quinta-feira, 30 de maio de 2013

Como surgiram a semana de sete dias e os nomes dos dias da semana?

A noção de semana surgiu da observação das fases lunares. Do ponto de vista astronômico, além de estar associada à sucessão das fases da Lua, a semana é uma reminiscência das superstições astrológicas dos antigos caldeus. Aliás, a atual divisão da semana em sete dias com os nomes dos planetas aplicados aos dias, como foi adotado pelos romanos, é de origem babilônia, como se encontra nas tábuas cuneiformes do reinado de Shamshi Adad I, por volta de 1808 a.C., onde os principais deuses babilônicos são identificados como os sete planetas aplicados aos dias da semana.

Os nomes Samas (Sol), Sin (Lua), Nirgel (Marte), Nabu (Mercúrio), Marduk (Júpiter), Ishtar (Vênus) e Nindar (Saturno) designam, respectivamente, domingo, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira e sábado no nosso calendário.


Um vez determinados os meses associados à lunação, os hebreus se inspiraram nos babilônios para estabelecer os novos ciclos de acordo com os quartos da Lua, o que deu origem à semana puramente convencional e rigorosamente periódica, como as fases da Lua, compostas de sete dias. Tal instituição estava ligada às mais antigas recordações dos povos hebraicos, anteriores a Moisés, sendo o último dia – sábado – considerado o derradeiro dia do período, dedicado ao descanso, que devia suceder aos outros seis dias de trabalho. Foram os hebreus que a difundiram por todo o mundo, levando os outros povos a adotarem a semana, dentre eles os romanos, que já a conheciam muito antes da conquista da Síria e da constituição do seu Império.


A semana é hoje de uso universal em quase todas as nações civilizadas. É interessante notar que os povos da Antiguidade – egípcios, gregos, chineses, japoneses – adotavam a semana de dez dias, e não de sete. Muitos estudiosos dizem que a semana de sete dias nada tem a ver com a Lua, mas sim com a superstição envolvendo o número sete, o que não é verdade, uma vez que entre os babilônios, os dias 7, 14, 21 e 28 eram considerados aziagos e, portanto, vários atos públicos não poderiam ser feitos nestes dias.

O surgimento dos nomes dos dias da semana...
O vocábulo “semana” vem do latim “septem mane”, isto é, sete manhãs, período de sete dias que indica a sucessão regular dos dias de trabalho e de repouso entre os romanos. Em resumo, as alternâncias dos dias e das noites, as sucessões das fases da Lua, os retornos das estações assim como dos anos devem ter sido objeto de atenção e de reflexão dos caçadores, dos pastores, dos lavradores, que muito cedo viram nesses fenômenos um meio capaz de favorecer os seus trabalhos. Foi dessa maneira que a astronomia surgiu.

Conforme vimos, os nomes dos dias da semana tiveram origem na Babilônia antiga. Dava-se ao dia o nome do astro celeste que os astrólogos (astrônomos na época) acreditavam reger aquele dia na sua primeira hora. É o que ainda ocorre nos idiomas de língua latina, conforme tabela abaixo:


Já os idiomas de origem germânica têm história diferente. Os dias da semana fazem menção também aos astros, mas também aos deuses mitológicos vikings e germânicos.


A língua portuguesa é a única língua latina que não segue a tradição de dar aos dias da semana os nomes dos astros celestes. Os nomes da nossa semana vêm do latim litúrgico, quando no tempo do Imperador Constantino I, os nomes pagãos dos dias da semana foram substituídos gradualmente. Tal designação teve pouco sucesso, como vimos anteriormente, sendo usada somente no português, que também conservou o “sabbatum” (sábado), que, apesar de todas as reformas, permaneceu aceito pelos judeus, cristãos e muçulmanos, embora a festa semanal desses povos seja celebrada em dias diferentes (cristãos aos domingos, judeus aos sábados e muçulmanos às sextas-feiras). Realmente os católicos, para testemunharem a alegria que sentiam ao celebrar as festas da Semana da Páscoa, denominavam o dia do Sol, domingo, de “Dies Dominica”, “Dia do Senhor”) e, ao santificarem toda semana, abstinham-se de todo trabalho servil, chamando-os de “féria”.

Abaixo, tabela com os dias da semana em latim litúrgico, russo e hindu:


Mais um pouco de curiosidades, os dias da semana em grego, hebraico e árabe:


Para medir o tempo, o dia e o ano foram usadas unidades de tempo impostas pela natureza, e assim formaram os vários calendários que temos atualmente, dependendo de cada cultura. Na realidade, o assunto sobre a formação dos calendários é bem complexa e abrange muito mais fatos, regras, imposições etc.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sínodo do Papa morto: você conhece esta história bizarra da Igreja?!

Sínodo do cadáver, sínodo do Papa morto e julgamento do cadáver têm origem no latim “synodus horrenda”, nome pelo qual ficou conhecido o episódio do julgamento póstumo do Papa Formoso, que aconteceu na Basílica de São João de Latrão, em Roma, no ano de 897. Para o julgamento, conforme algumas fontes, o corpo de Formoso (morto nove meses antes) foi exumado, vestido com insígnias e ornamentos e posto num trono e, então, o Papa Estêvão VI (alguns o citam como Estêvão VII), seu sucessor, pôde imputar ao cadáver de Formoso as acusações (das quais foi considerado culpado), lendo-as diante do inerte corpo. O sínodo do cadáver é lembrado como um dos episódios mais bizarros da história do papado medieval.


Contexto histórico...
O sínodo do Papa morto e eventos relacionados ocorreram durante um período de instabilidade política na Itália. Esse período, que durou de meados do século 9 até meados do século 10, foi marcado por uma rápida sucessão de pontífices. No ano em torno do sínodo (872-965) houve 24 papas. Frequentemente, estes breves reinados papais foram o resultado das maquinações políticas de facções locais romanas, sobre as quais poucas fontes sobrevivem.

Formoso foi bispo em 864 durante o pontificado de Nicolau I. Promoveu missões entre os búlgaros e teve sucesso, tanto que foi solicitado a ser o bispo dos novos convertidos. Não houve permissão de Nicolau I para tanto, já que para ser bispo na Bulgária teria Formoso que deixar sua igreja e o 15º cânon do Segundo Concílio de Niceia proíbe um bispo de deixar a sua própria sede para administrar outra.

Em 875, logo após a coroação de Carlos, o Calvo, Formoso fugiu de Roma com medo do então Papa João VIII. Alguns meses depois, em 876, no Concílio de Santa Maria Rotunda, João VIII trouxe um série de acusações contra Formoso, acusou-o de ter influenciado negativamente os búlgaros a ponto destes não mais aceitarem o bispo enviado pela Sé de Roma; que Formoso conspirava para tomar o papado de João VIII e, por fim, que ele havia abandonado sua sede e conspirava contra Carlos. Formoso foi excomungado. Em outro concílio, que teve lugar em Troyes (França), João confirmou a excomunhão. De acordo com Auxílio de Nápoles, um autor do século 10, Formoso estava presente nesse concílio e pediu perdão aos bispos presentes, e, pelo levantamento da pena de excomunhão, jurou tornar-se leigo, não mais entrar em Roma ou tentar reassumir sua antiga sede religiosa. Por outro lado, há outra versão que diz que Formoso não esteve presente ao concílio e tal serviu, sim, para confirmar sua excomunhão.

