quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Natal: a festa do nascimento de Jesus, ou do nascimento do Sol?! Quando Jesus realmente teria nascido?!

Existem eventos que pela sua natureza quase não são questionados. Um deles refere-se ao Natal. Habituados que estamos a comemorá-lo todos os anos em 25 de dezembro, jamais poderíamos supor que o nascimento de Jesus tivesse ocorrido em outra data.


No entanto, é justamente o nascimento de Cristo o acontecimento histórico que mais tem atraído a atenção de inúmeros astrônomos e astrofísicos, além de historiadores, em particular daqueles interessados em problemas historiográficos e preocupados com a procura de uma explicação racional para o grande mistério da Estrela de Belém. Para alguns autores, ela teria sido um sinal divino cientificamente inexplicável. Todavia, nem todos pensam de mesmo modo. Assim, para alguns notáveis astrônomos, dentre eles o alemão Johannes Kepler, o fenômeno luminoso que apareceu no céu na época do nascimento de Cristo deve ter sido um evento astronômico transitório. Talvez um cometa, um meteoro, uma conjunção de astros, a explosão de uma estrela. Considerando que alguns destes fenômenos astronômicos foram observados antes e depois do nascimento de Cristo, será conveniente antes de tentar associá-lo à Estrela de Belém, determinar a data mais provável do nascimento de Jesus.

Como ainda existem sérias dúvidas quanto ao dia e ano em que Cristo nasceu, os historiadores procuram utilizar-se de fatos históricos bem conhecidos, assim como de fenômenos astronômicos, para estabelecer uma cronologia comparada que possa conduzir à mais provável data de nascimento de Cristo, e desse modo explicar a natureza da visão observada pelos Reis Magos, como se acha relatada na Bíblia. Saber essa data é importante para a História porque ela é dividida em a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo) para mensurar e dividir suas unidades de estudos. Vale ressaltar que o marco entre a Pré-história e a História não é o nascimento de Jesus – que nasceu na Antiguidade – mas sim a invenção da escrita.


Por definição, Jesus nasceu no ano 1 de nossa era, pois seu nascimento é o evento que marcou o início da Era Cristã. Na realidade, a verdade é outra totalmente diferente. Tudo começou em 525 d.C., quando Dionísio Pequeno fixou o nascimento de Jesus Cristo em 25 de dezembro de 754 ad urbe condito (“depois da fundação de Roma”). Desde então essa é a data de origem do nosso calendário. Ao corresponder o ano 1 depois de Cristo ao ano 754 depois da fundação de Roma, Dionísio cometeu um erro de cálculo da ordem de pelo menos cinco anos. Ele não havia considerado nem o ano zero (algarismo que seria introduzido na Índia só no século 9 d.C. e na Europa só no século 14) nem os quatro anos em que o Imperador Augusto reinou com o seu próprio nome de batismo, Otávio. É por isso que, atualmente, debate-se curiosamente que Jesus teria nascido entre os anos 4 e 8 antes dele mesmo, pois os calendaristas e historiadores já fazem essa correção. Assim, o ano de 2013, na realidade, poderia ser tanto 2017 como 2021.

Por outro lado, com o auxílio de acontecimentos históricos citados na Bíblia poderemos determinar com maior precisão os prováveis anos nos quais teria nascido Jesus. De início, segundo o Evangelho de São Mateus, sabe-se que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, que faleceu em 4 a.C. (já com a correção citada acima), talvez em abril ou maio. Essa última conclusão prende-se ao fato de que a morte de Herodes ocorreu durante a Páscoa dos judeus e foi precedida por um eclipse da Lua. Ora, o único eclipse lunar visível em Jericó foi justamente o da noite de 12 para 13 de março do ano 4 a.C., como foi mencionado por Flávio Josefo, supõe-se que a morte de Herodes se deu provavelmente no mês seguinte ao do eclipse. Em síntese: tudo indica que Herodes morreu entre 13 de março e 11 de abril, pois foi esse o último dia que se iniciou a Páscoa judaica, o Pêssach.

