quinta-feira, 18 de julho de 2013

Vinland: você conhece algo sobre a colônia dos vikings no continente americano?

Vinland hoje habita mais no campo dos jogos de RPG e dos fãs da mitologia nórdica do que nos livros de história e arqueologia. Entretanto, é fundamental sabermos que este é um assunto real, que não paira no campo das especulações, das mitologias, das sagas e do impossível. Vinland foi o nome dado pelos vikings a uma parte do Canadá, sendo, portanto, os “descobridores” da América quase mil anos antes da chegada de Colombo à América Central, em 1492.

Vinland significa “terras das vinhas”, e correspondia à zona do Golfo de São Lourenço, Nova Brunswick, Nova Escócia e a Ilha de Baffin, tudo no território hoje correspondente ao Canadá. A área foi explorada por iniciativa de Leif Ericson a partir de Leifsbudir, um colonato estebelecido por volta do ano 900 d.C. na costa norte da Terra Nova (hoje no atual nordeste do Canadá). A ocupação de Leifsbudir e Vinland foi precária e durou apenas uma década, mas representou o primeiro contato da Europa com a América, muitos séculos antes das viagens de Cristóvão Colombo.

Nas imagens que veremos abaixo, são reproduções no Canadá de como eram as casas destes colonizadores nórdicos. São interessantíssimas!


Abaixo, o mapa-múndi feito pelos vikings exploradores. No canto superior esquerdo é possível vermos o mapa da Groenlândia e uma ponta do território atual do Canadá, onde se localizava tal colônia.


As primeiras explorações dos territórios...
Os vikings formaram uma série de grupos familiares (clãs) e nunca um Estado formal, como os gregos e os romanos. Singraram os mares chegando até a Turquia e a Ucrânia, e por onde passavam deixavam o terror e a destruição para trás porque saqueavam os bens de vilas e cidades. Através desta curiosidade em ir sempre mais além, saíram de territórios onde hoje estão a Noruega, a Suécia e a Dinamarca e atingiram as ilhas britânicas, a Irlanda, a Espanha, colonizaram a Islândia e estabeleceram os primeiros assentamentos na Groenlândia (atual possessão dinamarquesa).

A criação de Vinland foi efetuada pelos vikings que já se encontravam estabelecidos na Groenlândia, e motivada pela escassez de recursos na região; isso fez os homens escandinavos a irem para o mar mais uma vez na busca de terras mais prósperas. As colônias eram, em certa medida, apropriadas à ocupação humana, mas apresentavam desvantagens como o clima frio, escassez de madeira como material de combustão, de construção de casas e embarcações ou a falta de fontes acessíveis de ferro. Para suprir estas carências, Leif Ericson, filho de Eric, o Vermelho, fundador da Gronelândia, tomou a iniciativa de explorar as áreas circundantes.


As primeiras viagens revelaram descobertas promissoras em um continente de clima relativamente mais ameno e repleto de recursos essenciais à sobrevivência, o que animou os vikings. Para além de Vinland, Leif Ericson teria demarcado a fundação de outros assentamentos: Markland, Straumfjord e Helluland, relatadas nas sagas como “locais ideais” para a criação de rebanhos, todas situadas na costa nordeste canadense.

No entanto, a costa leste do Canadá situa-se a mais de mil milhas marítimas da Groenlândia, o que representava pelo menos três semanas de viagem de barco com a tecnologia daquela época. Por isso, os vikings só poderiam viajar no verão – este sinal aparece na saga, pois o narrador nos lembra de que havia “locais ideais” para criar rebanhos, ou seja, encontrou pastos verdejantes e clima mais quente, uma vez que durante o inverno esta também é uma área tão inóspita quanto a Groenlândia e a Islândia. Encontrar tanto pasto e uma temperatura média de 19°C e sol brilhante para um povo acostumado a um verão cinzento com 14°C de temperatura era um verdadeiro paraíso!

Mais sobre este “paraíso” viking em território “estranho” e as descobertas históricas...
A única fonte histórica que menciona a colônia de Vinland são as sagas nórdicas. O local era descrito como uma pequena aldeia destinada a servir como quartel-general às expedições que continuavam a decorrer o litoral no verão. À falta de fontes independentes e de vestígios vikings na América do Norte, os historiadores mantiveram-se céticos quanto a estas narrativas, classificadas por alguns acadêmicos como “fantasias descabidas”.