Após a morte de João VIII em dezembro de 882, Formoso reassumiu o bispado onde permaneceu até ser eleito Papa em 6 de outubro de 891. No entanto, essas antigas disputas com João VIII formaram o libelo acusatório do sínodo do cadáver. De acordo com o historiador do século 10 Liutprand de Cremona, Estêvão VII perguntou ao cadáver por que ele desejou apoderar-se da sede da Igreja (Roma) com tanta ambição após a morte de João VIII (de acordo com o Papa João, Formoso tentou apoderar-se do papado quando João ainda vivia). Mais duas acusações foram feitas ainda: de ter cometido perjúrio e de ter exercido o ofício de bispo quando leigo, o que guarda relação com o referido juramento do Concílio de Troyes.


Mais do contexto do ocorrido...
Ao que tudo indica o sínodo do Papa morto teve uma motivação política. Formoso coroou Lamberto de Espoleto corregente do Sacro Império Romano-Germânico em 892. O pai de Lamberto, Guido III de Espoleto, havia sido coroado por João VIII. Em 893 Formoso, preocupado com as possíveis agressões de Guido III, convidou o carolíngio Arnolfo de Caríntia a invadir a Itália e receber a coroa imperial. A invasão de Arnolfo falhou e Guido III morre logo depois.

Em 895, Formoso convida novamente Arnolfo a invadir Roma e, no ano seguinte, Arnolfo cruza os Alpes e chega a Roma, onde é coroado por Formoso como imperador do Sacro Império Romano, com isso o exército franco parte e Formoso e Arnolfo morrem logo depois em 896. Formoso foi sucedido por Bonifácio VI, que morreu semanas depois. Lamberto e sua mãe, a imperatriz Ageltrudes entram em Roma mais ou menos na mesma época em que Estêvão VI foi coroado Papa. E aí tem lugar o sínodo do cadáver. Formoso sempre foi pró-carolíngio e a coroação de Lamberto em 892, ao que parece, foi contra sua vontade. Após a morte de Arnolfo e o colapso da autoridade carolíngia em Roma, Lamberto entra em Roma e força Estêvão a convocar o concílio, tanto para reafirmar sua reivindicação sobre a coroa como para promover uma espécie de vingança póstuma contra Formoso.


Esta visão é atualmente é considerada obsoleta, na sequência dos argumentos apresentados por Joseph Duhr em 1932. Duhr salientou que Lamberto estava presente no Concílio de Ravenna de 898, convocado sob João IX. Foi nesse processo que os decretos do sínodo do cadáver foram revogados. Segundo a ata do Concílio, por escrito, Lamberto ativamente aprovou a anulação. Se Lamberto e Angiltrude foram os arquitetos da degradação de Formoso, Duhr pergunta-se: “Como João IX foi capaz de apresentar aos cânones que condenaram o sínodo odioso para a aprovação do imperador e seus bispos? Como poderia João IX ousar a abordar o assunto antes os culpados, mesmo sem fazer a menor alusão à participação do imperador?”.

Esta posição foi aceita por outro estudioso: Girolamo Arnaldi, que argumentou que Formoso não exercia uma política exclusivamente pró-carolíngia, e que ele mesmo tinha relações amistosas com Lamberto tão tarde quanto 895. Suas relações só azedaram quando o primo de Lamberto, Guido IV, marchou em Benevento e expulsou os bizantinos de lá. Formoso em pânico com a agressão, enviou emissários para Baviera procurando a ajuda Arnolfo. Arnaldi alega que foi Guido IV, que entrou em Roma, juntamente com Lamberto e sua mãe Angiltrude em janeiro de 897, que forneceu o ímpeto para o sínodo.


O sínodo do Papa morto...
Provavelmente em torno de janeiro de 897, Estêvão (VI) VII ordenou que o cadáver do seu antecessor, Formoso, fosse removido de seu túmulo e levado para a corte papal, para julgamento. Formoso foi acusado de transmigração em violação do direito canônico, de falso testemunho, e de servir como um bispo, enquanto na verdade era um leigo.

Liutprand e outras fontes dizem que Estêvão tinha despojado do cadáver de suas vestes papais, cortou seus três dedos da mão direita usados para bênçãos, e declarou todos os seus atos e ordenações (incluindo a ordenação de Estêvão (VI) VII como bispo de Anagni) inválidas. O corpo foi finalmente sepultado em um cemitério para estrangeiros, apenas para ser desenterrado mais uma vez, amarrado a pesos, e lançado no Rio Tibre.

Consequências do sínodo...
Depois de um tempo, a lista de Papas enterrados na Basílica de São Pedro, sede da Igreja, inclui o corpo recuperado do Papa Formoso e seu nome consta na lista oficial de Papas da Igreja, desde São Pedro (primeiro Papa) até o atual, conforme mostra a foto abaixo.


O espetáculo macabro fez a opinião pública em Roma voltar-se contra Estêvão. Circularam rumores de que o corpo de Formoso tinha começado a fazer milagres em pessoas depois de estas se lavarem nas margens do Rio Tibre. A revolta do público levou Estêvão a ser deposto e encarcerado. Enquanto estava na prisão, em julho ou agosto de 897, ele foi estrangulado. Entretanto, julgamentos bizarros eram comuns nessa época. No ano de 983, na França, por exemplo, um porco foi julgado e condenado a 150 chicotadas depois de ter supostamente matado uma criança.

Em novembro de 897, o Papa Teodoro II convocou um sínodo que anulou o sínodo do Papa morto, reabilitou Formoso, e ordenou que seu corpo, que havia sido recuperado do Tibre, fosse enterrado na Basílica de São Pedro em paramentos pontifícios. Em 898, João IX também anulou o sínodo do cadáver, e convocou dois sínodos (um em Roma e outro em Ravena), que confirmaram as conclusões do sínodo de Teodoro II, ordenou que a ata do sínodo do cadáver fosse destruída, e proibiu qualquer julgamento futuro de uma pessoa morta, uma vez que ela não teria direito de se defender.

No entanto, o Papa Sérgio III, em 905, um bispo que tomou parte no sínodo do cadáver como um cojuiz, anulou as decisões de Teodoro II e João IX, reafirmando a condenação de Formoso, e incluiu um elogioso epitáfio inscrito no túmulo de Estêvão (VI) VII.

sábado, 25 de maio de 2013

Eurábia: a Europa “dominada” por Alá. Teoria da conspiração ou um fato negligenciado?

Ao longo da história sabemos, e estudamos, que a Europa sempre foi um importante centro do cristianismo – seja ele o católico ou o ortodoxo oriental. A invasão islâmica da Península Ibérica, no século 8, e que durou até o século 15, quase devastou a cultura cristã do mapa europeu. Mais tarde foi a vez do poderosíssimo Império Turco-Otomano que abalou muitas estruturas até 1914. Na realidade, a Europa com sua cultura cristã sempre teve preconceito com o mundo árabe-islâmico desde esses eventos citados anteriormente; ambos os lados viram os rivais como infiéis, mesmo crendo no mesmo Deus.

Nos últimos anos surgiu a expressão “Eurábia”, que seria a Europa se tornando cada vez mais árabe graças a um conjunto enorme de fatores, que geram mais preconceitos, mais lutas etc. A cada censo há um espanto com o aumento exorbitante de fiéis islamitas europeus, fluxos imigratórios, leis anti-imigração etc. Mas você realmente conhece esses fundamentos? Vamos debater alguns pontos agora!


