terça-feira, 8 de outubro de 2013

Rei Artur: personagem tão falado que realmente teria existido? Fato ou farsa?

Rei Artur, seus cavaleiros, a espada Excalibur e a Távola Redonda talvez seja uma das histórias britânicas mais conhecidas em todo o mundo, inspirando diversas pessoas para criarem jogos, gibis, “mitologias”, teorias da conspiração, revisionismo histórico, história alternativa e tudo mais. Algumas pessoas insistem em afirmar que o Rei Artur (em inglês King Arthur) realmente teria existido junto com Merlin, Camelot e a Távola Redonda com seus cavaleiros. Mas à luz da historiografia, será que realmente este homem, tão imponente no panteão folclórico britânico, teria realmente existido e governado o território da Grã-Bretanha? É o que tentaremos elucidar no post de hoje!



O Rei Artur seria uma figura lendária britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores saxões chegados à Grã-Bretanha no início do século 6 da nossa era. Os detalhes da história de Artur são compostos principalmente pelo folclore e pela literatura, e sua existência histórica é debatida e contestada. A escassez de antecedentes históricos do Rei Artur é retratada por diversas fontes. O lendário Artur cresce como uma figura de interesse internacional em grande parte pela popularidade do livro de Geoffrey Monmouth, “Historia regum britanniae”, ou “História real britânica”. Porém, alguns contos de Gales e da Bretanha e poemas relativos à história do Rei Artur foram feitos antes deste livro; nestas obras, Artur aparece como um grande guerreiro que defende a Grã-Bretanha dos homens e inimigos sobrenaturais ou como uma figura fascinante do folclore, às vezes associada com o “Outro Mundo”, Annwn.

Quanto ao livro de Geoffrey Monmouth, foi mais adaptado dessas obras do que inventado por ele mesmo, porque ele é desconhecido. Embora os temas, acontecimentos e personagens da lenda de Artur variem de texto para texto e não exista uma versão totalmente comprovada, a versão de Geoffrey sobre os eventos é frequentemente usada como ponto inicial das histórias posteriores, ou seja, a gênese de todo o mito, todo o folclore e todas as controvérsias. Geoffrey descrevia Artur como um rei britânico que venceu os saxões e estabeleceu um império composto pela Grã-Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega. Na realidade, muitos elementos e acontecimentos que agora fazem parte da história de Artur apareceram no livro de Geoffrey, incluindo Uther Pendragon, pai de Arthur, o mago Merlin, a espada Excalibur, o nascimento de Artur em Tintagel, sua batalha final contra Mordred em Camelot e o fim de Avalon.


Chrétien de Troyes, escritor francês do século 12 que adicionou Lancelote e o Santo Graal à história, iniciou o gênero de romance arturiano que se tornou uma importante vertente da literatura medieval, a chamada literatura de cavalaria, que é uma das gêneses das telenovelas e séries contemporâneas. Nestas histórias francesas, a narrativa foca frequentemente em troca do Rei Artur para outros personagens, como os cavaleiros da Távola Redonda. A literatura arturiana teve sucesso durante a Idade Média, mas diminuiu nos séculos que se seguiram até ter um ressurgimento significativo no século 19. No século 21, as lendas continuam vivas, tanto na literatura como em adaptações para teatro, cinema, televisão, revista em quadrinhos e outras mídias.

A historicidade do Rei Artur: fato ou farsa?!
A origem do mito do Rei Artur é um ponto muito debatido pelos estudiosos até hoje. Alguns acreditam que o personagem está baseado em alguma figura histórica, provavelmente um chefe guerreiro britânico da Antiguidade tardia e início da Idade Média, a partir do qual se criaram as lendas que conhecemos hoje. Outros estudiosos creem que Artur é pura invenção mitológica, sem relação com nenhum personagem real.

A escola que crê num Artur histórico baseia-se em antigas obras como “História dos bretões” e “Anais da Câmbria”, as quais relatam de maneira fantasiosa eventos históricos ou pseudo-históricos ocorridos nas Ilhas Britânicas. Estes textos apresentam Artur como figura real, um líder romano-britânico que lutou contra a invasão da Britânia pelos anglo-saxões, situando o período do Artur histórico entre o final do século 5 e começo do século 6. O livro “História dos bretões”, escrito em latim por volta do ano 830 d.C., é o mais antigo em que aparece seu nome. A obra relata doze batalhas que Artur disputou, referindo-se a ele não como rei senão como “dux bellorum” (o mesmo que “chefe guerreiro”).

