sábado, 10 de agosto de 2013

Eclipse da Paixão de Cristo: fato, farsa ou simplesmente fé?!

Embora o astrônomo inglês Roberdeau Buchanan, em “The mathematical theory of eclipses” (1904), tenha utilizado a sua experiência como calculador de eclipses do “Nautical almanac” durante 23 anos para afirmar que o escurecimento na crucificação de Cristo não foi causado por um eclipse total do Sol, a questão tem sido periodicamente discutida no meio astronômico e religioso. Para Buchanan a hipótese de eclipse do Sol foi um argumento usado “por alguns ateus e outros que negam o escurecimento miraculoso da crucificação”. A afirmativa do estudioso, de que um eclipse do Sol não pode ter sido a causa deste escurecimento está totalmente correta. De fato, os meses judeus são lunares, e começavam sempre pela lua nova. Ora, a crucificação ocorreu em 14 de Nissã (calendário judaico), ou seja, quatorze dias depois da lua nova, quando já era lua cheia. Por outro lado, sabemos que o sacrifício de Jesus se deu durante o Pêssach (Páscoa), que sempre ocorre nas luas cheias. Assim, como os eclipses do Sol só acontecem na lua nova, o escurecimento da crucificação não poderia ter sido causado por um eclipse solar.


Entretanto, Buchnan esqueceu que nesse período é bem possível a ocorrência de eclipses lunares, que só podem ocorrer justamente na lua cheia. Como sugeriram vários outros cientistas ao longo da história, a ideia de um eclipse da Lua tem a seu favor as referências na própria Bíblia de que a Lua se apresentou “coberta de sangue”. No Novo Testamento, segundo relato de Pilatos, “o Sol escureceu; as estrelas apareceram e todo mundo acendeu as suas lanternas das seis horas até o crepúsculo, quando a Lua pareceu como da cor de sangue”. A causa pela qual uma Lua eclipsada é vermelha como sangue é muito conhecida. Assim, quando a Lua se encontra no interior do cone de sombra da Terra, a luz solar que nos alcança já refratada pela atmosfera terrestre é avermelhada por ter atravessado uma trajetória muito longa das camadas gasosas da atmosfera onde a dispersão preferencialmente propaga os raios azuis deixando passar os vermelhos.


Na realidade, os eclipses estiveram sempre envoltos numa atmosfera tipicamente mística capaz de lançar maior mistério, valorizar os acontecimentos históricos e endeusar os governantes. Os eclipses eram vistos como sinais dos deuses como bom, ou mau, agouro; uma espécie de anúncio dos céus aos humanos. Antes de uma análise do que poderia ter ocorrido no dia da morte de Cristo, seria conveniente uma consulta aos diversos relatos da época, como fonte primordial a própria Bíblia.

Desde a hora sexta até a hora nona se difundiram trevas sob toda a Terra”, relata o Evangelho de São Mateus (27:45-52). Tal ideia de um escurecimento no dia da crucificação de Jesus está registrada nos Evangelhos de São Marcos (15:33-38) e São Lucas (23:44-46). Este último relata: “Era então quase a hora sexta, e toda a Terra ficou coberta de trevas até a nona hora. Escureceu-se também o Sol; e rasgou-se pelo meio o véu do templo”. Para alguns autores, esta afirmativa de que o Sol teria se escurecido sugere a ocorrência de um eclipse do Sol. Os defensores da ideia do eclipse solar citam os relatos de Joel (2:30-31): “E darei a ver prodígios no céu e na Terra. Prodígio de sangue e de fogo e de vapor e de fumo. O Sol converter-se-á em trevas e a Lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”. Do ponto de vista astronômico, o único fenômeno que permitiria ao Sol desaparecer, durante o dia, seria um eclipse solar total. Por outro lado, a ideia de uma Lua com a cor de sangue supõe a ocorrência de um eclipse da Lua, quando o disco da Lua, pode, às vezes, aparecer tão avermelhado como se estivesse ensanguentado, para usar a imagem bíblica. Para confirmar esta ideia de dois eclipses, um do Sol e outro da Lua, existe o relato do Livro dos Atos dos Apóstolos (2:20): “O Sol se converterá em trevas e a Lua em sangue até que venha o grande dia do Senhor”.


Todas as passagens dos Evangelhos permitem diversas interpretações, sem que o enigma do escurecimento seja definitivamente solucionado. Convém, no entanto, antes de analisar as soluções possíveis, descrever o sistema de contagem das horas na época.

A contagem das horas do dia na época de Jesus...
Na Palestina, não há evidência de que o dia fosse dividido em horas. Existem indícios de que tal divisão já era conhecida nos fins do século 8 a.C. O dia e a noite eram divididos, respectivamente, em doze partes iguais (herança babilônica). Todavia, como não se dispunha de um meio para marcar as doze horas do dia, adotava-se em geral a divisão do dia em quatro partes, denominadas pela hora inicial de cada uma. Assim, prima (ia das 6h às 9h), hora terceira (das 9h às 12h), hora sexta (das 12h às 15h) e hora nona (das 15h às 18h). Do mesmo modo, a noite era divida em quatro partes, denominadas “vigília”: a primeira vigília começava às 18h, a segunda às 21h, a terceira à meia-noite e a quarta às três da madrugada.