As origens do conceito...
Eurábia” foi o título de uma publicação curta dos anos 70, feita pelo Comitê Europeu de Coordenação e Associação de Amizade com o Mundo Árabe, ou seja, um comitê de relações de amizade e diplomacia entre a Europa e os países árabes ou islâmicos. De acordo com Bat Yeor, que foi a teórica que mais influenciou neste conceito, a Eurábia já é formentemente vista em algumas partes da Europa, como Londres, Paris, Berlim, Genebra, Hamburgo e Turim.

Debatendo a Eurábia: fato ou farsa?
Depois dos atentados terroristas nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2011, os olhos do mundo se voltaram para árabes e muçulmanos – valendo explicar que são palavras diferentes, não são a mesma coisa; há árabes não muçulmanos, bem como há muçulmanos que não são árabes. Diante dos atentados terroristas e de atitudes da al-Qaeda, as minorias islamitas e a imigração de muçulmanos ganhou novos significados políticos, sociais e econômicos. Isso só fez crescer o preconceito que já era ruminado pelas sociedades judaico-cristãs desde a Idade Média. Muitos pretextos foram dados para guerras, invasões e atitudes arbitrárias.

Assim, o termo Eurábia voltou ao vocabulário das teorias da conspiração em 2005, quando Bat Yeor lançou um livro bastante notável, “Eurábia: a aliança euroarábica”, em que a estudiosa amplia seus estudos e fala dos reflexos da “guerra contra o terror” patrocinada pelo governo Bush, sendo na realidade uma guerra contra os seguidores do profeta Maomé (Mohammad).


Neste livro, Yeor aponta que a Eurábia é o resultado da política liderada pela França em uma época que os Estados Unidos ainda não se preocupavam com a imigração muçulmana, deixando de lado os interesses dos países árabes. Enquanto isso, tais países árabes submergiam em guerras civis, fomes, políticas inescrupulosas fomentadas pelo ouro negro, o petróleo, justamente no período de descolonização afroasiática, das independências após o chamado Neocolonialismo.

Em 1973, durante a crise do petróleo que afetou todo o planeta, a autora aponta que houve a primeira leva de imigrações em massa do mundo islâmico rumo à Europa, cuja primeira escala era a Turquia. O caso turco é especial: juntamente com a Bósnia e Kosovo, são Estados oficialmente muçulmanos dentro da Europa, e por isso há tanta resistência em inserir a Turquia no bloco da União Europeia, mas não houve tal resistência em relação à Otan (aliança militar), uma vez que há um inimigo ainda maior por ali: o Irã e o Iraque.

Na definição da autora, a Eurábia é:

Uma realidade geopolítica construída aos poucos a partir de 1973, através de um sistema informal de alianças entre alguns países europeus e outros países árabes. Tais alianças foram propostas durante a crise do petróleo, e nunca mais transformaram a Europa naquilo que um dia fora; a imigração em massa começou a incomodar a população, que sentia sua cultura eurocristã extremamente ameaçada”.

Ou seja, há muitas heranças históricas e culturais neste contexto de Eurábia. É hoje o preço pago por muitos países graças ao Neocolonialismo dos séculos 19 e 20 sobre a África e a Ásia, e hoje recebem populações destas áreas na busca de novas chances de emprego e melhores condições de vida, saúde e educação. Foi assim que a população islâmica cresceu absurdamente na Grã-Bretanha, Bélgica, Holanda, Alemanha, Itália, Suíça e, principalmente, na França (vindos da Argélia, Marrocos, Jordânia e Síria, por exemplo).


Entre os acadêmicos e teóricos de ciência política, a concepção de Eurábia não se reflete em um contexto islamofóbico, apesar de a mídia e alguns amadores da internet tentarem assimilar o conceito à extrema direita. De primeira, os acadêmicos pouco se interessaram pelo conceito alegando haver ali pouco (ou nenhum) conceito histórico, político ou sociológico. Assim, acabou caindo nas graças de alguns estudiosos de extrema direita e defensores ferrenhos dos direitos dos povos do Oriente Médio, principalmente os antissionistas.

Infelizmente, tudo isso mudou e o mundo passou a entender melhor a Eurábia a partir de 2011, com os atentados na Noruega, que resultaram na publicação de diversos trabalhos que tratam especificamente sobre as teorias conspiratórias envolvendo a Eurábia.

De acordo com o Pew Research Center, entre 2010 e 2030, a população muçulmana na Europa poderá chegar aos 10% do total de pessoas, enquanto o cristianismo diminui, o ateísmo ganha espaço maior e as pessoas que se declaram sem religião também crescem assustadoramente para os olhos dos teólogos. Entretanto, 10% pode parecer pouco, mas em alguns países os números podem ser ainda maiores, como a Bélgica; neste país, 37 de cada cem crianças que nascem são filhas de famílias islâmicas. A taxa de natalidade das famílias crédulas nos ditos do profeta Maomé é muito grande em relação às famílias cristãs, e isso enerva alguns políticos.

Há alguns anos, o então presidente francês Nicolas Sarkozy (foto abaixo) causou polêmica no mundo islâmico ao proibir publicamente manifestações de credo árabe, como o véu feminino e as burcas, bastante tradicionais nos arredores do Paquistão e Afeganistão; assim, algumas mulheres chegaram a ser presas por usarem vestimentas tradicionais do Oriente Médio. Politicamente, explica-se que Sarkozy, de extrema direita, fez tais leis pensando em proibir a imigração muçulmana para a França, a fim de impedir o conceito de Eurábia em seu país. Em toda Europa reclama-se que, em tempos de crise econômica, os imigrantes tomariam as vagas de trabalho dos “legítimos europeus caucasianos”.



Política europeia e a Eurábia...
As teorias que envolvem este conceito não têm, ainda, conseguido impactar os grandes atores do mundo da política e do academicismo. Entretanto, ganha força na lábia da extrema direita e grupos neonazistas. Em eleições, os partidos sempre têm batido na tecla da “islamização” da Europa, o que seria “extremamente ruim” para a cultura europeia. O problema nasce a partir do momento que tais pessoas veem suas culturas tradicionais e cristãs “ameaçadas”, esquecendo que há alguns séculos destruíram culturas e povos inteiros através de conquistas e massacres tenebrosos.

Este é o caso de alguns políticos holandeses, alemães, franceses e austríacos. Na Grécia em plena crise, um partido extremista conseguiu inúmeras vagas no parlamento através do discurso do “perigo da Eurábia”. Um deputado francês chegou a dizer que “daqui a alguns anos, um entre cada cinco europeus serão islâmicos”, conotando tom de terror e criando uma histeria desnecessária. Na Holanda, movimentos extremistas afirmam que os cristãos estariam servindo a Alá. No entanto, é digno de nota que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, mesmo com suas divergências, têm convergências: são cultos monoteístas que endeusam Javé, o Deus do pacto judaico; os muçulmanos veem em Jesus um dos maiores profetas da história do monoteísmo; creem em toda história de Abraão e Moisés etc. Alá não seria um outro deus, mas sim a tradução da palavra “Deus” em árabe!

O posicionamento em meio à crise econômica europeia e a “islamização” do continente fez com que a extrema direita esquecesse – ou parasse de se preocupar tanto – com os direitos das minorias: negros, mulheres, homossexuais e deficientes.