Estas chegam a seu ponto máximo na Batalha do Monte Badon onde o cronista diz que Artur matou sozinho 960 homens. Estudos recentes, porém, questionam a utilidade deste livro como fonte histórica deste período. A outra crônica antiga que parece apoiar a existência histórica de Artur são os “Anais da Câmbria”, escritos no século 10, que também ligam Artur à Batalha do Monte Badon. O livro data essa batalha entre 516-518 e também menciona a batalha de Camlann, na qual morrem Artur e Mordred, e que teria ocorrido entre 537-539.

Estes detalhes aparentemente apoiam a versão da “História dos bretões”, confirmando que Artur realmente lutou no Monte Badon. No entanto, os manuscritos dos “Anais de Câmbria” têm uma história complexa, e é possível que cronistas tenham utilizado o primeiro livro como fonte sobre as seções sobre Artur. Neste caso, o volume “História dos bretões” e os “Anais de Câmbria” não seriam duas fontes independentes da historicidade do Rei Artur.


Contexto histórico do período em questão...
A história mais provável é que o Rei Artur tenha existido na realidade na Bretagne, região da França. Como exemplo, os menhirs e os dolmens que existiam na vila de Carnac e muitos outros que são vestígios deixados por povos celtas ou gauleses na França. O fato é que existem várias hipóteses. Para os curiosos a literatura francesa também tem a sua versão da história do Rei Artur. Em princípios do século 5, o imperador de Roma, Honório, já farto das revoltas da província da Bretanha, mandou retirar as legiões e quadros administrativos dessa província; essas legiões deviam ser comitenses, tropas móveis (uma vez que se sabe que as tropas junto à Muralha de Adriano continuaram a cumprir o seu dever mesmo sem um império a quem servir). A partir daí, de fato pouco se sabe, sendo a principal fonte um monge bretão do século 6, Gildas.

Gildas, além de tudo um monge muito forte e de conhecimento da magia negra e branca ajudou Artur em muitas de suas batalhas defendendo e protegendo-o. Os pictos do norte e os irlandeses do oeste começaram a lançar ataques cada vez mais atrevidos; em meados do século 5, um rei chamado Voltigern pede ajuda a saxões do continente para combater essas ameaças, mas rapidamente os mercenários decidem passar a combater por conta própria para conquistar esse país tão fértil (pelo menos do seu ponto de vista), chamando mais tropas do continente. A situação estava estacionária quando, em finais do século 5, Ambrosius Aurelianus, um romano da Bretanha (seja o que for que esse termo implique décadas depois da partida de Roma) consegue numa batalha esmagadora deter os saxões, a célebre Mons Badicus.

Por algumas décadas a maré saxã parece ser detida (os achados arqueológicos demonstram-no), mas a incapacidade dos bretões em se manter unidos permite aos saxões resistirem, depois lançarem-se novamente ao ataque. Na segunda metade dão-se uma série de batalhas que destroem primeiro os reinos celtas do sul, depois são os do norte, até os celtas ficarem reduzidos à Cornualha, Gales e mais uns enclaves. A Inglaterra ia começar. Depois da destruição dos reinos celtas, só existem novamente fontes com Beda, em princípios do século 8. Infelizmente, as informações que ele fornece para o período de Artur são copiadas de Gildas e os seus próprios dados começam só por volta de 600 com as missões católicas aos reinos saxões.


Em pleno século 8 temos informações relevantes vindas de um bretão, Nennius. Finalmente o nome de Artur é referido (não é certo pela primeira vez, mas sim relacionado com os fatos corretos). É descrito como um comandante militar que teria vencido 12 batalhas contra os saxões sendo a mais gloriosa Badon Hill (sendo assim ignorado Ambrosius). O problema desta fonte é que, segundo os historiadores, Nennius tinha uma certa tendência a “preencher” as lacunas com fatos inventados por ele. Isso não significa que ele tenha inventado tudo, mas que pode ter embelezado ou distorcido conforme as necessidades.

