sábado, 22 de junho de 2013

Considerações sobre os wiccas, as “bruxas” contemporâneas: fatos e farsas...

Nos últimos tempos temos ouvido falar muito em wiccas, principalmente por conta de adolescentes com pouca informação, descobrem a filosofia na internet e pensam estar seguindo corretamente seus preceitos neopagãos. Mas você realmente conhece a história, os credos e pensamentos filosóficos desta nova religião que tem ganhado cada vez mais adeptos? Muitos chamam os adeptos da filosofia wicca de “bruxos” e “feiticeiros”. Será verdade? É o que vamos explicar através de tópicos no post de hoje... Então vamos lá!


1. Wicca é uma religião neopagã influenciada por crenças pré-cristãs e práticas folclóricas da Europa Ocidental que afirma a existência do poder da magia e celebra algumas datas especiais ao longo do ano, como qualquer outra religião;

2. A religião wicca também é conhecida como “witchcraft”, o que seria “bruxaria”, portanto seus seguidores também podem ser chamados de bruxos contemporâneos. Suas origens contestadas residem na Inglaterra no início do século 20, mas foi popularizada nos anos 50 por Gerald Gardner, que na época chamava a religião de “culto às bruxas”;

3. A wicca é uma religião politeísta, de culto basicamente dualista, que crê tradicionalmente na Mãe Tríplice e no Deus Cornífero, ou religião matriarcal de adoração à Deusa Mãe. Estas duas deidades são muitas vezes vistas como faces de uma divindade panteísta maior, ou que se manifestam como várias divindades politeístas;

4. A wicca também envolve a prática ritual da magia, em grande parte influenciada pela magia cerimonial do passado, muitas vezes em conjunto com um código de moralidade liberal conhecida como a “wiccan rede”, embora não seja uma regra;

5. Embora algumas tradições adorem o deus celta Cernunnos, símbolo da virilidade, e por vezes a religião seja confundida com o satanismo, os wiccanos não creem em Lúcifer ou em Satã, entidade presente no culto judaico-islâmico-cristão;

6. A religião wicca tem como prosposta original resgatar os cultos pré-cristãos da Inglaterra antes da conversão ao cristianismo, nos tempos medievais. Por isso, os cultos têm base na religião celta e outras práticas rurais e/ou folclóricas daquele período. Com o tempo, outras práticas pré-cristãs da Europa foram sendo agregadas aos cultos;

7. Mesmo sendo uma religião fundamentada no século 20, acredita-se que muitas pessoas foram mortas durante a Inquisição na Europa não por serem satanistas, mas sim por ainda praticarem naquela época a religião pagã dos tempos pré-cristãos, sendo os mesmos cerimoniais que os wiccas praticam hoje;


8. A religião wicca pôde ser mais aberta a partir dos anos 50 quando o Reino Unido revovou a Lei de Feitiçaria, de 1735, que proibia o culto pagão em seu território, sendo que quem praticasse seria preso por alguns anos, ou deportado para alguma colônia ultramar (geralmente a Austrália);

9. Curiosamente, os primeiros propagadores e filósofos da religião wicca, nos anos 30, 40 e 50 eram membros da maçonaria britânica. Entretanto, vale ressaltar que a própria maçonaria é uma entidade filantrópica e social que é monoteísta, acreditando em Javé, o Deus único dos cultos judaico-cristãos;

10. Na década de 1970, a wicca se espalhou rapidamente pelo mundo e a filosofia original perdeu muito do seu próprio controle, principalmente quando passaram a misturar a prática britânica com folclores regionais. nos anos 90, os wiccas foram associados a jovens rebeldes e ao movimento gótico, sendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra;

11. A religião wicca chegou ao Brasil no final dos anos 80, e a cada dia ganha mais adeptos. Vários livros têm sido lançados e traduzidos no país, e o Brasil é visto atualmente como uma das comunidades mais importantes e ativas no mundo;

12. Curiosamente, nos anos 90, a popularização dos wiccas foi tão grande que Hollywood tratou de ganhar dinheiro com isso lançando filmes, seriados e desenhos animados, geralmente voltados para o público adolescente, muitas vezes com tom infantilizado: “Jovens bruxas”, “Sabrina: aprendiz de feiticeira” e “Charmed” são alguns dos exemplos que destacamos. Essa banalização e divulgação de conceitos errados desta filosofia fez com que muitas comunidades wiccas reclamassem e protestassem contra tais seriados e filmes;

