quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Os chupa-cabras: animais misteriosos que ainda precisam ser descobertos e classificados?

O chupa-cabras talvez seja o animal mítico mais conhecido das últimas décadas. Alguns autores chegam a classificá-lo como uma “besta mitológica pós-moderna”, uma vez que estaria no patamar de outros seres lendários como as sereias, o monstro do Lago Ness, o unicórnio, entre outros tantos. Sua história é controversa e cheia de estruturas condicionais – “teriam visto”, “teriam gravado”, “teriam apreendido” –, o que dificulta uma análise mais contundente.

A suposta criatura teria sido responsável por milhares de ataques a animais em zonas rurais de diversos países do continente americano, desde o Canadá até a Argentina, com especial destaque para o sul dos Estados Unidos, México, Porto Rico, Nicarágua, Guatemala, Colômbia, Bolívia, Chile e Brasil. No restante do planeta houve poucos e isolados relatos em Portugal, na Espanha e nas Filipinas. O seu nome, chupa-cabras, deve-se à descoberta de várias cabras mortas em Porto Rico com marcas de dentadas no pescoço e o sangue totalmente drenado. Embora o assunto tenha sido explorado pela mídia mundial, os rumores sobre a existência do misterioso ser foram gradualmente desaparecendo, cessando antes da virada do milênio.


Uma estranha aparência...
As testemunhas que supostamente estiveram cara a cara com o chupa-cabras sempre têm um relato bastante firme em vários aspectos: (1) são avistamentos ocorridos entre as 19h e as 4h da manhã; (2) são animais extremamente selvagens e bípedes; (3) uma fúria bestial e força extremamente grande; (4) estrutura animalesca, entretanto um pouco humanoide; e (5) vivos olhos vermelhos.

Com tais relatos, o chupa-cabras deixou gradativamente o território da criptozoologia e adentrou para o campo da ufologia. Algumas pessoas que teriam testemunhado tais ataques diziam que os animais não pareciam com nada existente no planeta Terra e, com isso, alguns ufólogos criaram a teria de que aliens teriam desovado em partes das Américas estranhos seres interplanetários. No entanto, essa versão cai em descrédito a partir do momento que imaginamos as possíveis diferenças gravitacionais, climáticas e atmosféricas de planeta para planeta – seria como soltarmos leões em Marte, e estes logo morreriam com frio e falta de oxigênio.


Com um número absurdo de ataques em fazendas em diversos países, as polícias começaram a se preocupar e surgiram os primeiros retratos-falados de tais “monstros”, o que também implica uma série de diferenças creditadas até então em seres de filmes de ficção científica. Alguns chupa-cabras mais pareciam com lagartos gigantescos, seres anfíbios, de estrutura medonha.


Como surgiu tal história...
O primeiro ataque relatado ocorreu em março de 1995, em uma pequena localidade na ilha de Porto Rico; neste ataque, oito cabras foram encontradas mortas, cada uma com três perfurações no tórax e sem uma gota de fluidos corporais, como sangue. É digno de nota que em 1975, mortes similares aconteceram no interior do estado do Piauí e foram atribuídas a um suposto “vampiro”.

Inicialmente, as autoridades portorriquenhas suspeitaram tratar-se de alguma espécie de culto satânico, mas outras mortes começaram a ser registradas em outras fazendas pela ilha: cães, galinhas, bezerros, porcos, ovelhas etc. Cada animal teve seu sangue drenado por uma série de incisões circulares. Notou-se que, geralmente, as vítimas eram fêmeas que estavam no cio.

Assim que estes primeiros relatos ocorreram em Porto Rico, a imprensa começou a noticias curiosos e misteriosos fatos semelhantes em outras partes do continente americano, principalmente no México. O caso do chupa-cabras virou uma espécie de “brinquedo” midiático, uma verdadeira febre diária nos telejornais de todo o planeta. O auge os relatos ocorreu entre 1996 e 1998, quando, aos poucos, cessaram os acontecimentos e não se ouviu mais falar no chupa-cabras.


Analisando o caso, pelo menos uma tentativa...
Uma pesquisa recente empreendida por Benjamin Radford concluiu que a primeira descrição de um chupa-cabras, em Porto Rico, descrita pela primeira testemunha, Madalena Tolentino, foi baseada num monstro conhecido como Sil (fotos abaixo), personagem do filme de ficção “Species”. Outro detalhe é que, coincidentemente, Madalena havia assistido ao filme semanas antes de ter testemunhado o suposto chupa-cabras em sua fazenda. De acordo com Radford, isso coloca em xeque toda a estrutura da busca por uma nova espécie animal, uma vez que está associada a um fenômeno midiático de uma testemunha duvidosa.





Além disso, os relatos de sucção total de sangue pelos chupa-cabras nunca foram confirmados por necropsias sérias realizadas por instituições governamentais ou acadêmicas em qualquer parte das América, sempre ficando no patamar do “achismo” e na especulação da imprensa. Ainda de acordo com Radford, que analisou mais de 300 supostas vítimas do chupa-cabras, há algo em comum: sempre uma importante artéria é rompida e há muito sangue no local da morte; portanto, a morte pode se dar facilmente por hemorragia.

Analisando os testemunhos e relatos, Radford pode ser considerado o maior entendido no assunto. Ele dividiu os chupa-cabras em duas importantes categorias: (1) os relatos latino-americanos, onde os animais eram atacados e seu sangue supostamente sugado, além do aspecto alienígena ou reptiliano dos seres; (2) os relatos norte-americanos, onde os animais eram somente atacados, e a aparência dos tais seres era semelhante a lobos, coiotes ou cães selvagens.

Uma luz ao caso surgiu no final do ano 2010, quando o biólogo Barry O’Connor, da Universidade de Michigan, concluiu que todos os avistamentos referentes aos chupa-cabras nos Estados Unidos e em parte do México eram simplesmente coiotes infectados com o parasita Sarcoptes scabiei (uma espécie de sarna), que explicaria a estranha aparência física: queda de pelos, pele mais grossa e odor desagradável. A mesma conclusão chegou a equipe do programa “Fact or faked”, do SyFy.




O’Connor teorizou que os ataques às cabras ocorreram porque os coiotes já estão enfraquecidos pela doença, que causa febre, e por isso prefere atacar animais que correm menos, ou domesticados, como cabras, cães, ou gatos. Geralmente os coiotes vivem da caça de animais que correm muito, como a lebre ou o veado, entretanto a doença tira muita energia e em pouco tempo eles podem morrer de infestação.

Muitas testemunhas, ufólogos e criptozoólogos discordam desta teoria, dizendo que o coiote comeria a carne e não somente daria dentadas e “chuparia” o sangue das vítimas, mas essa conclusão é incorreta. Cães selvagens e coiotes podem, sim, matar a presa e não consumir a carne, ou por inexperiência na caça, ou por doença (como aponta a teoria mais aceita), ou por dificuldade em matar a presa escolhida. Assim, a presa pode sobreviver alguns minutos e morrer por hemorragia de um vaso importante, como no pescoço, onde eram comuns os ataques dos chupa-cabras. A presença de dois furos no pescoço, correspondendo com os dentes caninos, é esperada uma vez que esta é a única maneira que a maioria dos carnívoros terrestres tem para caçar.


No geral, há muitos anos não ouvimos falar em ataques de chupa-cabras, até que a imprensa invente um novo brinquedo para explorar durante um tempo. Para a maior parte dos biólogos, o mistério foi resolvido em 2010, e totalmente enterrado.