sábado, 21 de setembro de 2013

Mais considerações sobre o lobisomem, mitológico ser das trevas em todas as culturas...

É muito interessante perceber que dois seres mitológicos permanecem intactos em diversas culturas distantes: o lobisomem e a sereia; desde o remoto Japão feudal até o cerrado brasileiro, o lobisomem é motivo de espanto para os mais crédulos, medo para as crianças e objeto de estudo para os antropólogos e folcloristas. Por detrás desta fera medonha há muitas coisas a serem ditas e ainda descobertas. E esse é o objetivo do post de hoje!


1. Para quem não sabe, em algumas culturas o lobisomem é conhecido como “licantropo”, palavra de origem grega: “lýkos” – “lobo” e “ántropos” – “homem”. Ou seja, um homem-lobo, com comportamentos antissociais e/ou animalescos;

2. De acordo com os antropólogos, a lenda do lobisomem pode ser encontrada em todo planeta, mas sua origem remonta a Europa, quando dizia-se que homens se transformavam em bestas animalescas em noites de lua cheia, voltando à forma normal somente ao amanhecer, sem se recordar de nada que havia acontecido nesse ínterim;

3. De acordo com a maior parte dos etnólogos, tais lendas são muito antigas e encontram a sua raiz na mitologia grega. Em “As metamorfoses”, de Ovídio, Licaão, rei da Arcádia, serviu a carne de árcade a Zeus e este, como castigo, transformou-o em lobo. Uma das personagens mais famosas foi o pugilista arcádio Damarco Parrásio, herói olímpico que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias;

4. O lobisomem dos gregos, o homem-fera que se transforma em lobo agressivo, é o mesmo ser conhecido como Versipélio na Roma Antiga, Volkodlák na Sérvia, Werewolfen na Alemanha, Drakopyre na Escandinávia, Óboroten na Rússia, Hamtammr entre os vikings, Licantropo em Portugal e Loupgarou na França. Ou seja, trata-se de uma mitologia que ganhou toda a Europa e, posteriormente, todo o planeta;

5. A lenda brasileira sobre o lobisomem diz que a sétima criança em uma sequência de filhos do mesmo sexo tornar-se-á um lobisomem. Outra versão diz o mesmo de um menino nascido após uma sucessão de sete mulheres. Outra, ainda, diz que o oitavo filho se tornará a fera. Outra já diz que é após a morte de um familiar que possuía a aberração e passou de pai pra filho, avô pra neto e assim por diante;


6. De acordo com os relatos fantasiosos, as pessoas conhecem o lobisomem na forma humana através de comportamentos estranhos, como mudança de comportamento, vida misteriosa e quase sempre com olhos cansados (olheiras);

7. Ainda segundo a tradição europeia, apesar de ser uma criatura bestial, os lobisomens são protetores de animais da natureza e, em geral, não gostam de caçadores. Segundo a lenda na Europa, vários caçadores foram mortos de maneira violenta por lobisomens em incursões pelas florestas;

8. Em algumas regiões, o lobisomem se transforma à meia noite de sexta-feira, em uma encruzilhada. Como o nome diz, é metade lobo, metade homem. Depois de transformado, sai à noite procurando sangue, matando ferozmente tudo que se move. Antes do amanhecer, ele procura a mesma encruzilhada para voltar a ser homem. Em algumas localidades diz-se que eles têm preferência por bebês não batizados. O que faz com que as famílias batizem suas crianças o mais rápido possível. Já em outras se diz que ele se transforma se espojando onde um jumento se espojou e dizendo algumas palavras do livro de São Cipriano e assim podendo sair transformado comendo porcarias até que quase se amanheça retornando ao local em que se transformou para voltar a ser homem novamente;

9. No interior do Brasil, é comum falar que lobisomem, após se transformar, tem de atravessar correndo sete cemitérios até o amanhecer para voltar a ser humano. Caso contrário ficará em forma de besta até a morte. Há também quem diga que um oitavo filho que tem sete irmãs mais velhas se torna lobisomem ao completar treze anos. Também dizem que o sétimo filho de um sétimo filho se tornará um lobisomem;

10. Algumas pessoas dizem que além da prata, o fogo também mata um lobisomem. Outras acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem. Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não o encontrar a cura até a 12ª badalada desse mesmo dia, ficará lobisomem para toda a eternidade;


11. No século 19, os lobisomens apareceram em uma enciclopédia de botânica como se fosse um ser “normal” como um urso, um cão etc. Assim dizia a tal enciclopédia: “Os licantropos são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem cinco voltas, espojando-se no chão em lugar onde se espojasse algum animal, e em virtude disso transformarem-se na figura do animal pré-espojado. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para se lhas apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um licantropo acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência”;

12. Em Portugal, a lenda do lobisomem parece um pouco mais estranha que as demais que conhecemos. Há “lobisomens” que são misturas humanas com cavalos, burros, bodes, gatos etc.