13. O termo “wicca” foi criado nos anos 60, na Inglaterra, a partir de “wiccian”, do inglês medieval, que significava “feiticeiros (do sexo masculino)”;

14. Não é sabido oficialmente o número de wiccanos no mundo inteiro e constatou-se que é mais difícil estabelecer o número de membros de religiões neo-pagãs do que de qualquer outra religião devido à sua estrutura familiar ou clãns. O site independente “Adherents.com”, no entanto, que se dedica a informar demografias religiosas pelo mundo cita mais de trinta fontes com as estimativas do número de wiccas. A partir daí, eles desenvolveram uma estimativa média de 800 mil adeptos. De maneira curiosa, 1.434 pilotos da Força Aérea dos Estados Unidos se identificam como wiccas, tornando-a a maior religião não-cristã dentro dessa comunidade;


15. No Brasil, de acordo com o gráfico mostrado pelo mesmo site, até o ano de 2000, havia cerca de 10 mil a 50 mil wiccas, embora não haja uma diversificação entre a wicca e as outras tradições neopagãs. Outro site americano aponta que no nosso país haja entre 250 mil e 300 mil seguidores da wicca, mas são estimativas pouco confiáveis;

16. A tradição wicca prega que o deus Cornífero é associado à morte, caça e magia, um deus que reina sobre um paraíso pós-mundo (às vezes referido como Summerland), enquanto que a deusa Mãe (simultaneamente a Virgem Eterna e a Feiticeira Primordial) é associada ao amor pela vida e à regeneração e ao renascimento das almas dos mortos;

17. Erroneamente, o deus Cornífero é representado pelos cristãos como sendo a representação de Satanás: um homem com as pernas de bode. Entretanto, sabemos que esta é a figura do deus Pã, que o cristianismo demonizou transformando-o como a figura do diabo. Na Bíblia não há referências sobre a real figura de Satã, apenas dizendo que ele é um “anjo”, portanto um homem alado. Na wicca, o deus Cornífero é representado como sendo o Sol;

18. A deusa Mãe é geralmente retratada como uma deusa tríplice, sendo assim uma divindade triádica composta de uma deusa virgem, uma deusa mãe e uma deusa anciã, cada um dos quais tem associações diferentes, ou seja, a virgindade, a fertilidade e a sabedoria. Ela também é comumente descrita como uma deusa representando a Lua;

19. Historicamente, o culto destes dois deuses ocorria nas ilhas britânicas há muitos séculos, antes do cristianismo ser levado e propagado por lá. Na Idade Média, por exemplo, muitas vilas ainda dedicavam seus altares nas florestas e campos ao culto do deus Cornífero e da deusa Mãe;

20. Alguns antropólogos e sociólogos apontam que, atualmente, a religião wicca tem se tornado cada vez mais politeísta à medida que se mistura com folclores regionais (como o folclore indígena norte-americano, por exemplo, ou o panteão nórdico viking). Isso faz com que a visão teológica wicca fique um pouco diferente e sem uniformidade de país para país. Assim, a teologia wicca nos EUA pode ser um pouco diferente da teologia wicca na Inglaterra, no Brasil, na Austrália etc.

21. A religião wicca crê na reencarnação. Um ditado popular entre os crentes desta religião diz: “Uma vez bruxo, para sempre bruxo”, dizendo que somente almas humanas encarnariam em corpos humanos, mas entre os wiccas da Austrália há a crença de que uma alma humana possa reencarnar em qualquer espécie;


22. Os wiccas creem que antes da reencarnação a alma vive entre o que chamam de “Outro mundo” ou a “Terra de verão”. Entretanto, os wiccas acreditam na comunicação dos espíritos com este plano através da famosa tábua ouija, sendo uma influência contemporânea vinda do Espiritismo;

23. Apesar de alguns wiccas acreditarem na vida após a morte, este não é o principal foco desta religião. A wicca tende a se concentrar na vida atual porque se alguém faz seu melhor na vida presente, em todos os aspectos, a vida seguinte vai ser mais ou menos benéfica dentro do processo;