Nos meios rurais europeus, onde ainda há bastante ignorância, a mídia faz um verdadeiro shownalismo com relação às imigrações e convivência com muçulmanos. Na Noruega, por exemplo, um descendente de turcos foi proibido de se candidatar à prefeitura de uma cidade, chegando a ser ameaçado de morte e tendo sua casa pichada por vândalos extremistas.

Já nos Estados Unidos, principalmente após 11 de setembro de 2001, esta teoria tem ganhado uma força tremenda através da chamada “guerra contra o terror”, ou “contra-jihad”. Há, inclusive, um movimento chamado “Parem a islamização da América”, liderado por republicanos extremistas e evangélicos. Na eleição presidencial de 2012, por exemplo, o tema chegou a ser debatido pelo pré-candidato Rick Santorum quando ele alertou que “a Europa está criando uma enorme oportunidade de se tornar uma Eurábia, sendo que não haveria em pouco tempo cristianismo algum para os verdadeiros europeus”.

Ok, vamos analisar este dito de Santorum. O debate é político ou religioso? Qual o problema de ser muçulmano? Há um grande abismo entre ser terrorista e ser islâmico. E o que seria um “verdadeiro europeu”? Isso nos lembra o discurso de Hitler sobre limpeza étnica, pureza e arianismo. Seriam os europeus verdadeiros brancos, loiros e de olhos claros? Com certeza foi uma afirmação despreparada e totalmente infeliz.


Críticas às teorias da Eurábia...
Muitos filósofos, sociólogos e cientistas políticos dizem que o conceito de Eurábia deve ser rejeitado, uma vez que em toda história a assimilação de imigrantes é complexa em diversas culturas, principalmente em culturas antagônicas. Outros estudiosos chegam a debochar, dizendo que a teoria seria a dos “Protocolos dos sábios de Sião” às avessas; sendo, portanto, infantil, lúdica, com pouca base teórica.

De acordo com alguns jornalistas norte-americanos, articulistas influentes, a ideia de Eurábia é baseada em uma teoria da conspiração mal formulada, com bases historiográficas extremamente anacrônicas, tentando trazer problemas do passado para a atualidade, causando uma perigosíssima fantasia islamofóbica. Alguns chegaram a chamar Yeor de “ridícula, fantasiosa, desnecessária, polêmica”, aumentando ainda mais o sentimento de ódio nos movimentos extremistas de direita, incutindo na cabeça deles ideias que seriam insanas.

Segundo os estudiosos, a população islâmica na Europa não está crescendo a passos largos conforme o tom alarmista da autora, uma vez que a taxa de fertilidade diminui com a integração social. Desta forma, os muçulmanos não seriam um grupo isolado e que não se integra socialmente, mas interagindo sócio-economicamente em qualquer país. Para muitos, a influência política do islamismo na Europa ainda é ínfima para causar tanto alarde. Para outros especialistas, falar em Eurábia seria como falar sobre o antissemitismo europeu no século 19 e início do século 20, que de tanto iculcar na cabeça das pessoas culminou no movimento extremista do nazismo, dizimando mais de seis milhões de judeus em campos de concentração.


Apesar de negar publicamente, a Europa realmente tem medo da “islamização” da sua cultura, haja vista as atitudes de Sarkozy na sua governança. O movimento de imigração após a descolonização afroasiática aumentou esse medo, e quem acredita na Eurábia aponta vários outros indícios para esta situação, principalmente na recusa de entrada da Turquia na União Europeia e na zona do euro, ou leis que impedem a aceitação da poligamia – uma vez que um muçulmano pode ter até quatro esposas.

Fica em aberto esta questão, uma vez que os debates sobre a Eurábia e os movimentos de imigração e crescimento do islamismo na Europa ainda estão ferventes nos meios sociológicos, teológicos, econômicos e historiográficos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Marte: um planeta que já foi habitado? Fato ou farsa?

Marte é o quarto planeta do nosso Sistema Solar, o nosso vizinho mais próximo. De noite, aparece como uma estrela vermelha, razão por que os antigos romanos lhe deram o nome de Marte, o deus da guerra. Os chineses, coreanos e japoneses chamam-lhe “estrela de fogo”. O ano marciano dura 687 dias. Mas tem semelhanças com a Terra: tem um dia com uma duração muito próxima do dia terrestre e o mesmo número de estações.

Desde sempre o planeta vermelho tem exercido enorme fascínio nos habitantes da Terra. Astrônomos, físicos, biólogos tentam entendê-lo, enquanto escritores e cineastas complementam tal fascínio com obras que falam das populações marcianas. Ainda há quem diga que o planeta, futuramente, será uma colônia terráquea, inaugurando a exploração espacial em sua plenitude. Junto a tantos estudos e apesar de tanta ficção científica, será que Marte, um dia, foi um planeta habitado?


Marte tem calotas polares que contêm água e dióxido de carbono gelados, o maior vulcão conhecido do sistema solar – o Monte Olimpo, com mais de 20 mil metros de altitude –, um desfiladeiro imenso, planícies, antigos leitos de rios secos, tendo sido recentemente descoberto um lago gelado. Os primeiros observadores modernos interpretaram aspectos da morfologia superficial de Marte de forma ilusória, que contribuíram para conferir ao planeta um estatuto quase mítico: primeiro foram os canais; depois as pirâmides, o rosto humano esculpido, e a região de Hellas no sul de Marte que parecia que, sazonalmente, se enchia de vegetação, o que levou a imaginar a existência de marcianos com uma civilização desenvolvida. Hoje sabemos que poderia ter existido água abundante em Marte e que formas de vida primitiva podem, de fato, ter surgido.


Marte tem um lugar especial na imaginação popular devido à crença de que o planeta é ou foi habitado no passado. Esta ideia surgiu devido a observações realizadas no fim do século 19 por Percival Lowell. Ele observava canais e áreas que mudavam de tonalidade com as estações do ano e imaginou Marte habitado por uma civilização antiga que lutava para não morrer de sede. De fato, o que Lowell observou ou não existia ou eram leitos secos ou mudanças naturais na coloração do planeta devido a tempestades de areia. A partir disso a boataria não parou mais: canais, pirâmides, templos, rochas esculpidas, estátuas etc.

Existem evidências que o planeta terá sido significativamente mais habitável no passado que nos dias de hoje, mas a existência de que tenha albergado vida permanece em debate acalorado. O meteorito ALH84001 (foto abaixo) que é um meteorito de origem marciana. Crê-se que terá sido projetado quando Marte foi atingido por um meteorito, microorganismos marcianos ter-se-ão agarrado e vagueou durante cinco milhões de anos pelo cosmos até cair na Antártida, onde foi descoberto. Em 1996, pesquisadores estudaram o meteorito ALH84001 e reportaram características que atribuíram a micro-fósseis deixados pela vida em Marte. O meteorito foi tido como a prova para alguns cientistas que Marte tinha atividade biológica no passado, já que contém o que parecem ser fósseis de microrganismos. Em 2005, esta interpretação permaneceu controversa sem que um consenso tenha sido atingido.


