terça-feira, 20 de agosto de 2013

Páscoa: a festa da ressurreição de Cristo. Apontamentos interessantes...

A comemoração da ressurreição de Cristo, na Páscoa, é o ponto de partida de todas as festas do calendário eclesiástico, principalmente nas igrejas católica e ortodoxa. Ela foi a primeira festa celebrada pelos antigos cristãos, que a comemoravam em um domingo. Desde então, esse dia da semana passou a ser observado como uma lembrança dos acontecimentos pascais. Na realidade, a Páscoa está associada à paixão de Cristo: a última ceia aconteceu em uma quinta-feira e a crucificação, em uma sexta.


Como a ressurreição ocorreu próxima do equinócio da primavera e durante a lua cheia, os calendaristas resolveram que a Páscoa devia ser celebrada quando ocorressem esses dois fenômenos astronômicos. Desse modo, as principais festas religiosas passaram a ser regidas pelo movimento lunar e, consequentemente, deixaram de corresponder em cada ano à mesma data; elas se tornaram, portanto, móveis.

A Páscoa significa o fim da Quaresma, que já no início do século IV constituía um período de 40 dias. Todo o ciclo das festas móveis dependia, desde o princípio do cristianismo, da comemoração dominical da ressurreição de Cristo. Com o passar dos séculos, tal dependência adquiriu um desenvolvimento maior. A ascensão ocupa um lugar na liturgia desde o tempo de Eusébio, no século II. A Trindade e Corpus Christi são festas posteriores, assim como a festa da coroação de Jesus, que também é do ciclo da Páscoa. Em 376, o Natal, que é uma festa fixa, foi imposto por um decreto apostólico, que o estabeleceu em 25 de dezembro.


No início, a comemoração da festa da Páscoa deu lugar a certas confusões, não só pelo fato de certos adeptos comemorarem a crucificação e outros a ressurreição, mas também em virtude das incertezas nas datas exatas destes acontecimentos. Em Roma, desde César, o equinócio foi fixado em 25 de março, já em Alexandria, por motivos astronômicos, em 21 de março.

Acreditando que o calendário juliano fosse perfeito, o Concílio de Niceia, em 325, decidiu adotar regras fixas para determinar as datas das principais festas católicas. Essas regras baseavam-se na suposição de que o equinócio da primavera (para o Hemisfério Norte) dar-se-ia sempre no dia 21 de março, como se observava em Alexandria. Assim, a Páscoa, segundo os sábios reunidos em Niceia, deveria ser celebrada no primeiro domingo depois do plenilúnio (lua cheia) que se segue ao equinócio da primavera. Só após uma longa discussão, as datas as celebrações de certas grandes festas religiosas foram definitivamente fixadas. Entretanto, à medida que passavam os séculos, o equinócio da primavera se afastava do dia 21 de março.

Com efeito, no século 8, a Igreja verificou que a Páscoa, festa da primavera no Hemisfério Norte, se deslocava pouco a pouco para o verão. Em 1414, no Concílio de Constança, o teólogo e geógrafo francês Pierre d’Ailly propôs uma modificação na intercalação dos anos bissextos (quando fevereiro tem 29 dias). Novamente, em 1563, a questão da reforma do calendário foi agitada no Concílio de Trento, que recomendou ao papa o estudo desse grave problema. Concluiu-se, então, que o calendário juliano, instituído pelo Imperador Júlio César, após consultar o astrônomo egípcio Sosígenes, não era exato, pois não conseguia manter fixo o início das estações.


Após ter sido aconselhado, em 1572, pelos mais esclarecidos astrônomos da época, em particular pelo astrônomo e médico italiano Aloysius Lillius, o Papa Gregório 13 propôs, em 1582, quando consultou e obteve o acordo dos principais soberanos católicos, uma reforma do calendário. Tal reforma consistiu primeiramente em diminuir em dez dias o ano de 1582; segundo, que deixassem de ser bissextos e passassem a ser comuns cada três anos num período de 400 anos. Com essas medidas ficou sanado o erro de 3 dias que se acumulavam no fim de 400 anos pela reforma juliana. Isso foi preponderante para a Páscoa conforme conhecemos hoje em dia, e todo o calendário litúrgico.