13. Ainda em Portugal, e também na Espanha, mesmo no século 21, os lobisomens são motivo de pavor entre a gente do campo. São encarados como inimigos de fazendeiros, camponeses, criadores de animais, entre outros. Inclusive há novenas em igrejas para “eliminarem tal perigo de vilas”;

14. Graças às mitologias envolvendo os seres parecidos com uns lobisomens, o lobo se tornou uma figura de animal violento, traiçoeiro, perigoso e que o ser humano deva evitar. É por isso que, ainda, em várias fábulas infantis ele apareça como um ser maligno que pratica maldades através do engodo e da esperteza, como “Os três porquinhos” e “Chapeuzinho Vermelho”;


15. Para quem não sabe, na Espanha e em Portugal há as entidade folclóricas conhecidas como “peeiras”, que seriam as formas femininas destas bestas. Há vários relatos de “lobisomens fêmeas” – ou “peeiras” – nestes países. De acordo com os relatos, estas mulheres-feras têm o dom de comandar racionamente alcateias de lobos e cães;

16. O folclore português traz, ainda, outra espécie de lobisomem, o chamado “corredor”. São homens amaldiçoados que se transformam em cães e que correm como loucos sem destino aparente;

17. Outro ser do imaginário português envolvendo os licantropos é o chamado “tardo”, que seria uma espécie de duende mágico que se transforma em qualquer animal, mas em noites de lua cheia também vira um terrível lobisomem de aspecto medonho e grotesco;

18. Por fim, o folclore português fala de criaturas conhecidas como “corrilários”, que seriam almas penadas em figura de cães. De acordo com a historinha, se um lobisomem for morto por hemorragia, não quebra seu encanto. Com isso, ele se torna um corrilário e se transforma em uma alma penada em figura de cão;

19. Desde o século 19 os lobisomens habitam o imaginário popular através de novelas draculianas, aquelas cheias de terror, calabouços, noites tempestuosas, florestas escuras etc. Tudo começou com as notícias sensacionalistas dos pasquins suburbanos de Londres. Foi assim que houve a gênese para o gênero de terror, que hoje reúne multidões nas filas de cinemas de todo o planeta. Mas vale ressaltar que, no início, as histórias eram divulgadas em jornais como se fossem reais, aumentando o medo entre as pessoas, que chegavam a evitar saírem de casa nas noites de lua cheia;

20. De acordo com folcloristas, o primeiro “lobisomem real” a ser descrito na história teria sido o granduque de Podgorica, atual capital de Montenegro. Viktor Kruchev II, de acordo com as lendas, foi convocado a lutar do lado do Império Sérvio contra a opressão Austro-Húngara, em troca ele receberia autonomia sobre sua região. Como ele e seu exército eram grandes guerreiros que se aproveitavam do relevo montanhoso para lutarem nas partes altas para as partes baixas e principalmente à noite para se aproveitarem das circunstâncias, nasceram as primeiras lendas de lobisomens habitarem montanhas e atacarem vilarejos à noite;




21. As lendas envolvendo lobisomens foram vastamente difundidas pelo Império Austro-Húngaro, pois este via que essas lendas criavam esperanças de libertação para as tribos eslavas às quais o Império dominava, porém sem sucesso, pois muitas famílias de eslavos no mundo todo, inclusive no Brasil, carregam em seus sobrenomes nomes que fazem alusão a grandes supostos lobisomens que marcaram a história;

22. Distúrbios psiquiátricos podem ter dado origem ao mito dos lobisomens. No distúrbio psiquiátrico da licantropia, acredita-se que exista um transtorno do senso de identidade própria. É encontrado principalmente em transtornos afetivos e esquizofrenia, mas pode ser encontrado em outras psicopatias. Psicodinamicamente, pode ser interpretado como uma tentativa de exprimir emoções suprimidas, especialmente de ordem agressiva ou sexual, através da figura do animal, que pode ser muito variado (lobo, cachorro, morcego, cavalo, sapo, abelha etc.);

23. Além do distúrbio psiquiátrico, a porfiria, especialmente a porfiria cutânea tarda é uma doença hereditária que pode levar a desfigurações e distúrbios mentais em casos raros e excepcionais que podem lembrar os lobisomens.