As sondas Viking continham dispositivos capazes de detectar microrganismos no solo marciano, e tiveram alguns resultados positivos, mais tarde negados por vários cientistas, resultando numa controvérsia que ainda permanece. Contudo, a atividade biológica no presente é uma das explicações que têm sido sugeridas para a presença de vestígios de metano na atmosfera marciana, mas outras explicações que não envolvem necessariamente seres vivos são consideradas mais prováveis. Mesmo que as sondas Viking não tenham encontrado provas conclusivas, não significa que não exista vida em Marte. A vida pode estar escondida na superfície ou no subsolo.

Na realidade, o clima seco e frio de Marte tornam o planeta inóspito à vida. Mas talvez não totalmente. Uma história impressionante durante as missões Apollo à Lua forneceram evidências de que a vida pode mesmo resistir a condições ainda adversas. Os astronautas descobriram que bactérias da Terra que tinham viajado para a Lua na sonda Survior X dois anos e meio antes tinham resistido num ambiente mais hostil que o encontrado em Marte.

A descoberta de vida, ou simplesmente de fósseis de uma vida desaparecida no planeta, seria um dos maiores acontecimentos de todos os tempos. A exploração de Marte pelo homem deverá acontecer no ano de 2030, pois imensos testes desde um pequeno experimental de 90 dias a um em curso feito no tempo mais exato.




De acordo os astrofísicos de agências espaciais do mundo todo, uma viagem exploratória com seres humanos até Marte demoraria cerca de 16 meses de duração, o que é um período muito longo só na ida. Caso a colonização espacial venha a acontecer, Marte é a escolha ideal pelas suas condições mais próximas à Terra que outros planetas e deverá ser um destino ideal para o aventureiro do futuro devido aos seus enormes vulcões, desfiladeiros imensos e mistérios por resolver – dentre eles descobrir o passado do planeta vermelho, se um dia houve vida ou não por lá.

Em 1969, as fotos obtidas pela missão Mariner revelaram algo de diferente no sul de Marte, em Hellas (fotos abaixo), região marciana circular de aproximadamente 2,5 milhões de quilômetros quadrados. Ao contrário de todas as outras regiões anteriormente fotografadas, Hellas apresentava-se desprovida de crateras. Noachis está crivada de crateras em número normal; a seguir a Noachis situa-se Hellespontus, no interior de Hellas e não apresenta qualquer cratera. Sabendo-se que toda a superfície marciana foi fortemente bombardeada por meteoritos, a ausência de crateras nesta área resultaria de uma força niveladora, força essa que poderia estar relacionada com uma invulgar concentração de calor e umidade, condições propícias à evolução da vida, dizem alguns entusiastas.



Outro dado curioso caracteriza a região de Hellas: as mudanças de cor conforme as estações, escurecendo na primavera e tornando-se de novo mais clara no outono. Isto levou a que se sugerisse que, durante a primavera e o verão, na região havia um surto periódico de vegetação. Essa afirmação abalou a comunidade científica durante muitos anos. Uma imagem tirada no ano 2000 procurava desvendar o antigo mistério. A imagem mostrava evidências de água submersa (que emerge à superfície), tempestades de areia e congelação que indicam uma mudança sazonal. Desconhece-se que materiais terão produzido o brilho uniforme no terreno de Hellas.



As fotografias de Marte tiradas pela sonda Mariner 4, em 1965, mostraram um planeta árido, sem rios ou oceanos ou qualquer sinal de vida. Mais tarde revelou também que a superfície (ao menos as partes fotografadas) era coberta por crateras, indicando a inexistência de placas tectônicas ou de qualquer forma de ciclos climáticos nos últimos quatro bilhões de anos. A espaçonave também descobriu que Marte não possui campo magnético que protegeria o planeta de potenciais raios cósmicos que podem ameaçar a existência de vida. A Mariner também foi capaz de calcular que a pressão atmosférica do planeta impede a existência de água líquida na superfície. Após a Mariner 4, a procura por vida em Marte mudou para uma busca por formas de vida microscópicas ao invés de organismos multicelulares, devido ao ambiente ser muito hostil para estes.



A missão inicial das sondas Viking da década de 1970 era levar experimentos feitos para detectar microorganismos em solo marciano. A grande dificuldade dessas missões era que o conhecimento da NASA sobre as condições da superfície de Marte era limitado somente ao acervo fornecido pela Mariner 4, portanto os testes das Vikings eram formulados para busca de vida similares às encontradas na Terra. Todavia, dos quatro experimentos levados a cabo, os experimentos classificados trouxeram resultados enigmáticos mostrando aumento da produção de gás carbônico na primeira exposição à água e nutrientes.

Contudo, esse sinal de vida foi contestado por muitos cientistas, ao afirmarem que elementos químicos superoxidantes no solo teriam produzido esse efeito sem presença de vida. Em oposição, também foi afirmado que as experiências averiguadas detectaram que eram tão poucos organismos metabolizantes no solo marciano que seria impossível detectá-los.

Uma reanálise dos dados das missões Viking feita 30 anos após o programa foi feita à luz do conhecimento de extremófilos, seres adaptados à situações extremas de vida, sugerem que os testes da Viking não eram sofisticados o suficiente para detectar tais formas de vida, e talvez até as tenha matado durante o procedimento. A ideia central é que, ao contrário de ser destruído pelos altos níveis de peróxido de hidrogênio e outros oxidantes, as formas de vida em Marte poderiam usar esses elementos químicos para ajudá-los a sobreviver. Por exemplo, o peróxido de hidrogênio impediria a água dentro de uma célula de congelar a -50°C e é higroscópica (capaz de absorver água), um artifício útil num planeta árido. Os pesquisadores citam o Acetobacter peroxidans como um exemplo conhecido de micróbio que usa peróxido de hidrogênio em seu metabolismo.


Há ainda alguns cientistas que afirmam que se havia vida nos locais de pouso da Viking, talvez tenham sido mortos durante a exaustão dos foguetes durante o pouso. Observações feitas no final dos anos 90 pela Mars Global Surveyor confirmaram a suspeita de que Marte, ao contrário da Terra, não mais possui um campo magnético substancial, aumentando potencialmente a ameaça à vida pela radiação cósmica que pode alcançar a superfície do planeta. Cientistas também especulam a possibilidade de que a falta de proteção devido ao diminuto campo magnético ajudou o vento solar dissipar grande parte da atmosfera de Marte no curso de bilhões de anos.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Tenochtitlán e Teotihuacán: maravilhas da engenhosidade asteca muito antes dos europeus...

No post de hoje vamos falar das maiores engenharias humanas nas Américas antes da chegada dos europeus, em 1492, que por sua vez ficaram extremamente impressionados com o que presenciaram. Estou falando das cidades astecas de Tenochtitlán e Teotihuacán. Suas arquiteturas, planejamentos urbanísticos, organizações setoriais e sociais deixavam com inveja qualquer cidade europeia da época, sendo que alguns espanhóis chegaram a afirmar que rivalizava com Roma tamanhas pompa e engenhosidade.

Portanto, hoje vamos viajar no tempo e no espaço e olharmos um pouco para esta sociedade que foi dizimada pela ganância do espanhol em conquistar mais terras, enriquecer através do metal encontrado e catequizar multidões que não sabiam o significado da cruz. A morte lenta de uma cultura através da espada, da fome, das doenças e da fé.