Os historiadores e arqueólogos argumentavam que a tecnologia viking poderia até mesmo chegar ao Mar Negro, mas sempre com barcos próximos ao litoral, uma vez que poderiam afundar com ondas gigantescas do alto-mar. Desta maneira, seria impossível sair da Islândia, chegar à Groenlândia e depois, ainda, singrar parte da costa do Canadá e dos Estados Unidos.




A dúvida acabou-se em 1964, quando uma equipe de arqueólogos descobriu ruínas de arquitetura viking na área de L’Anse aux Meadows, na costa norte da Ilha de Terra Nova. O sítio era constituído por oito edifícios, dos quais três camaratas com espaço para acolher cerca de 80 pessoas, uma oficina de carpintaria e uma forja com tecnologia de extração de ferro idêntica à dos vikings. As datações por carbono 14 indicaram ainda idades em torno do ano 1000. A localização e características destas ruínas estavam, por isso, de acordo com as descritas pelos contemporâneos de Leif Ericson e confirmavam a veracidade da presença viking na América do Norte. Portanto, Vinland era verdadeira!

Uma das características mais marcantes da aldeia descoberta pelos arqueólogos era a ausência dos artefatos que normalmente acompanhavam os vikings. As escavações revelaram apenas e só a presença de 99 pregos estragados, um prego em boas condições, um pregador de bronze, uma roca, uma conta de vidro e uma agulha de tricô. Este magro espólio arqueológico foi interpretado como abandono deliberado da colônia, o que é apoiado pelas narrativas da época que contam como Leifsbudir e Vinland foram abandonadas ao fim de poucos anos de vida.


De acordo com as sagas, Vinland tinha todas as características de uma terra prometida, mas as ideias de exploração e colonização foram abandonadas, ao que tudo indica, repentinamente. Os motivos para o abandono são descritos pelos próprios relatos contemporâneos: Vinland era a morada de um povo hostil com o qual os vikings não conseguiram estabelecer relações pacíficas. O primeiro contacto dos vikings com os índios americanos é relatado em pormenor nas sagas.

O acampamento foi visitado por um grupo de nove nativos, que os vikings chamavam genericamente “skraelings” (tradução de “feiosos”), dos quais os vikings mataram oito por razões não especificadas. O nono elemento fugiu e regressou em canoas com um grupo maior e atacou os colonos. Na luta, morreram algumas pessoas de parte a parte, incluindo Thorvald, irmão de Leif Ericson. Apesar deste início pouco auspicioso, foi possível estabelecer relações comerciais com os índios, com a troca de leite e têxteis nórdicos por peles de animais locais.

A paz durou algum tempo até que nova batalha começou quando um índio tentou roubar uma arma e foi morto. Os vikings conseguiram ganhar este conflito, mas o acontecimento serviu para eles perceberem que a vida em Vinland não seria fácil sem apoio militar adequado ao qual não tinham acesso, estando “longe de casa”. De acordo com as sagas, decidiram então abandonar a aldeia e o sonho de colonizar Vinland. Apesar do abandono, os vikings continuaram a visitar a América do Norte regularmente, em particular a região de Markland. Estas viagens não se destinavam à exploração ou a um eventual estabelecimento, mas sim à recolha de madeira e ferro, recursos que continuavam a escassear na Gronelândia. A última referência a uma viagem a Markland data de 1347.


De um modo geral, atualmente, a historiografia reconhece que os vikings foram os verdadeiros “descobridores” do continente americano, sendo os primeiros europeus a estabelecerem contato com nativos norte-americanos, mantendo relações comerciais, de guerra e de paz. Vinland foi um pequeno paraíso terrestre daquilo tudo que os vikings ansiavam, mas não conseguiram objetivo por conta dos nativos já donos da terra. Abandonaram Vinland e outros assentamentos e deixaram de lado a América para que os espanhóis e portugueses, séculos mais tarde, pudessem explorar, conquistar, sugar e destruiur as populações locais e os recursos naturais, principalmente o ouro e a prata.