Uma outra ocorrência que tem auxiliado os historiadores foi o Massacre dos Inocentes, quando todas as crianças de menos de dois anos foram sacrificadas por ordem de Herodes, que se baseou nas informações dos Três Reis Magos para enviar seus soldados a Belém com o fim de matar o recém-nascido Messias que tanto temia. Por este fato se conclui que Jesus, na época, deveria ter menos de dois anos. Seria conveniente lembrar, por outro lado, que essa data pode corresponder à concepção, e não ao nascimento, pois entre os orientais daquela região era tradição iniciar a contagem da idade a partir daquele instante.


Um outro ponto de referência na fixação da data do nascimento de Jesus foi a época do recenseamento ordenado pelo Imperador Augusto, levado a cabo por Quirino, governador da Síria. Se aceitarmos o termo recenseamento como “census”, isto é, como inventário de população, a data correspondente será de 7 ou 6 a.C. Todavia, se tomarmos, como o fazem alguns autores, esse termo no sentido de “cens”, ou seja, de imposto, que deve ter sido posterior em um ou dois anos ao citado inventário, é aceitável supor que o mesmo ocorreu entre 5 ou 4 a.C. Considerando todos esses elementos chegados à conclusão já dita anteriormente: de que a data de nascimento de Jesus deve situar-se entre 8 e 4 a.C.

E em que dia, afinal, nasceu Jesus Cristo?
O Natal, em 25 de dezembro, começou a ser celebrado em todo o mundo como o dia do nascimento de Jesus depois do ano 336 d.C. Antes, essa data era aceita como o solstício do inverno no Hemisfério Norte. Era o meio do inverno, dia depois do qual os dias começavam a se alongar aos poucos. A festa pagã do “dies solis invicti natalis”, ou seja, “dia do nascimento do Sol”, era celebrada no dia que coincidia com os meados da saturnália, estação durante a qual os trabalhos cessavam. Neste dia em que o Sol começava a se dirigir para o Norte, as casas eram decoradas com árvores, presentes eram trocados entre amigos e parentes, ceias e procissões eram realizadas pelos povos pagãos em homenagem ao Sol que voltava a sua posição elevada. Como os primeiros cristãos comemoravam esse feriado, a Igreja primitiva decidiu transformar tal cerimônia pagã numa festa genuinamente cristã. Assim, o dia 25 de dezembro passou a representar o dia do nascimento de Cristo, e não mais o nascimento do Sol. No Oriente, o nascimento foi inicialmente celebrado em 06 de janeiro, data que estava associada à Estrela de Belém. Essa comemoração tinha como objetivo substituir a cerimônia pagã que, em 06 de janeiro, se comemorava no templo de Kore, em Alexandria, no Egito, a virgem que deu à luz Aion, um deus pagão das Arábias.


Como se pode perceber, o Natal foi uma construção temporal para que a população deixasse de lado, aos poucos, suas práticas pagãs dando lugar ao Cristianismo. Desta forma, o Natal foi uma data meticulosamente construída aos poucos para quebrar tradições milenares de povos germânicos, orientais e grecorromanos.

Em 194 d.C., Clemente de Alexandria propôs a data de 19 de novembro do ano 3 a.C., enquanto outros pretendiam que o nascimento ocorresse em 30 de maio ou 19/20 de abril. Mais tarde, em 214 d.C., Epifânia propôs o dia 20 de maio. Nessas datas existem confusões entre a época da concepção e a do nascimento. No entanto, essas datas parecem concordar com a velha tradição de que Cristo teria sido concebido na primavera e nascido em meados do inverno (essas estações referem-se ao Hemisfério Norte).