Tenochtitlán: a capital asteca, hoje a Cidade do México...
Tenochtitlán era a capital do grandioso império asteca que os espanhóis conheceram no século 16. A cidade foi fundada por volta de 1325 no Lago Texcoco e sua queda ocorreu em 1521 pelas mãos do conquistador Hernán Cortéz. Muitos fatores impressionaram os europeus, a começar pela quantidade de população ali assentada; por volta de 1520, a capital asteca tinha cerca de 700 mil habitantes, muito maior que Londres e Paris no mesmo período.


Muito do que sabemos sobre as duas cidades mencionadas neste texto vem dos relatos de padres jesuítas que estavam nas missões espanholas de expansão da fé católica. Há vários relatos de que Tenochtitlán era abastecida por um complexo sistema de água potável vindo de aquedutos das montanhas, sistema de esgotamento sanitário. A cidade era ligada a regiões próximas por estradas de linhas retas, sendo, portanto, planejada. Tenochtitlán possuía canais labirínticos, palácios grandiosos e templos enormes, e a disposição dos bairros residenciais refletia a estratificação social.

Quando os espanhóis tomaram a cidade, a partir de 1525 começaram a reformulá-la. Derrubaram suas partes centrais e substituíram os templos astecas por edifícios construídos em estilo espanhol, como fóruns, igrejas, escolas de missões, centros de administração da colônia etc. A ilha onde se localizava a cidade foi desaparecendo com o passar do tempo, junto com o Lago Texcoco, e o crescimento espacial da Cidade do México, hoje estando totalmente aterrado e correndo pelos canais do esgoto.

Atualmente, Tenochtitlán tem outro nome: Cidade do México; se no século 16 era uma das maiores cidades do mundo com 700 mil habitantes, no século 21 não é diferente com seus 23 milhões de habitantes. Isso mostra que a localidade tem vocação para sua magnitude!




Teotihuacán, outra pérola do México...
Teotihuacán atualmente é um sítio arqueológico localizado a uns 40 quilômetros da Cidade do México. Tem importância por ter sido uma das maiores cidades das Américas no período pré-colonial (antes de 1492), junto à cidade dita anteriormente, capital asteca.

De acordo com dados arqueológicos, Teotihuacán teve sua vida fervorosa entre 200 a.C. e 800 d.C., sendo, como Roma, na Europa, extremamente cosmopolita. Naquele território de 80 quilômetros quadrados viviam índios de várias etnias, grupos e idiomas diferentes. Sua localização era estratégica: próxima a nascentes de água, retirada de argila para cerâmica e obsidiana.

O que se sabe sobre o passado de Teotihuacán vem do relato dos antigos astecas para os sacerdotes jesuítas, que imortalizaram os folclores, mitos e superstições sobre aquela cidade, que no século 16 já estava deserta, mas deixou para trás uma incrível arquitetura que impressionava a todos. Para os astecas, por exemplo, lá que os deuses moraram um dia.


Segundo os especialistas entrevistados atualmente, Teotihuacán chegou a ter mais de 500 mil moradores – em um período anterior a Cristo, sendo, portanto, a terceira maior cidade do mundo na época. Não se conhece muito bem qual a causa da sua decadência e posterior total destruição. Os historiadores pensam que talvez tenha acontecido uma invasão, ou que o solo se esgotou acabando assim os recursos agrícolas.

Um fator que também chama atenção é que a cidade foi totalmente planejada em quatro zonas e eixos, com grandes avenidas. Há grandes palácios, templos enormes, pirâmides de até 65 metros de altura, casas esplendorosas e fortalezas em pontos estratégicos. Os bairros dos membros das classes mais altas contavam com casas grandes e arejadas, em ruas largas; já os mais pobres viviam em lugares também planejados, mas mais apertados.

É interessante notar que os espanhóis permaneciam assustados perante tamanha ordem paisagística e urbanística nas duas cidades citadas neste post. Alguns frades comentavam em seus diários que todas cidades europeias deveriam ser organizadas de tal maneira; mesmo assim o eurocentrismo reinou: genocídio dos índios, conversão religiosa à força, trabalhos obrigatórios, doenças, fome e até o pensamento de que estas pessoas não eram “seres com alma”.


Assim como a capital asteca, em Teotihuacán também havia abundante distribuição de água potável e um completo sistema de esgotamento sanitário – inclusive nos bairros das classes mais baixas. Além disso, por conta do seu tamanho, a localidade contava com quatro mercados, sendo um maior, no centro. Nos prédios públicos, como pirâmides e templos, há várias pinturas e entalhes, cujos trabalhos são cravados de pedras preciosas e semijoias.




As teorias dos deuses astronautas nestes dois casos...
Desde o lançamento do clássico livro “Eram os deuses astronautas”, de Dänniken, muitos adeptos desta teoria criaram e vêm criando uma série de “explicações” para tamanhos avanços sociais, arquitetônicos e científicos destes dois povos mesoamericanos. O grande problema desta teoria é que ela retira a possibilidade de crescimento do próprio ser humano, como se ele fosse impedido intelectualmente de inovar e criar novas ferramentas e grandiosas construções com enorme engenhosidade.

O fato é que há um debate imenso entre céticos, cientistas, historiadores, arqueólogos e antropólogos contra os crédulos da teoria proposta por Dänniken, de que seres de outros planetas teriam ajudado a erguer um sistema social tão complexo distante da Europa e com características tão parecidas.

Fica aí somente uma reflexão para o leitor se render a um lado desta “briga” que jamais terá uma conclusão, uma vez que as testemunhas morreram há muitos séculos vítimas da conquista europeia sobre a América, o maior genocídio que a história conheceu, mas se debate tão pouco.

sábado, 18 de maio de 2013

Mitos, curiosidades, fatos e farsas (20)

Ao longo da história as sociedades passaram inúmeros mitos e curiosidades que foram – e ainda são – encarados como fatos. No entanto, não passam de folclores que escondem farsas incríveis e bastante inventivas. Vamos, então, descobrir um pouco delas? Voilà!

Como surgiu a expressão “gay” para o homossexual masculino?
A palavra tem origem no alemão medieval “gähi”, o mesmo que “alegre”, “vistoso”, “aquele que gosta de aparecer”. No século 17, na Inglaterra, que passou para o sentido sexual da palavra: prostituta (gay woman), um namorador (gay man) ou bordel (gay house). No início do século 19 é que a palavra, definitivamente, passou a significar o homossexual do sexo masculino.


De onde se inspirou o movimento gótico atual?
Gótico” tem a ver com os godos, que eram povos do norte da atual Alemanha. No início da Idade Média foram se espalhando por toda Europa e se misturando ao Império Romano já em decadência. Para os romanos cidadãos nascidos no Império, os godos eram bárbaros, uma vez que não conheciam as regras de vivência daquela sociedade. Foi com esse tom preconceituoso que no século 14 os artistas do Renascimento italiano chamaram de gótica, com sentido de péssimo gosto, a arquitetura dos godos. No século 18 o estilo chegou à literatura e teve seu auge no século 19, com romances ambientados em castelos góticos – frios e sombrios. Na década de 1980 o movimento gótico surgiu assim: considerado bárbaro para a sociedade da época, sombrio, com pessoas pálidas etc.

De onde vem a expressão “holocausto”?
Originalmente é grega, e não hebraica. “Ólos” (inteiro), “Káuthos” (queimado). Designava o sacrifício em que a vítima ofertada a um deus era totalmente queimada. Com o tempo, holocausto passou a designar qualquer tipo de sacrifício. Por fim, passou ao sentido atual: o massacre de seis milhões de judeus em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.


