quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Você sabe o que é realmente uma lenda urbana?

Sempre que falamos em discos voadores, seringas infectadas com Aids em poltronas de cinema ou quando nos lembrados da loira do banheiro, estamos falando de uma lenda urbana. Mas de tanto falarmos, perdemos referências e há banalizações. Afinal de contas você sabe o que é genuinamente uma lenda urbana?

De acordo com os maiores folcloristas e pesquisadores de mitos, uma lenda urbana é uma pequena história com caráter fabuloso (como a história da loira do banheiro) ou extremamente sensacionalista (como as agulhas infectadas no cinema, ou do rapaz que acordou numa banheira de gelo sem os rins). Essas histórias têm divulgação rápida e são difundidas oralmente ou por emails falsos que ganham status de verdadeiros. São narrados como fatos acontecidos com um “amigo de um amigo de um amigo”, ou de conhecimento público ocorrido em um lugar muito distante.


Algumas lendas urbanas contêm um caráter educativo, bem como o mito propriamente. Mas, no geral, são constituídos de narrativas assustadoras que não acrescentam nada a não ser pavor nas crianças. Muitas delas já são bastante antigas, tendo sofrido apenas pequenas alterações ao longo dos anos. Muitas foram mesmo traduzidas e incorporadas a outras culturas (como o caso do homem que acorda na banheira de gelo; esta lenda está presente em pelo menos oito países).

Muitas das lendas urbanas são, em sua origem, baseadas em fatos um pouco reais (ou preocupações legítimas da época), mas geralmente acabam distorcidas ao longo do tempo. Com o advento da internet, muitas lendas passaram a ecoar de maneira tão intensa que se tornaram praticamente universais, como é o caso do “som do inferno”, que ganhou o mundo e eu analisei recentemente.


Quais são as origens de uma lenda urbana?
O termo “lenda urbana” aparece oficialmente, em termos acadêmicos, pela primeira vez em 1968, quando o professor Jan Brunvand, da Universidade de Utah, introduziu a expressão através de um livro publicado. Na sua publicação “The vanishing hitchhiker: American urban legends and their meanings” ele enfatiza dois pontos importantes: as lendas e mitos folclóricos podem ocorrer em qualquer sociedade e não somente nas chamadas “primitivas” e “tradicionais” e que pode-se aprender bastante sobre as culturas contemporâneas estudando tais lendas.

Para Brunvand, por exemplo, a lenda urbana da seringa contaminada mostra a preocupação com um novo desconhecido da época: o HIV e a transmissão de Aids. Na época as pessoas acreditavam ser uma doença mortal transmitida por gays e prostitutas, que por estarem contaminados e condenados à morte, gostaria de contaminar o maior número possível de pessoas através deste mecanismo, hoje considerado pura lenda.

Assim como o mito e o folclore, o professor explica que ninguém sabe ao certo como ele nasce e quem o cria. Ele simplesmente aparece na sociedade e se propaga através de “vetores” – que são os meios que ele chama para que a lenda seja compartilhada socialmente.

Entretanto, ele aponta que em alguns casos há fatores bastante reais; nos anos de 1950, um ônibus escolar colidiu com um trem no Estado de Ohio, nos Estados Unidos, e nos anos de 1980 espalhou-se uma lenda nacional do ônibus fantasma cujo acontecimento era sempre a própria cidade “em um tempo muito distante que os habitantes mais velhos não se recordariam”.


Características comuns de uma lenda urbana...
Em seu trabalho, Jan Brunvand elencou que as lendas urbanas têm características bem peculiares e em comum, sendo uma espécie de mitologia do século 20, estendendo-se pelo 21 de maneira bem cômoda graças aos emails e blogs. (1) Ela é uma forma narrativa, geralmente pequena mas bem estruturada. (2) Procura-se autenticá-la através de agentes sociais: um policial desconhecido, uma emissora de TV que gravou, mas a fita misteriosamente sumiu, um amigo de um amigo presenciou etc. (3) Ocorrem em um lugar muito distante ou em um tempo remoto. (4) As pessoas que as contam geralmente as ouviram de alguém, e quando repassam a história costumam confirmá-la como se tivessem sido vividas por elas mesmas.

Algumas (outras) lendas urbanas bem populares...
1. Uma das maiores lendas urbanas diz que é possível ver a Muralha da China a partir da Lua, a olho nu. Para tanto, seria necessário que a pessoa tivesse uma resolução ótica 17 mil vezes melhor do que a visão normal;

2. A lenda de que existe um monstro no Lago Ness, na Escócia, que sobrevivera à total extinção dos dinossauros;

3. A lenda que afirma a existência de um monstro gigantesco com formado humanoide nos Estados Unidos e Canadá (o Pé-Grande) e no Himalaia (Yeti);

4. Lendas referentes à loira do banheiro, ou ao homem do saco, ou à Maria Sangrenta, ou do homem que acorda dentro de uma banheira de gelo e sem os rins;

5. A lenda da gangue dos palhaços, que começou quando um jornal lançou uma série sobre crimes, e citou um palhaço americano que nos anos 1960 assassinava crianças. Então começou a ser passada adiante a lenda de que um palhaço de Osasco roubava órgãos em uma Kombi azul.


Conforme podemos perceber, as lendas urbanas tomaram lugar do folclore nacional. Hoje elas são narrativas internacionais graças à globalização das emissões de televisão e de internet. Ganham força como se fossem verdadeiras e raramente conseguem perder tal ímpeto nas comunidades escolares enquanto se renovam no boca a boca nos intervalos, haja vista que a loira do banheiro está reinante por aí há pelo menos 45 anos.

Com este cenários, podemos confirmar a teoria do professor Jan Brunvand: as lendas urbanas têm muito o que nos contar, revelando a história social e as práticas de diversas sociedades contemporâneas. Para isso, basta saber estudá-las com gosto.