terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sociedade Thule: você conhece este “braço” do Nazismo?

A Sociedade Thule – em alemão “Thule Gesellschaft” – ainda provoca enormes debates; uma vez porque ela, necessariamente, não seria um dos tentáculos no Nazismo, outras porque ela cresceu enormemente depois da ascensão de Hitler ao poder, sendo absorvida pelo regime totalitário. A Thule entrou para o rol das teorias conspiratórias a patir das suas estranhas práticas e funestos desejos de perfeição e ordenamento social, voltando-se para os povos germânicos pagãos. Por sua historiografia ser bastante extensa, cada historiador pensa de um modo a forma como a Sociedade Thule se insere no contexto do fazer histórico.


Originalmente, a sociedade se chamava “Grupo de estudos para a Antiguidade alemã” – em alemão “Studiengruppe für germanisches Altertum” –, sendo um grupo secreto ocultista e “völkisch” fundado em Munique, cujo nome era uma referência ao país místico da mitologia grega. Vale ressaltar que quando dissemos que a Thule era “völkisch”, não estamos dizendo que ela fosse popular e atingisse todas as camadas da sociedade, mas sim que desejava transformar essas camadas para um modo diferente, “perfeito”, “digno da nação alemã”.

Contexto histórico...
Desde a Idade Média, a região onde hoje se localizam a Alemanha, Áustria, República Checa e parte da Polônia era habitada por povos germânicos variados, que tinham enorme preconceito contra judeus, ciganos e eslavos. Portanto, desde o medievo a sociedade alemã – mesmo que não como nação unificada – achava-se amargamente prejudicada por essas etnias habitarem seus campos e produzirem em suas terras.

Martinho Lutero (foto abaixo), grande figura da Reforma Protestante no século 16, é um dos que mais pregava essa defesa da terra alemã para os alemães – agora, para ele, alemães protestantes – e chegou a publicar um livro intitulado “Sobre os judeus e suas mentiras”. No século 19, com o Positivismo Lógico e o Racionalismo Científico, surgiram sociedades que queriam, a todo custo, provar cientificamente a superioridade germânica frente às outras nações – principalmente porque a Prússia era uma das grandes potências da Europa desde o século 18, evidenciando o que acreditavam ser um possível sinal divino de superioridade.

Portanto, podemos afirmar com toda certeza que a semente racista e xenofóbica do Nazismo é muito mais antiga do que poderíamos supor, sendo fruto da soberba germânica e prussiana frente às outras nações europeias, que desde o século 19 já falavam em “espaço vital para desenvolvimento”. Em seus escritos de 1900, por exemplo, Freud, médico judeu fundador da psicanálise, já citava que era prejudicado profissionalmente por o que ele chama de “questões sectárias”, ou seja, algum tipo de preconceito arraigado na sociedade austríaca que via desde o medievo o judeu e o cigano como possíveis ameaças, tentando remontar àquela sociedade germânica pré-cristã.



Voltando à Sociedade Thule...
A sociedade foi notável principalmente na organização que patrocinou o Deutsche Arbeiterpartei (DAP), que posteriormente foi transformado por Adolf Hitler no Partido Nazista conforme o conhecemos. No entanto, não há nenhuma evidência direta de que Hitler tenha frequentado a Sociedade de Thule, mas existem referências da participação indireta dele tanto na Thule como na Vrill, esta última uma sociedade com objetivos parecidos à primeira.

Alguns historiadores consideram como um fato consumado a participação direta de Hitler na Thule se tivermos atenção a uma leitura de documentos no Acervo Público de Berlim, que dizem, por exemplo: “Em Berlim, Haushoffer fundou a chamada Loja Luminosa, ou Sociedade Vrill. Seu objetivo era explorar as origens da raça ariana e realizar exercícios de concentração para ‘despertar as forças Vrill’ entre os adeptos. (...) A Loja incluía como membros Hitler, Aalfred, Rosemberg, Himmler, Göring e o médico pessoal de Hitler, Dr. Morell. Sabe-se, também, que Aleister Crowley e Gurdjieff buscaram contato direto com Hitler. (...) Temos certeza de que Hitler tinha contato direto com as técnicas psicológicas de Gurdjieff, que, por sua vez, foram baseadas nas técnicas dos sufis e nos tibetanos, misturando-as com técnicas da filosofia Zen”.