Segundo relatos da Bíblia, o nascimento de Cristo pode ser determinado em função de São João Batista. Assim, Zacarias, o pai de João Batista, foi o sacerdote da travessia de Abia (Lucas 1,8) que teria servido no templo na sexta semana depois da Páscoa, semana anterior ao Pentecoste. Como todos os sacerdotes também serviram durante o Pentecoste, Zacarias teria deixado Jerusalém rumo à sua casa no décimo-segundo dia do mês do calendário israelita Sivan, ou seja, em 12 de junho do nosso calendário. Ora, como Isabel, sua esposa, concebeu seu filho depois do seu retorno (Lucas 1,24), conclui-se que João Batista deve ter nascido 280 dias mais tarde, ou seja, por volta do dia 27 de março. São Lucas (1,36) registrou ser Cristo seis meses mais jovem que João Batista, o que faz supor ter o nascimento de Cristo ocorrido em setembro seguinte, ou seja, no outono do ano 7 a.C. A primitiva tradição cristã registrava que Jesus nasceu um dia depois de um Shabbath judeu, isto é, num domingo. Crenças astrológicas tradicionais indicam como o dia mais provável o sábado, 22 de agosto de 7 a.C. Seria conveniente lembrar que, no calendário judeu, o dia começa ao pôr do Sol, de modo que, se considerarmos a legenda segundo a qual Cristo nasceu depois do pôr do Sol, podemos aceitar que o seu nascimento ocorreu em 23 de agosto do ano 7 a.C. – com aquela correção dita anteriormente.


Também é importante lembrarmos o contexto meteorológico do evento. Segundo a Bíblia, Jesus nasceu num estábulo bastante pobre pois não havia instalações para Maria e José, pois a cidade estava cheia para o recenseamento romano. Se Jesus tivesse nascido realmente em dezembro – inverno na Galileia – o frio teria sido insuportável para todos que ali estavam, uma vez que durante a madrugada dos meses de dezembro a temperatura despenca para até -10°C. Já se formos pelo cálculo anterior, entre abril e agosto, temos a primavera e o verão na Palestina, quando as situações climáticas são mais favoráveis para um parto nestas condições, quando, durante a madrugada, a temperatura é amena, entre 19 e 27°C. A própria questão do clima faz com que se torne mais próxima à veracidade a teoria de um nascimento no meio do ano.

Estes são os elementos históricos que permitem determinar a época do nascimento de Cristo. Embora todas as hipóteses racionais deixem uma dúvida sobre a data exata em que Jesus veio ao mundo, os versados em problemas religiosos são unânimes em afirmar que ela teria ocorrido nos meados do inverno dos anos 7 a 5 a.C. Se aceitarmos que o nascimento de Cristo ocorreu em fins de agosto, a visita dos Reis Magos deve ter ocorrido no início do mês de setembro, o que, aliás, combina melhor com a ideia de que a Estrela de Belém tenha sido a conjunção tríplice de Saturno e Júpiter ocorrida em 7 a.C. Assim, a primeira conjunção visível em maio teria sido o sinal que levou os Reis Magos a se afastarem em direção a Jerusalém, aonde devem ter chegado no início de setembro, e não em 06 de janeiro conforme a tradição fala. Por outro lado, tal conclusão torna mais fácil a aceitação de que Jesus Cristo tenha nascido numa manjedoura. De fato, como era verão no Hemisfério Norte em agosto/setembro, não era necessário um abrigo que os protegesse melhor do frio, como dito anteriormente.

Nada mais lógico do que aceitar a beleza desses três eventos, quer pelos seus aspectos religiosos/teológicos, quer pelo fato de serem festas sazonais, só comparáveis às da Semana Santa, com culminância da Páscoa. Para aqueles que não têm a graça da fé, o Natal e a Páscoa são, respectivamente, festas solsticial e equinocial, ambas de rara beleza cósmica. Abaixo temos a tabela que nos mostra a correspondência dos calendários com os eventos astronômicos.


(Texto adaptado de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em “O livro de ouro do universo”)