24. Boa parte dos wiccas creem na magia, uma força que eles veem como sendo capazes de manipulação através da prática de bruxarias. De fato, muitos wiccas concordam com a definição de magia oferecida pelos mágicos cerimoniais, que declaram que a magia é “a ciência e a arte de provocar mudança de ocorrência em conformidade com a vontade, a partir dos elementos da natureza”;

25. Os wiccas acreditam que a magia é a lei da natureza ainda incompreendida ou ignorada pela ciência contemporânea (cartesiana, analítica, metódica), e, como tal, não a veem como sendo sobrenatural, mas sendo uma parte dos superpoderes que residem na natureza;

26. Os feitiços da wicca são realizados durante as práticas rituais na tentativa de provocar mudanças reais no mundo físico. Assim, os feitiços da wicca geralmente são usados para a cura, a proteção, o banimento de influências negativas e, principalmente, a fertilidade;

27. Os pioneiros da wicca Alex Sanders, Sybil Leek e Doreen Valiente, chamavam suas práticas de “magia branca”, para separá-la da chamada “magia negra”, que é associada ao mal e ao satanismo, com uso de sacrifícios, e é usada contra um objeto, uma pessoa, um lugar;

28. Não existe nenhum dogma moral ou código ético universalmente seguido pelos wiccas de todas as tradições, no entanto a maioria segue um código conhecido como a “Wiccan Rede” que afirma: “sem ninguém prejudicar faz o que tu quiseres”. Geralmente essa frase é interpretada como uma declaração de liberdade para atuar na vida, juntamente com a necessidade de assumir a responsabilidade por aquilo que resulta de nossas ações e minimiza danos a si mesmo e aos outros. Outro elemento típico da moralidade wicca é a chamada Lei Tríplice que diz que qualquer ação malévola ou benéfica retornará ao autor três vezes mais forte, ou com igual força a nível do corpo, da mente e do espírito;


29. Em grande parte das tradições da wicca, há a crença nos quatro elementos, mas ao contrário da filosofia na Grécia Antiga, elas são vistas como simbólicas em vez de literal, ou seja, são representações das fases da matéria. Esses elementos são geralmente evocados durante os rituais mágicos e nomeados ao se consagrar um círculo mágico. Os quatro elementos são: ar, fogo, água e terra, acrescido de um quinto, o éter (ou espírito), que une todos os outros quatro elementos;

30. É interessante notar que embora existam muitos wiccas céticos quanto a existência dos deuses, vida após a morte etc., eles continuam envolvidos com bruxaria, sobretudo por conta da experiência de seus rituais, alegando que gostam de mitos, magia etc.

31. Existem muitos rituais na wicca que são usados para celebrar os Sabás, adorar as divindades ou fazer feitiçaria. Geralmente são realizados em lua cheia, ou durante a lua nova, que é conhecida como Esbat. Nos ritos típicos, o coven ou os bruxos solitários reúnem-se dentro de um círculo mágico;

32. O círculo mágico é de suma importância para a magia e é considerado um lugar de reunião, de amor, de alegria, de verdade; na wicca, é um escudo contra o mal e serve também para preservar e conter o poder mágico;

33. Em grandes círculos e celebrações, o mago pode incluir os nomes das entidades a serem evocadas, ao passo que nos círculos menores, que correspondem aos quatro pontos cardeais, muitas vezes são postas figuras da cabala e, no centro, mantras ou signos, cujo valor símbolo devem estar de acordo com a potência evocada;

34. Um aspecto sensacional da wicca e que faz parte dos elementos sexuais que são fundamentais na religião, é despir-se e fazer o ritual com todos os membros nus, prática conhecida como “skyclad”. A nudez indica o abandono da persona social;

35. Existem diversos ritos de passagem dentro da wicca. Talvez o mais significante deles seja o ritual de iniciação, através do qual alguém se junta à craft e torna-se um wicca. Gerald Gardner alegava que havia um período tradicional de um ano e um dia entre o momento em que uma pessoa começa a estudar o ofício e quando ela é iniciada;


