terça-feira, 4 de junho de 2013

Teorias de conspiração sobre a tragédia da Região Serrana do Rio, em janeiro de 2011: fatos ou farsas?

Na madrugada do dia 11 para o dia 12 de janeiro de 2011, uma chuva torrencial, muito além do comum, ceifou a vida de mais de mil pessoas em sete cidades da Região Serrana do Rio de Janeiro: Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo, Bom Jardim, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto. Uma chuva de mais de 500 milímetros em oito horas, o equivalente a várias semanas em tão poucas horas.




Na época, vários e-mails circularam pelas caixas eletrônicas de milhares de pessoas alertando para o que chamavam de “atuação desesperada de governantes”, a fim de diminuírem os números totais de mortos para evitar que a ONU (Organização das Nações Unidas) enviasse ajuda internacional e, com isso, descobrir possíveis fraudes e falcatruas políticas – tais como desvio de verbas.

Ok, atualmente percebemos que em todas as cidades afetadas pela maior tragédia climática da história brasileira há uma série de problemas envolvendo políticos: desvio de verbas, o não repasse de dinheiro público, prefeitos afastados dos cargos, insatisfação eleitoral, falta de fiscalização no repasse do aluguel social concedido pela União e pelo Governo do Rio.

O autor deste blog que está escrevendo vive na cidade de Teresópolis, a que consequentemente teve maior reflexo dessa tragédia sem precedentes: enorme número de mortos, maior número de desaparecidos, instabilidade política (chegando a ter três prefeitos em 72 horas, inclusive com a morte de um que acabara de ser empossado com o afastamento de outro). Ou seja, quem escreve este post não só conhece bem o problema, como o viveu intensamente, perdendo quatro pessoas próximas nessa chuva.




Olhando de perto o que disseram nas teorias conspiratórias, e analisando tais fatos...
1. Em um email, alertava-se para o fato de a tragédia ter tido um número extremamente superior àquele divulgado pelas autoridades. Os governos fizeram isso para evitar que a Onu interviesse nos lugares, evitando que descobrissem possíveis “falcatruas” na gestão de recursos e na distribuição de donativos;
>> De acordo com os protocolos internacionais, a Organização das Nações Unidas só atua em missões e paz e missões humanitárias em tragédias de proporções gigantescas (como o terremoto do Haiti e o tsunami que devastou o Sudeste Asiático), ou quando os governos nacionais não contam com estrutura para lidar com determinada tragédia, o que não foi o caso do Brasil e nem tem sido. As pessoas tendem a maximizar o problema que é local; se fosse para a Onu intervir, não seria através de pedidos de prefeituras, mas sim do Governo Federal.

2. Tal email que continha o alerta feito no tópico 1 dizia que a fonte era um sargento do exército que não queria se identificar. Em outro email, com mesmo conteúdo, dizia ser a fonte um tenente do corpo de bombeiros que também queria manter sua identidade em segredo;
>> Como sempre, podemos perceber que há um desencontro de fontes. Todo email que contém boataria tem fontes duvidosas: alguém que não quer se identificar, uma testemunha que sumiu, uma pessoa que contou para outra, e assim por diante. Tudo acontece sem um sujeito definino: “alguém viu”, “alguém contou”, ou então para sustentar tal teoria demanda utilizar-se de fontes poderosas, como neste caso pessoas do exército e/ou do corpo de bombeiros.

3. Pessoas dizem que são mais de dez mil mortos na tragédia, número muito superior ao de pouco mais de mil divulgados pelos governos municipais e estadual, e tomam por base uma matéria do jornal “Extra” abordando o assunto, publicada quase dois anos após a tragédia;
>> O referido jornal fez a matéria afirmando que o número de mortos na maior tragédia climática do Brasil poderia ser superior àquele dito ser oficial, mas não chegou a citar números como algumas pessoas alarmistas costumam dizer, sendo mais de dez mil. As reclamações de desaparecidos não chega a 200 pessoas, e os próprios vizinhos sobreviventes poderiam indicar que esse número poderia ser bem maior. “Sinto falta de fulano e beltrano, e eles não constam nas listas de desaparecidos nem de mortos identificados”, por exemplo, seria um caso, o que raramente ocorre a ponto de chegar à cifra assustadora dos supostos dez mil mortos.

