sábado, 27 de abril de 2013

Revisionismo histórico: você já ouviu falar nele?

Nos últimos anos o acesso mais democrático a documentos históricos fez com que a própria história pudesse ser “reescrita” ou, então, reinterpretada. Foi desta forma que “tudo passou a ser história”, “tudo passou a ser fonte histórica”, em um movimento que começou na França do final dos anos 1920 e ganha força a cada dia – movimento este conhecido como Escola dos Annales. Atualmente, graças às digitalizações e à internet, é possível ao pesquisador ter acesso a documentos, por exemplo, do acervo histórico-nacional da França, dos Estados Unidos, do Brasil, da Argentina etc.

Graças a esta movimentação de tudo ser fonte a possibilidade de estudar e interpretar os fatos aumentou enormemente. Veja, por exemplo, que não falamos mais do “descobrimento do Brasil” ou “descobrimento da América”, mas sim em “conquista do Brasil”, “colonização da América” etc. A isso, sim, damos o nome de revisionismo histórico, um campo riquíssimo de possibilidades, mas também um chão bastante pantanoso que pode cair em armadilhas por conta dos boatos e teorias conspiratórias!


Assim, revisionismo histórico é o estudo e a reinterpretação da própria história, baseado na ambiguidade dos fatos históricos e dos documentos analisados, além da imparcialidade com que esses fatos podem não ter sido descritos, uma vez que é sabido que proceder à imparcialidade é um processo bastante árduo para qualquer profissional formado dentro de qualquer concepção ideológica. Segundo o criador do Positivismo, Auguste Comte, “a história é uma disciplina fundamentalmente ambígua” e, portanto, passível de várias interpretações.

Embora seja de interesse acadêmico, uma espécie de “censura” ainda impede e/ou limita a pesquisa de revisão histórica porque envolve importantes interesses políticos, econômicos e sociais; como, por exemplo, a reescrita da história recente no Brasil, na Argentina e no Uruguai com relação às suas ditaduras militares e a associação dos governos dos Estados Unidos nestes procedimentos. A abertura dos arquivos secretos norte-americanos pelo movimento WikiLeaks foi de tremenda importância neste processo de revisionismo da história, quando descobrimos os bastidores políticos dos grandes atores da gerência mundial.


Desse modo, criou-se uma doutrina em torno do assunto que torna impraticável o bom uso dessa disciplina, e apenas alguns poucos países como a França consideram o revisionismo histórico um estudo importante, por entenderem que os alicerces da história não podem apoiar-se sobre fundamentos, às vezes sem nexo, preenchidos com fatos mitológicos e a com a imaginação daqueles que descrevem a história. Devido a isso, o uso do revisionismo histórico dentro das universidades ficou restrito apenas à reinterpretação de trechos históricos previamente censurados, ou “se houvesse” surgimento de novos dados ou novas análises mais precisas, que viabilizem o cruzamento de dados já conhecidos, mas que não foram considerados.

Em pesquisas independendentes, porém, seu campo é mais amplo e não existem restrições e barreiras políticas. No entanto, quando os resultados dessas investigações independentes vêm ao conhecimento público, sofrem as mais diversas críticas dos historiadores, e algumas vezes são considerados crime de espionagem ou práticas pseudocientíficas e, portanto, ilegais, mesmo que a investigação seja fruto de contraespionagem retirada de fatos constantes em arquivos censurados em época anteriores. Isso é muito comum em investigações de fatos que ocorreram durante ditaduras militares em países como o Brasil e a Argentina.

Tentar reescrever a história é um processo bastante complexo porque a sociedade está acostumada ao comodismo daquilo que imagina já conhecer. Romper com um conhecimento tão antigo é muito complicado e, por vezes, escandaloso. É como a figura heroica de Dom Pedro I no dia 07 de setembro de 1822, quando proclamou a independência do país; na realidade, tal proclamação não foi nada heroica enquando o imperador sofria graves problemas intestinais. Destaque para esse revisionismo histórico justamente no trabalho do jornalista Laurentino Gomes em seus livros “1808” e “1822”.


Os problemas que envolvem o revisionismo histórico...
Em alguns casos é utilizada a expressão “negacionismo histórico” para se referir ao revisionismo histórico, quando este é utilizado para indicar a rejeição de evidências maciças e a geração de controvérsia a partir de tentativas de negar que um consenso exista. O negacionismo histórico é totalmente diferente do revisionismo histórico; como acontece com o caso de alguns historiadores neonazistas que insistem em negar o Holocausto e a morte de mais de seis milhões de judeus em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

O problema relacionado ao revisionismo histórico esbarra justamente nestes grupos de contrainformação que não tentam revisitar o passado e estudar as novas evidências, mas sim intoxicar a informação a fim de tentar criar novos fatos a partir de farsas históricas: negação do Holocausto, diminuição da mortandade de índios durante a conquista das Américas, negar as torturas nos períodos de ditaduras sul-americanas etc.