Qual a origem da palavra “imbecil”?
Surgiu ainda no Império Romano com o latim “imbecille”, que significava “fraco”, “incapaz”. É a formação de “Im” (sem), “Bacillu” (cajado). Ou seja, sem sustentação, incapaz. No século 16 os franceses chamavam as mulheres de “sexo imbecil” porque acreditavam que elas precisavam de um homem (o pai ou o marido) para se sustentarem ao longo da vida. No século 18, também na França, que imbecil voltou ao termo romano, de fraco, incapaz.

Por que o time da última posição na tabela é o lanterna da competição?
Tudo começou em 1903, quando os franceses passaram a promover grandes competições de ciclismo ao redor do país, hoje o Tour de France. O último colocado era maldosamente chamado de “lanterne rouge” (lanterna vermelha) porque só via na sua frente as lanternas dos seus concorrentes. Chamar o último colocado de lanterna chegou a Portugal e, assim, ao Brasil.

O ato de linchar alguém tem a ver com um homem específico?
A palavra veio do sobrenome de William Lynch (foto abaixo), um fazendeiro e juiz de paz do estado norte-americano da Virgínia. No começo do século 19, Lynch estabeleceu, por conta própria, um tribunal privado para julgar sumariamente criminosos e suspeitos. Seu método foi conhecido como “lei de Lynch” e acabou originando o verbo em inglês “to lynch”, o mesmo que para nós “linchar”.


O que uma pessoa maluca tem a ver com geografia?
Tudo teve início na atual Indonésia, onde há as Ilhas Malucas (ou Molucas). Em 1512 os portugueses lá chegaram e em 1570 começaram a ter problemas sérios com os nativos, os chamados “malucos”. Os tais habitantes locais se recusavam ao colonialismo europeu e, assim, em Portugal, “maluco” ganhou o sentido original de homem feroz e contra as “regras sociais vigentes”.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Considerações sobre a bruxaria e a caça às bruxas: fatos, farsas e muitas histórias...

Bruxas e bruxarias, duas palavras que conhecemos bastante e fazem parte da nossa cultura, seja pela religião que prega a demonização de tais práticas, ou seja, através dos contos de fadas, quando bruxas terríveis encantam lindas princesas e donzelas na busca de vingança. Por fim, podemos interpretar que a bruxa sempre esteve e, possivelmente, sempre estará associada a poderes obscuros e malignos; faculdades sobrenaturais de uma pessoa que, geralmente, se utiliza de magia ou curandeirismo com intenção de ultrapassar barreiras éticas e morais. O post de hoje tem a finalidade de tentar mostrar o que é realmente verdadeiro e o que é fabuloso entre o mundo das bruxas e das bruxarias.


1. Muito do que se diz atualmente sobre as bruxas e as práticas de bruxaria caem em descrédito porque tais figuras sempre foram associadas ao mundo dos contos de fadas, portanto, vindo a serem imaginadas demais e pouco vividas. Entretanto, a bruxaria é uma prática comum para algumas seitas pagãs ao redor do mundo, misturando curandeirismo, feitiçaria, vodu etc.

2. Para os bruxos atuais, a bruxaria é o culto a uma entidade superior em sistemas que variam de uma deidade única hermafrodita ou à pluralidade de panteões antigos, como os deuses celtas, egípcios, greco-romanos ou nórdicos, por exemplo. Assim, a bruxaria não seria uma religião específica, mas um elo sobrenatural que mistura inúmeros elementos terrenos que fazem essa mesma conexão com o “lado de lá”.

3. Há diferença entre ser bruxo e ser feiticeiro. O feiticeiro seria aquele que realiza feitiços e oferendas cujo objetivo é interferir na realidade de outra pessoa ou determinado grupo; seria a tentativa de manipular a realidade com cultos, oferendas, transes etc. Já o bruxo seria o indivíduo que trabalha com poções e chás que agem diretamente na pessoa, sem apelos a oferendas a deuses, por exemplo, sendo “mais terreno” do que metafísico.

4. É conveniente apontar que a bruxaria é algo totalmente diferente e independente do paganismo e do chamado neopaganismo, apesar de muitos confundirem estes em função da corrente moderna de hibridização de cultos, como foi dito anteriormente ao falarmos dos panteões.

5. A bruxaria, sendo caracterizada pela liberdade de pensamento, acaba por apresentar um amplo leque de linhas de pensamentos e de vertentes de características bastante distintas – existem as práticas de bruxaria que misturam culturas locais. Entretanto, alguns elementos em comum podem ser apresentados a fim de que se tenha melhor compreensão do significado da bruxaria como um sistema historiográfico e filosófico.


6. De acordo com os adeptos de tais práticas, nenhum verdadeiro bruxo tentará doutrinar ou converter uma pessoa que pratique outra religião, respeitando a diversidade e a liberdade de credo e de pensamento. Assim, para os bruxos, a fé só é verdadeira se resulta de escolha individual e espontânea.

7. Outro ponto importante é que nenhum verdadeiro bruxo realizará qualquer tipo de magia no intuito de se beneficiar de algo que prejudicará outra pessoa. Este seria o caso, por exemplo, da bruxa personagem do conto “Branca de Neve e os Sete Anões”, que dá a maçã envenedada à heroína para matá-la e tornar-se a mais bonita da vila.

8. O verdadeiro bruxo respeita a natureza, e por natureza ele entende absolutamente tudo o que não é feito pelo homem. Na concepção deles, quando se preserva a natureza, suas preocupações não são a viabilidade da manutenção da vida humana na Terra, o verdadeiro bruxo respeita a natureza simplesmente porque se sente parte dela, porque a ama.

9. Esta concepção da natureza por parte da bruxaria é uma herança milenar, uma vez que as pessoas que praticavam tais atos viviam nas cercanias das vilas, dentro das florestas, e tiravam de lá o seu sustento. Além disso, muitas práticas da bruxaria endeusam a natureza por si própria, e por isso dizem que é preciso respeitá-la, uma vez que ela contém entidades como deuses e deusas.

10. A caça às bruxas foi uma perseguição social e religiosa que começou no final da Idade Média e atingiu seu apogeu na Idade Moderna. Foi quando o catolicismo e, mais tarde, o protestantismo queimaram inúmeras pessoas em “fogueiras santas” ou torturaram outras tantas em troca de possíveis confissões.


11. O mais famosos manual de caça às bruxas é o “Malleus maleficaruim”, “Martelo das bruxas”, de 1484. Ele pode ser baixado na internet, traduzido, com alguma facilidade. Nele contém inúmeros métodos de tortura para confissão e “meios de descobrir” se uma pessoa é feiticeira ou não.

12. No passado os historiadores consideraram a caça às bruxas europeia como um ataque de histeria supersticiosa que teria sido forjada e espelhada pelo cristianismo. Seguindo essa lógica, era “natural” supor que a perseguição teria sido pior quando o poder da Igreja era maior, ou seja: antes da Reforma Protestante dividir a cristandade ocidental em segmentos conflitantes. Nessa visão, embora houvesse ocorrido também julgamentos no começo do período moderno, eles teriam sido poucos se comparados aos supostos horrores medievais.

13. Pesquisas historiográficas recentes mostram que o período áureo da caça às bruxas na Europa ocorreu com maior força entre 1550 e 1650, justamente com o nascimento da chamada “Idade da Razão” e dos Renascimentos Cultural e Científico, ao contrário do que se pensava no senso comum, pensando que a perseguição ocorria na Idade Média, ou “Período das trevas”.