36. O “handfasting” é uma celebração dos wiccas, e é um termo usado para os casamentos. Alguns wiccas observam a prática da união experimental por um ano e um dia. A promessa de casamento na wicca é “por quanto tempo durar o amor”, em vez da tradicional cristã “até que a morte nos separe”;

37. As crianças que são criadas por famílias wiccas, recebem o Wiccaning, que é análogo ao batizado cristão. Sua proposta é apresentar a criança ao deus e à deusa para proteção. Apesar disso, de acordo com o livre arbítrio pregado pelos wiccas, a criança não deve ser obrigada a ser adepta da religisão ou simplesmente aderir outras formas de paganismo por simples vontade dos adultos;

38. Ao contrário da Bíblia, da Torá e do Alcorão, a wicca não possui um texto sagrado, embora existam algumas escrituras e textos que várias tradições diferentes suportam como importante e influente para suas crenças e práticas. Atualmente é que já existem livros específicos falando das práticas, casamentos, cerimônias etc.

39. Hoje em dia é muito comum encontrarmos ao redor do mundo pessoas que seguem a wicca solitariamente, sem grupos que celebram nas florestas e celebram em conjunto seus festivais. Isso não impede que a pessoa faça suas bruxarias e siga a filosofia da religião. Pelo contrário, ela pode iniciar uma comunidade desde que siga os princípios básicos da bruxaria inglesa;

40. Algumas tradições utilizam o símbolo de uma mulher pisando numa serpente ou um homem derrotando um dragão, símbolo da dominação ou da vitória diante das vontades fracas, e que pode ser um símbolo análogo às imagens católicas de Nossa Senhora de Imaculada Conceição e de São Jorge. A serpente representa a ambivalência de toda manifestação e é maléfica sobre a aparência de Tífon e de Píton ou também pode representar sabedoria, como indica seu nome grego Ophis, anagrama por uma letra da sabedoria, Sophia O culto à serpente é encontrado em todas as partes do mundo e em todas as religiões e é associado à transcendência e à iluminação. A serpente é citada por Buda, pela Bíblia (serpente do Paraíso) por Jesus Cristo, pelos egípcios (deusa Ísis, Uadjit, entre ouros), gregos (Pítia), e pelos romanos;

41. O pentagrama, a estrela de cinco pontas, é um símbolo mais utilizado pelos wiccas, e praticamente obrigatório na maior parte das tradições. O pentagrama é uma indicação da vida e da inteligência, e para os wiccas simboliza ainda os quatro elementos acrescentado do espírito, no ponto mais alto do ângulo. No entanto, no satanismo, e exclusivamente nele, invertido ou com uma representação de um bode negro o pentagrama simboliza o mal. O pentagrama invertido e com o bode negro, usado no satanismo, tem levado a muitos identificarem incorretamente os wiccas como satanistas;

42. Muitas pessoas dizem que a wicca seria uma forma mais branda ou “disfarçada” de satanismo. Entretanto, vale lembrar que são duas religiões completamente diferentes e com dogmas totalmente diferentes conforme o leitor viu ao longo deste post. Futuramente faremos um post específico sobre os dogmas e crenças particulares do satanismo;

43. Os wiccas não creem em Lúcifer ou em Satã, tampouco na vinda de um deles à Terra. Devido à conotação negativa associada à bruxaria moderna, muitos wiccas mantêm suas práticas em sigilo, ocultando sua fé por medo de perseguição. Por conta disso existe a brincadeira entre wiccas de “sair do armário de vassouras”, ou seja, revelar-se socialmente que se é um bruxo;


O que podemos perceber é que a religião wicca tem ganhado inúmeros adeptos em todo mundo por conta do seu rompimento com culturas religiosas já estabelecidas, como o cristianismo, e pelo seu maior contato com a natureza e com os folclores europeus – uma vez que há um retorno às origens históricas dos povos antes das conquistas romanas e expansão do cristianismo. O que podemos perceber é que muito da tradição original wicca do início do século 20, que buscava um retorno à origem britânica, foi rompido pela expansão do credo wicca; hoje vemos muitos rituais de feitiçaria mesclados com tradições indígenas, incas, astecas, apaches, vikings etc.