No século 10 surgem os “Anais da Câmbria”, uma cronologia (de origem galesa podemos agora dizer, e não bretã) bastante sucinta. Para o ano 516 registra a vitória de Artur contra os saxões e em 537 registra a morte de Artur e Medraut (o futuro Mordred, embora não seja dito que eles fossem inimigos) numa batalha. Por curiosidade, na entrada de 573 é referido que Merlin enlouqueceu, e não é dito que é um mágico, mago, bardo ou o que quer que seja, mas apenas isso: que enlouqueceu. Artur continua a ser referido como um chefe militar, mas não como um rei. Ora acima foi dito que o nome de Artur já era referido antes de Nennius o descrever. De fato, em algumas baladas galesas que remontam ao século 7, o nome de Artur como rei aventureiro no norte da Bretanha surge, mas nenhuma informação concreta é fornecida (para além de que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças).


Quanto muito ficamos sabendo que o imaginário popular já se apoderara dele e retirando todo o contexto real lhe dera uma nova dimensão (como Mircea Elliade tão bem se apercebeu com outras figuras). Essas baladas teriam a mais bela concretização no Mabinogion. As crônicas anglo-saxônicas sendo muito posteriores (começaram a ser compiladas no século 9 e vão até ao século 12) descrevem todo o processo de destruição progressiva dos bretões (embora omitindo as suas próprias derrotas) mas não referem os nomes dos líderes bretões, o que é uma forte lacuna. E assim chegamos a Geoffrey de Monmouth. É do século 12 e o último autor que diz estar a fazer história. Argumentou que utilizou um livro vermelho em língua bretã de onde tirou todas as suas informações (não se pode negar ou aceitar, mas era hábito da época justificar-se que se tinha uma fonte mais antiga). Ele vai acabar por dar alguns dos últimos acrescentos da futura lenda arturiana. Incorpora Uther Pendragon (pai de Artur) como irmão de Aurelius Ambrosius, refere a célebre passagem em que Merlin disfarça Uther com o aspecto do marido de Igraine, Mordred é já inimigo de Artur (mas apenas sobrinho e não filho incestuoso), Artur conquista o Império Romano etc.

Agora sim podemos dizer que estamos de fato nos domínios da literatura. Em finais do século 12 Chrétien de Troyes, um francês, escreveu contos sobre as aventuras do Rei Artur, Lancelote, Guinevere, Gawaine e Percival. Sabe-se que Artur e os seus cavaleiros eram personagens populares na época e as histórias a partir da Bretanha de língua céltica e de Gales tinham-se espalhado por outros países. Mas Chrétien, apropriando-se de mitos conhecidos, deu-lhe um cunho pessoal e, sobretudo, ficaram guardados para a posterioridade. A partir daí, é um nunca mais terminar: o ciclo da vulgata francesa, o “Parzival” alemão, o “La mort d’Artur de sir Mallory”, só para citar os mais conhecidos.

Alguns escrevem sobre todo o ciclo desde a morte de Jesus Cristo até a morte de Artur, criando uma narrativa de séculos, outros descrevem apenas episódios que acontecem a cavaleiros. São incorporados mitos exteriores sem ligação inicial (a história de Tristão e Isolda, o mito do Graal, a Távola Redonda etc.), novos personagens são criados etc. As obras foram traduzidas para todas as línguas do Ocidente, reescritas, fundidas, influenciando muito a maneira de pensar (ou pelo menos o conceito do que deveria ser o ideal) dos cavaleiros.


O Romantismo do século 19 com o seu interesse na Idade Média restaurou o interesse pelos contos de cavaleiros. O século 20, graças ao cinema e desenhos animados, completou o trabalho, mantendo o interesse vivo e permitindo que um maior público tivesse acesso à narrativa. Os historiadores, depois de terem feito uma crítica feroz aos mitos arturianos, chegando mesmo a negar a sua existência, limitam-se a uma prudente reserva. O que nos fica então para além de belas histórias? Não podemos afirmar com toda a certeza que Artur existiu, pois não existem relatos contemporâneos. Os arqueólogos, com as limitações que a ausência de registros implica, preferem falar de um período sub-romano para definir aquilo que é o período arturiano: séculos 5 e 6 d.C.

Artur era de fato um nome até relativamente vulgar na época. Sabe-se que um comandante romano de um destacamento sármata do século 2 na Bretanha tinha esse nome. Outras figuras antes e depois do “Artur” que nos interessa tinham esse nome. Uma divindade do norte também tinha um nome semelhante.

Ou seja, a historiografia tem suas reservas frente a tanta mistura atemporal de narrativas variadas: vide que chegam a misturar a condenação de Jesus Cristo à possível história do Rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola Redonda. Pode ser que o folclore tenha sido originado por um personagem muito importante para a história local, eternizado por uma série de situações, tais como o início do excesso de religiosidade, característica fundamental do período medievo.