4. Pessoas de Teresópolis afirmam que mais de seis mil pessoas teriam morrido no bairro Campo Grande, o mais atingido e destruído da cidade, registando, oficialmente, mais de 90 mortos;
>> Este assunto repercute, ainda, em relação ao anterior. O bairro do Campo Grande foi o mais devastado pela tragédia no município de Teresópolis; oficialmente foram mais de 90 mortos identificados, além de outros tantos que não foram encontrados – chamados assim de “enterro natural”. Hoje em dia há quase totalmente um território fantasma e abandonado. Segundo a conspiração do email, o bairro teria mais de oito mil moradores e cerca de quatro mil teriam morrido; entretanto, de acordo com os dados do Censo 2007 do IBGE, Campo Grande tinha, à época, cerca de 2 mil habitantes.

5. Um dos emails conspiratórios afirmava que o exército chegou a matar acidentalmente possíveis sobreviventes dos soterramentos, e que esses casos foram escondidos, portanto não foram contabilizados nas estatísticas oficiais dos governos.
>> Não há nenhum relato de que ninguém tenha feito isso, até porque se tivesse ocorrido, os familiares continuariam reclamando seus mortos desaparecidos. É mais uma teoria conspiratória que assusta em vez de informar e explicar, que tumultua, principalmente na época dos ocorridos, em janeiro de 2011, quando as pessoas das cidades atingidas estavam atônitas.




O que mais foi dito sobre a tragédia serrana...
1. Além destes factoides ditos por dois emails espalhados pelas caixas postais das pessoas nos tempos da tragédia, houve pessoas que misturaram assunto sério (mortes, tragédia natural) com pseudociência (ufologia, teoria conspiratória). Houve quem dissesse que dias antes do temporal foram observadas estranhas naves sobrevoando as áreas que mais tarde seriam as mais atingidas (mas não há nenhum registro fílmico ou fotográfico disso).

2. Alguns religiosos mais radicais chegaram a afirmar que as cidades passaram por esse estado climático absurdo por conta de um suposto “castigo divino” graças à “promiscuidade da população”. O mais estranho é que tais radicais religiosos que disseram isso são cristãos, portanto deveriam pregar o amor de Deus e sua piedade e misericórdia, ao contrário do Deus vingativo apresentado no Velho Testamento e apresentado por eles como motivo para esta tragédia que ceifou a vida de tantos inocentes.

3. Outras pessoas chegaram a afirmar que foram encontrados corpos de alienígenas entre os mortos, mas foram recolhidos pelo exército e carregados para um lugar não divulgado. O mais estranho é que não há registros imagéticos disso, uma vez que a capacidade de ajuda da população foi enorme na época e muitas pessoas auxiliaram no resgate dos corpos nas áreas atingidas, e ninguém registrou algo tão bizarro como isso dito.




Podemos dizer, mais uma vez, que boatos sem fundamento algum e espalhados para causar sensacionalismo não ajudam, mas somente atrapalham e acabam brincando com assuntos extremamente sérios. A tragédia serrana ceifou centenas de vidas de várias classes sociais e deixou traumatizadas milhares de famílias em sete cidades fluminenses. No afã de espalhar politicagem e boatarias criaram factoides sem o menor nexo, misturando ciência, teologia, ufologia, meteorologia, ciência política etc.

É importante que o leitor reflita muito quando receber este tipo de mensagem sensacionalista, principalmente quando o conteúdo apresentado contém o que sempre se apresenta em boatos: “alguém disse”, “uma pessoa não quis se identificar” etc.