele é representado como o órgão do amor e dos sentimentos de paixão;


11. Durante a apresentação de seu principal trabalho sobre a frenologia, Gall fez algumas declarações sobre os princípios de sua doutrina: “Que a moral e os sentidos intelectuais estejam inatos. Que seu exercício ou manifestação depende da organização. Que o cérebro é o órgão de todas as propensões, sentimentos e sentidos. Que o cérebro é composto de muitos órgãos particulares como há propensões, sentimentos e sentidos que diferem essencialmente um do outro. Que a forma da cabeça ou crânio representa a forma do cérebro, e assim reflete o desenvolvimento relativo dos órgãos do cérebro”;

12. Estas declarações podem ser consideradas como as leis básicas que a frenologia foi construída. Por observação cuidadosa e medidas experimentais extensas, Gall acreditava que tinha encontrado ligações entre os aspectos do caráter, em que chamou de faculdades, como sendo um órgão específico dentro do cérebro;

13. A frenologia chegou nos Estados Unidos e Reino Unido através de alunos de Gall, e foi extensamente usada pelos sistemas policiais e penitenciários para “entender” a mente e comportamento de criminosos e a relação com suas vítimas. Apesar dos erros que a frenologia tem, foi um passo importante para a ciência psicológica de montar perfis de criminosos (principalmente serial-killers) segundo a cena do crime e as suas vítimas;

14. No período vitoriano, a frenologia frequentemente era vista com seriedade. Muitas personalidades proeminentes tal como o Reverendo Henry Ward Beecher promoveram a frenologia ativamente como uma maneira fácil de conhecimento, introspecção psicológica e crescimento pessoal;

15. No auge do século 19, milhares de pessoas consultavam um frenologista para receberem conselhos em questões como empregados pessoais ou para procurar um marido e casamento. No entanto, a frenologia foi rejeitada pela academia de mestres; a disciplina foi excluída da Associação Britânica para a Promoção da Ciência;


16. Durante o período do Imperialismo, também conhecido como Neocolonisalismo, as potências Grã-Bretanha, Bélgica e Alemanha fizeram uso frequente da frenologia para tentarem traçar um perfil dos povos africanos e asiáticos que estavam sob seu domínio;

17. Durante a Segunda Guerra Mundial, o único país que ainda mantinha centros de estudo de frenologia era a Alemanha que, nos campos de concentração, adotava medidas para traçar perfis extremamente preconceituosos de judeus, comunistas, ciganos e homossexuais. O mais interessante é que essa frenologia já vinha com um “diagnóstico” pronto: todos eram marginais extremamente perigosos;

18. Apesar desse uso na Alemanha Nazista, a popularidade da frenologia foi declinando em todo o mundo no início do século 20, com alguns chegando a misturar essa pseudociência com astrologia e quiromancia (a arte de ler a mão);

19. É interessante pontuarmos que nos Estados Unidos e na Alemanha há um arquivo imenso da polícia embasando casos criminosos com análise frenológicas. Os suspeitos eram presos e condenados muitas vezes a partir de evidências hoje vistas como totalmente “furadas”. Nos dias de hoje, muitos críticos apontam que a frenologia pode ter colocado na sentença de morte milhares de inocentes;

20. A frenologia foi a base para comportamentos sociais visando a eugenia, ou seja, a “seleção dos melhores para purificação da raça”. A lógica de uma teoria não significa que ela seja real. Um raciocínio gerado sobre premissas falsas é um sofisma. Foi graças a esse estudo que arraigou-se ainda mais o preconceito na Europa contra os judeus, os negros nas colônias e os ciganos;

21. Não havendo prova da premissa de que a forma e as dimensões da cabeça estejam relacionadas a qualquer padrão de comportamento, os críticos da frenologia argumentam que esta é apenas uma argumentação sofismática para comportamentos racistas de certos grupos sociais.


No post de hoje observamos como o mito do cientificismo pode ser extremamente perigoso. Um estudo que se tornou popular declamando-se ciência pura ajudou a fundamentar o preconceito, com erros grotescos para análise criminal, psicológica e antropológica. A frenologia hoje é considerada somente um passatempo curioso, como os mapas astrais da astrologia; não serve mais para as polícias e estudiosos para terem um predicado comum do comportamento de povos, etnias e serial-killers, por exemplo.