Entre os historiadores e biógrafos há um desencontro de informações. Uns dizem que o Führer só usou e manipulou a Sociedade Thule para atingir os seus objetivos xenofóbicos e preconceituosos. Outros autores apontam que Hitler não só participou, como também chegou a ser grão-mestre na Thule, tendo participação extremamente ativa na sociedade secreta. Em um post anterior debatemos sobre o chamado “misticismo nazi”, que explanou um pouco de cada aspecto místico do Partido Nazista, que fazia com que ele se aproximasse da religião.

Contexto histórico da fundação e ação da Sociedade Thule...
A Sociedade Thule foi fundada no dia 17 de agosto de 1918 por Rudolf von Sebottendorff (foto abaixo), na cidade de Munique. O nome “Thule” é derivado de uma ilha mística da mitologia germânica e em pouco tempo começou a ganhar adeptos ao divulgar propaganda antirrepublicana e antissemita. De acordo com alguns historiadores e antropólogos, é possível identificarmos algumas causas para o sucesso da sociedade, dentre alguns:

(a) Fundada em 1918, ano do fim da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha saíra do conflito com uma dívida exorbitante, perdera territórios, o desemprego e a miséria batiam à porta das famílias e o Tratado de Versalhes impunha ao país vergonhosas exigências;
(b) Habitava no âmbito social germânico de que a Primeira Guerra fora perdida graças à “traição dos judeus, comunistas e republicanos”, que gostariam de mais uma vez dividir a “grande Alemanha” em pequenos países frágeis, que se tornariam Estados-fantoches;
(c) Desejo de uma parte da sociedade em voltar ao paganismo germânico e viking, revivendo os antigos cultos antes da cristianização do Norte da Europa, por volta do século 13, quando as práticas foram proibidas e muito da cultura e folclores germânicos e escandinavos foram perdidos com o tempo;
(d) Diante destes aspectos, era necessária a figura de um homem que poderia apagar este amargo passado da história alemã, revivendo o período de glória da Prússia, ao mesmo tempo que voltava a evocar uma “verdadeira cultura germânica”, distante da cultura ocidental, que é judaico-cristã e grecorromana. Seria ele o “Übbermensch”, ou “Super-homem” que transformaria a moral alemã em pouco tempo – e desse discurso que Hitler se aproveitara imensamente para proclamar-se este ser.


Nos anos 30, período de seu auge, os membros da Thule diziam que ela existia há mais de 1.200 anos e que desde a sua fundação teve como objetivo a promoção das antigas tradições religiosas europeias, tais como o druidismo, a bruxaria, o wotanismo, o woragsmo, a asatru e a vanatru.

Os membros da Sociedade Thule tiveram enorme importância para a transformação do Partido Alemão dos Trabalhadores em Partido Nazista. Teve membros dos escalões de topo do partido, incluindo Rudolf Hess e Alfred Rosenberg. O órgão de imprensa de propaganda da sociedade era o “Münchener Beobachter” (ou “Observador de Munique”), que mais tarde ganharia mais força transformando-se no “Völkischer Beobachter” (ou “Observador do Povo”), um dos jornais oficiais do Partido Nazista.

Nos anos 30, a sociedade teve força gigantesca e se espalhou por todo continente europeu junto com as células nazistas, chegando a cruzar o oceano, formando grupos nos Estados Unidos, Argentina e Brasil. No nosso país as reuniões eram comuns no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, onde oficialmente atuou até 1969.


Apesar da enorme força que despertava na sociedade europeia anticomunista e antissemita, Hitler temeu que a Thule fosse controlar o que somente ele gostaria de obter comando: a Alemanha. Com isso, quando proibiu as reuniões de sociedades secretas temendo a trama de um golpe de estado contra si, a Sociedade Thule não ficou imune e também passou à clandestinidade na Alemanha, mesmo pregando o mesmo “evangelho” que Adolf Hitler.

Atualmente, a Thule está de volta em várias partes do mundo como grupos neonazistas que tentam a pureza cultural da Europa germânica. Em vários países ela atua com violência junto a outros grupos de skinheads, e no Brasil já foram identificadas novas células que creem nesta pureza e tentam praticá-la em uma nação fundamentada na mistura dos elementos negro, ameríndio e europeu; ou seja, uma situação impossível de ser aplicada. Resta a nós refletirmos sobre essas histórias do passado para que elas não morram, pois estaremos condenados a repeti-las.