Ao legislar sobre a maneira de suprimir esses três anos bissextos, convencionou-se que todos os anos seculares, que pela regra de Júlio César deviam ser bissextos, apenas o fossem aqueles cujas centenas fossem divisíveis por quatro. Assim, foram bissextos pelo calendário juliano os anos 1600, 1700, 1800, 1900 e 2000, enquanto no gregoriano foram bissextos somente 1600 e 2000. Atualmente, o calendário juliano tem uma diferença de 13 dias entre a data do calendário gregoriano; assim, por exemplo, na Rússia, o Ano Novo é celebrado no dia 13 de janeiro de nosso calendário.


Tal correção permitiu estabelecer para o ano gregoriano uma duração média de 365,242 dias; o excedente seria de apenas 0,0003 dias, ou seja, de 1,13 dia em 4 mil anos. Segundo as regras deste cômputo eclesiástico, cujas tabelas foram estabelecidas pelos conselheiros do Papa Gregório 13, a Páscoa pode ser celebrada em 35 datas diferentes, entre os dias 21 de março e 26 de abril, nunca antes ou depois disto. As determinações da Páscoa passaram desde então a ser baseadas no movimento médio de uma Lua fictícia, e não no movimento verdadeiro do nosso satélite natural. Assim, os cálculos astronômicos, com base no movimento verdadeiro da Lua, deixam em evidência que o cômputo gregoriano pode fazer a lua cheia média cair um dia, ou, às vezes, antes ou depois da lua cheia verdadeira.

Em 1987, a lua cheia verdadeira caiu no dia 13 de abril, segunda-feira, e a lua cheia pascal, no dia 19 de abril, domingo de Páscoa. Vale salientar que o dia 14 de abril foi a Páscoa dos judeus, o Pêssach. Essa festa judaica foi instituída em memória da passagem pelo Mar Vermelho a pé enxuto, quando o povo de Israel se libertou da servidão egípcia, fato que constitui os primeiros passos para o surgimento da nacionalidade judaica. Tal festa se celebra no dia 15 do mês de Nisã, que satisfaz as condições de ser o dia da primeira lua cheia da primavera. A não-exigência de ser um domingo o dia da Páscoa, como ocorre com o calendário cristão, faz com que, no calendário lunissolar israelita, a Páscoa ocorra sempre no plenilúnio (lua cheia).



Já a Páscoa cristã visa respeitar um fato histórico: a morte de Cristo, que segue o Pêssach judaico que se celebra sempre na lua cheia e inicia-se, segundo as Leis de Moisés, pela imolação do cordeiro. A primeira Páscoa cristã, no curso da qual Jesus constituiu a Eucaristia, ocorreu na noite de quinta-feira, que precedeu a sexta-feira, em 14 Nisã, enquando a ressurreição se efetuou três dias mais tarde, no calendário da época, em 17 Nisã. Se partirmos dos dois princípios – o primeiro, que a ceia se realizou numa quinta-feira; o segundo, que os cronologistas acreditam que a morte de Jesus se deu no ano 29 ou 33 da nossa era, é fácil deduzir que foi no ano 33 que ocorreu a ceia, pois o dia 14 Nisã do calendário israelita corresponde à noite de 02 de abril, quinta-feira, do calendário juliano. No ano 29 da nossa era, o dia 14 Nisã corresponde ao dia 17 de abril, que foi um domingo. Assim, verificou-se que o verdadeiro dia da ressurreição ocorreu no domingo, dia 25 de abril, que seria o verdadeiro dia de Páscoa – caso fosse uma data fixa.

Apesar disso, convencionou-se comemorar o aniversário da ressurreição na Páscoa, quando a própria natureza contribui, para que esta seja a mais bela de todas as festas religiosas pois é celebrada próximo à primavera, no Hemisfério Norte, durante a lua cheia. Com efeito, o Sol, ao passar no equinócio, distribui por igual os seus raios por todo o planeta; a Lua, por estar no plenilúnio, não deixa de iluminar com os seus raios que à noite celebram a Páscoa; e a Terra, por estar entrando na primavera, faz com que os campos comecem a florir e as aves retornem com seus cantos.

Por ser tão belo este período, já na época pré-mosaica os pastores nômades o adotavam para realizar suas principais festas.


Texto adaptado de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão em “O livro de ouro do universo”, da Ed. Moderna.