Após essa explicação sobre o uso das horas entre os antigos, poderemos compreender que o escurecimento ocorrido na Sexta-feira da Paixão, desde a hora sexta até a hora nona, corresponde de fato ao período que vai das 12h às 18h, ou seja, todo o período da tarde até o anoitecer da primavera no hemisfério norte. Em todos os relatos subsiste uma impossibilidade: a duração do escurecimento. Por outro lado, convém lembrar que, dos quatro relatos dos Evangelhos, o mais seguro e talvez fiel, o de São João, testemunha ocular da pena de morte imputada a Jesus, não se refere a essas trevas.


Durante toda a vida ativa de Jesus, compreendida provavelmente entre 29 e 33 d.C., ocorreu um só eclipse total do Sol que durou da sexta à nona hora, como aliás acontece a cada duzentos anos numa mesma região. Trata-se do eclipse ocorrido em 24 de novembro do ano de 29 do calendário juliano. Tal fenômeno impressionou fortemente os seus assistentes, provocando terror, como todos os eclipses no período da Antiguidade. Assim o descreve o sábio bizantino Fócio, no século 9: “Foi um grande eclipse do Sol, como não se havia visto nos anos precedentes: as trevas foram tão espessas à sexta hora que foi até mesmo possível ver as estrelas”. Além deste eclipse solar, foram visíveis no período de 26 a 33 d.C. oito eclipses da Lua em Jerusalém.

Para montar esses quadros, os astrônomos usam modernos programas de computador que remodelam e montam o céu em qualquer parte do planeta, em qualquer período da história. Por conta disso, atualmente, é possível debatermos este assunto do post de hoje.


Voltando ao assunto...
O eclipse da Lua no dia da crucificação – provavelmente em 03 de abril de 33 d.C. – começou às 15h16, quando a Lua ainda se encontrava abaixo do horizonte em Jerusalém, de acordo com os modelos astronômicos feitos hoje. O meio do eclipse, quando o disco lunar estava 59% eclipsado, ainda era invisível no Calvário. A Lua rosada nasceu com 20% do seu disco eclipsado às 16h12. Mais tarde, 34 minutos depois, o eclipse terminou, às 18h 46.

Na realidade, a coloração dos eclipses da Lua varia com as condições atmosféricas. Parece que os eclipses, mesmo parciais, quando ocorrem muito baixo no horizonte, provocam um avermelhamento muito sensível. A ocorrência desse eclipse deve ter provocado na população de Israel uma associação com os anteriores sinais celestes de sacrifícios em nome de Deus, como está relatando no Livro dos Atos. Este talvez tenha sido o eclipse que os historiadores associaram com o eclipse da Lua em 03 de abril de 33. De fato, no dia da Paixão, em consequência desse eclipse, a Lua nasceu oculta no Monte das Oliveiras.

Seria muito bom lembrar que os antigos gregos e romanos, como todos os povos da Antiguidade, possuíam um gosto todo especial por essa espécie de coincidência elaborada posteriormente do ocorrido. Inumeráveis são os casos desse tipo de coincidência para valorizar os eventos históricos com fenômenos, ou, como diziam, sinais celestes, como os eclipses, cometas, meteoros, estrelas novas etc.



Tudo parece sugerir que as trevas que marcaram a morte de Jesus, no relato dos Evangelhos, sejam a justaposição de dois eventos diferentes (os eclipses totais do Sol, de 24 de novembro, e da Lua, de 14 de junho de 29 d.C.), posteriormente confundidos em um único evento. Assim, o eclipse da Lua de 03 de abril de 33 provocou uma associação involuntária e inconsciente com o grande eclipse solar de 24 de novembro de 29 e o eclipse lunar total de 14 de junho de 29, o que em parte justificaria o erro tão comum entre os antigos historiadores.

O que comprova esse anacronismo de tempo e espaço de ambos os eclipses relacionados à crucificação é que no Evangelho de São João, testemunha ocular do fato, não haver nenhuma espécie de associação e relato astronômico com a condenação do Senhor. Valendo lembrar, ainda, que o Evangelho de São João foi escrito no tempo mais próximo da partida de Jesus, e os demais foram transcritos vários anos depois de oralidades entre os grupos. Mesmo assim, talvez o relato mais preciso se obtenha em Atos dos Apóstolos (2:20), no qual há a seguinte narrativa: “O Sol se converterá em trevas e a Lua em sangue até que venha o grande dia do Senhor”, numa clara referência aos eclipses anteriores. Ou seja, mesmo nas comunidades primitivas cristãs os eclipses eram vistos como anúncios divinos para acontecimentos terrenos.

Esta explicação racionalista e científica não impede, aliás favorece, os que pela sua fé acreditam em uma “treva milagrosa”, uma vez que os milagres e a fé estão acima das argumentações científicas, cartesianas, metódias e racionalistas. Entretanto, o assunto é muito interessante e mostra como podemos usar recursos científicos ultramodernos para refazermos o tempo e o espaço, como foi o caso do céu em Jerusalém neste período estudado.


* Dica de leitura: texto adaptado de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão em “O livro de ouro do universo”, da Ed. Moderna.