terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pornocracia da “Idade das trevas”: você conhece este termo e esse período da história?

Alguns autores abordam muito este termo: “Pornocracia”, mas poucas pessoas sabem de onde ele vem e qual a sua historicidade. Se formos analisar a palavra como si, teremos os compostos “pornô” (que atiça a libido, a sexualidade) + “cracia” (governo). Ou seja, um governo sob a égide das regras da libertinagem, da sexualidade, ou a falta de qualquer tipo de regra social (o que não deve ser confundido com a anarquia, que é o governo sem instituições).

Enfim, hoje vamos conhecer um pouco deste período obscuro da história humana, que envolve a Idade Média, a Igreja católica e a governança dos seres humanos. A pornocracia não ficou relegada aos porões historiográficos, e é bem trabalhada por diversos autores que tentam remontar o período conhecido como “Idade das trevas” e, principalmente, aqueles que lidam com a história das religiões.


A Pornocracia é conhecida oficialmente como “Saeculum obscurum” (ou “Idade das trevas” em latim), um termo que designa um período da história do papado da Igreja que se estendeu da primeira metade do século 10, com a instalação do Papa Sérgio III, em 904, e terminou após a morte do Papa João XII, em 963. Alguns historiadores medievalistas afirmam que este período foi menor, tendo durado apenas 30 anos e terminado com 935, com o reinado do Papa João XI.

O período foi primeiramente identificado e nomeado pelo cardeal italiano e historiador eclesiástico César Barônio em seu “Annales ecclesiastici”, no século 16, cuja fonte primária foi de Liutprando de Cremona. O historiador Will Durant se refere ao período de 867-1049 como o ponto “mais baixo do papado” e um dos mais bizarros do catolicismo em toda sua história, mesmo séculos depois com a venda exagerada de indulgências e relíquias, que culminou na Reforma Protestante.


Algum tempo depois, outros estudiosos passaram a usar termos pejorativos para este período, como “Pornocracia” (originalmente vindo do alemão “Pornokratie”, ou “Governo das prostitutas”), ou ainda “Estado das meretrizes” (também originalmente vindo do alemão “Hurenregiment”), ambos inventados por teólogos protestantes no século 19 com o objetivo de atacar o catolicismo. Com o tempo, o termo “Pornocracia” ganhou o mundo, os livros e a linguagem da maior parte dos historiadores contemporâneos.

Mas, afinal de contas, o que aconteceu neste período?
Durante este período, os papas eram fortemente influenciados por uma poderosa família aristocrática, Theofilato e seus parentes e sob forte influência de mulheres – embora nem todas fossem prostitutas –, em especial Teodora e sua filha Marózia. A família Teofilato ocupava posições de importância crescente na nobreza romana; Teodora (mãe) e suas filhas, Teodora e Marozia tinham uma grande influência sobre a escolha do papa e dos assuntos religiosos em Roma, através de conspirações, negociatas e casamentos.

Durante a Idade Média a Igreja católica era a instituição mais poderosa do mundo ocidental, sendo que os reis e governos estavam abaixo dela e deveriam respeitá-la. Por isso, neste período, houve grande influência na compra, venda e negociação de títulos eclesiásticos. Não havendo seminários de formação como os de hoje (criados somente no século 16), rapazes de apenas 22 anos poderiam ser nomeados cardeais ou arcebispos graças às fortunas e influência de seus familiares.

De acordo com o que nos informa Liutprando de Cremona, durante a Pornocracia Marozia teria sido concubina do Papa Sérgio III, quando ela tinha 15 anos e mais tarde teve outros amantes e maridos. Ainda segundo ele, João X foi nomeado para o cargo por Teodora, Marozia tornou-se sua amante e mais tarde o assassinou através de seu marido, Guy da Toscana, para eleger seu favorito atual como o Papa Leão VI, que posteriormente também foi assassinado e substituído pelo filho de Marózia, como o Papa João XI.


É interessante pontuar que durante os séculos 15 e 16, Roma era conhecida como “a prostituta da Europa”. Havia vários bordéis e casas de banho especializadas em atender aos religiosos e peregrinos; desde prostituição heterossexual até prostituição homossexual. A venda de relíquias supostamente santas e a venda de indulgências para a construção do Complexo Vaticano que conhecemos hoje revoltou uma série de burgueses e religiosos do baixo clero, dentre eles Martinho Lutero, que graças a isso – e com outros objetivos variados – iniciou o movimento conhecido como Reforma Protestante.

Em seus relatos e de outras pessoas daquela época, Lutero cita que em Roma havia prostituição em todos os cantos; religiosos procuravam por dinheiro e a cidade “cheirava a sexo”. A luxúria explodia em bordéis extremamente luxuosos para altos cardeais, arcebispos e papas, ou pequenas casas para religiosos menores na hierarquia religiosa. A partir deste contexto que os alemães criaram a nomenclatura “Pornocracia”.

Também é justamente deste período entre 867 e 1049 que vemos o curioso caso da suposta Papisa Joana, reconhecidamente uma história inventada por iconoclastas para quebrantar a imagem da Igreja, instituição mais forte e poderosa da época.


Lista dos papas que governaram a Santa Sé durante a “Pornocracia”...
  • Papa Sérgio III, suposto amante de Marozia
  • Papa Anastácio III
  • Papa Lando
  • Papa João X, suposto amante de Teodora (a mãe), alegadamente morto por Marozia
  • Papa Leão VI
  • Papa Estêvão VII
  • Papa João XI, filho de Marozia com o Papa Sérgio III
  • Papa Leão VII
  • Papa Estêvão VIII
  • Papa Marinho II
  • Papa Agapito II
  • Papa João XII, neto de Marozia, por seu filho Alberico II de Spoleto

Conhecer esse período da história é interessante porque nos faz refletir uma série de modificações que ocorreram dentro da própria Igreja católica – como a Contrarreforma – além dos rompimentos e continuações da própria história da humanidade. Onde o homem está presente, também estão presentes luxúria, interesses, ciúmes, angústias, jogos de poder e de interesses etc.