14. Curiosamente, não foi somente o catolicismo quem colocou em fogueiras pessoas acusadas de bruxaria em julgamentos estranhos e totalmente parciais em condenar tais vítimas. Na Alemanha pós-Reforma há uma série de julgamentos parecidos e uma mortandade incrível. Na Suíça protestante (calvinista) também ocorre a mesma paranoia coletiva, quando milhares de indivíduos eram mortos no método conhecido como “fogo lento”: a vítima era colocada em brasas ardentes para morrer lentamente enquanto cozinhava.

15. Virtualmente todas as sociedades anteriores ao período moderno reconheciam o poder das bruxas e, em função disso, formularam leis proibindo que crimes fossem cometidos através de meios mágicos. Assim, por exemplo, na Inglaterra do século 13 era proibido usar mágica para fugir de julgamentos, prisões e condenações.


16. O período medieval europeu não foi exceção, e podemos encontrar as caças às bruxas desde o auge da civilização babilônica. Esta suspeita costumava recair sobre as mulheres estrangeiras e suas estranhas práticas. Também houve uma clássica caça às bruxas nos Estados Unidos no período colonial, em um julgamento imortalizado como “As bruxas de Salem”, praticado por imigrantes de credo protestante.

17. A paranoia sobre as bruxas teve início pouco depois de 1300, na Europa Central, quando começaram a surgir rumores acerca de conspirações malignas que estariam tentando destruir os reinos cristãos através de magia e envenenamento.

18. Curiosamente, na Europa Central, muitos judeus eram acusados de bruxaria, feitiçaria, envenenamento de fontes, contaminação de lepra etc. Em alguns lugares da Alemanha, o fato de ser judeu já levava ao sinônimo de ser bruxo/feiticeiro.

19. Depois da enorme devastação decorrente da Peste Negra, que dizimou cerca de 40% da população europeia no século 14, muitos rumores aumentaram e, então, judeus e ciganos passaram a ser mais temidos ainda. Dizia-se que a doença se espalhava pelo ar através de “missas negras” e “profanações” a símbolos cristãos.

20. Entre os século 15 e 16, temporada do início do racionalismo e antropocentrismo (o Homem como centro do pensamento e do universo, ao contrário do teocentrismo medieval, o pensamento de Deus como centro de toda atividade terrena), curiosamente, começam os julgamentos em massa, quando cinco pessoas eram queimadas vivas em cerimônias jurídicas e religiosas na Espanha, em Portugal, na França, na Boêmia, na Suíça e na Alemanha.


21. Em 1484 foi lançado o livro “Malleus maleficarum”, ou “O martelo das bruxas”, pelos inquisidores alemães Heinrich Kraemer e James Sprenger, livro este que inicialmente foi recusado pelo bispo que o encomendou, tendo seus dois autores sido posteriormente excomungados por continuarem com a venda da publicação.

22. Curiosamente, “O martelo das bruxas” foi um grande sucesso, chegando a 28 edições, e detalha as práticas consideradas como manifestações de demônios. Com o tempo, se tornou uma espécie de “bíblia da caça às bruxas” e causou enorme influência nos Estados Unidos, nas comunidades puritanas, tendo sido utilizado no famoso caso das bruxas de Salem.

23. Ao surgirem as primeiras ondas da Reforma Protestante, o número de julgamentos chegou a diminuir por alguns anos. Entretanto, em 1550 a perseguição cresceu novamente, dessa vez atingindo níveis alarmantes. Esse é o período mais sanguinário da história, que atingiu tanto terras católicas como protestantes e durou de 1550 a 1650. Depois desse período os julgamentos diminuíram fortemente e desapareceram completamente em torno de 1700.

24. Os historiadores apontam que houve três focos importantes de caça às bruxas: na Espanha, na Alemanha pós-Reforma, quando houve as guerras religiosas, e na Suíça graças ao fanatismo calvinista, que propunha às pessoas que vigiassem seus vizinhos e os denunciassem às cortes religiosas.

25. A partir dos anos 1970, os historiadores passaram a estudar detalhadamente os registros históricos de julgamentos, ao invés de confiar apenas nos relatos dos casos mais famosos e outras fontes pouco seguras. A nova metodologia trouxe mudanças significativas na compreensão que se tinha deste período.


26. É interessante apontar que a caça às bruxas não foi somente um movimento religioso, mas também social. Muitas pessoas se reuniam nas praças das vilas para assistirem aos julgamentos, torturas e execuções. Tais atos eram praticamente vistos como atrações de lazer.

27. No período de auge da caça às bruxas na Europa, o tempo não ajudou muito na colheita: o inverno foi forte demais e o verão trouxe enxurradas que destruíram as plantações, causando fome, mortes e inúmeras doenças. A superstição e o medo fizeram com que as pessoas atribuíssem tais fenômenos da natureza a atos de bruxaria de judeus e ciganos.

28. A maior parte das vítimas foram julgadas e executadas entre 1550 e 1650. A quantidade de julgamentos e a proporção entre homens e mulheres condenados poderá variar consideravelmente de um local para o outro. Por outro lado, 3/4 do continente europeu não presenciou nem um julgamento sequer. A maioria das vítimas foram julgadas e executadas por tribunais seculares, sendo os tribunais locais, foram de longe os mais intolerantes e cruéis. Curiosamente, por outro lado, as pessoas julgadas em tribunais religiosos recebiam um melhor tratamento, tinham mais chances de poderem ser inocentadas ou de receber punições mais brandas.

29. O número total de vítimas da caça às bruxas ficou provavelmente por volta dos 50 mil, e destes, cerca de 25% foram homens. Mas esse número nunca poderá ser realmente calculado. Mulheres estiveram mais presentes que os homens, e também enquanto denunciantes, e não apenas como vítimas.

30. A maioria das vítimas era parteiras ou curandeiras locais (rezadeiras), mas a maioria não era realmente formada por bruxas. A grande maioria das vítimas era da religião cristã, até porque a população pagã na Europa na época da caça às bruxas era muito reduzida.


31. Estudos recentes vêm apontar que muitas das vítimas da caça às bruxas, bem como de muitos casos de “endemoniados”, teriam sido vítimas de uma intoxicação. O agente causador era um fungo denominado Claviceps purpurea, um contaminante comum do centeio e outros cereais. Este fungo biossintetiza uma classe de metabólitos secundários conhecidos como alcalóides da cravagem e, dependendo de suas estruturas químicas, afetavam profundamente o sistema nervoso central. Os camponeses que comeram pão de centeio (o pão das classes mais pobres) contaminado com o fungo eram envenenados e desenvolveram a doença, atualmente denominada de ergotismo.

32. Em alguns casos, também se verificou alegações falsas de prática de bruxaria e de estar possuído pelo demônio, com o fim de se apropriar ilicitamente de bens alheios ou como uma forma de vingança, uma vez que a família do possível feiticeiro perdia todas as terras e os bens, ficando à sorte alheia.

33. Outro ponto interessante é que durante esse período da caça às bruxas da Idade Modernas, muitas manifestações de doenças foram confundidas como manifestações demoníacas, tais como a epilepsia. Muitos epiléticos foram a julgamento e queimados em fogueiras, principalmente na Suíça de Calvino.