sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre o unicórnio, um animal lendário por ser tão misterioso...

Nas armas reais da Grã-Bretanha (foto abaixo), o leão e o unicórnio aparecem juntos desde que a Escócia e a Inglaterra foram unificadas. Anteriormente, o escudo inglês era composto por um leão e um dragão. O unicórnio veio do escudo escocês, cujas armas eram figuradas por dois desses animais.


Na Idade Média considerava-se extremamente arriscado juntar um unicórnio e um leão em um escudo ou bandeira, uma vez que na natureza eles eram inimigos mortais. Um era a caça, o outro, caçador. Um autor do século 17 deixou para nós uma viva descrição de uma dessas caçadas:

“Assim que um leão vê um unicórnio, corre a refugiar-se junto de uma árvore, que utiliza simultaneamente como arma ofensiva e defensiva; na rapidez da sua corrida, o unicórnio, cuja carga o leão evita, precipita-se contra a árvore, onde espeta o seu chifre aguçado. Uma vez o unicórnio preso pelo chifre e o perigo debelado, o leão cai sobre ele e mata-o”


Outros escritores bem antigos também mencionam outras características deste animal, tornando ainda mais incrível a credulidade de que ele realmente existisse. Alguns dizem que ele conseguiria empalar três elefantes com seu poderoso e enorme chifre. Outros dizem que vários unicórnios morreram justamente por causa do chifre: com o inimigo morto preso ao chifre, o animal morria de fome ou vítima da putrefação da carne em frente à sua face. O hábitat era variado: há histórias nas montanhas e até nos desertos.

Alguns autores apontam que o encontro com um destes animais poderia desencorajar qualquer um por conta da sua violência e selvageria. “A besta morde como um leão e escoiceia como um cavalo feroz”, diz um relato. Dizia-se ser impossível a domesticação, apesar das inúmeras tentativas.

Muito mais crendices...
Durante a Idade Média, ninguém havia visto um unicórnio sequer, mas a população acreditava piamente na sua existência e nos milagres do seu corpo. Isso fez com que um comércio bizarro se espalhasse por toda a Europa: roupas de couro de unicórnio, bucho de unicórnio vendido em açougues a preço elevadíssimo, chifre de unicórnio para proteção de mau-olhado etc. Abaixo, algumas das crendices encontradas por aí ao longo dos séculos:


• Botas com couro de unicórnio protegiam contra a peste negra;
• Bucho de unicórnio melhorava estados gripais graves;
• Chifre de unicórnio protegia contra mau-olhado quando usado como amuleto. Quando moído, era antídoto para qualquer tipo de envenenamento e curava epilepsia;
• Esfregar o chifre de um unicórnio em uma infestação alérgica cessava o mal instantaneamente;
• Fígado cru de unicórnio batido com gema de ovo de pata curava lepra;
• Se uma fonte ficasse contaminada, bastasse depositar nela um chifre de unicórnio para que a água voltasse a ficar boa para o consumo.

Durante o Renascimento, época tão falada pelo distanciamento das crendices populares e retorno à razão greco-romana, os envenenamentos eram extremamente comuns. Por isso, na Itália, há o registro de um verdadeiro comércio de “taças moldadas com chifre de unicórnio”. Hoje em dia sabe-se que eram fabricadas com marfim de elefante.

Diante de tamanha raridade em encontrar o animal e os poderes tão fabulosos atribuídos ao seu corpo como um todo, podemos imaginar como dispendioso era possuir um chifre de unicórnio. O viajante alemão Paul Hentzer afirmou, em 1598, que um membro da família real espanhola havia comprado um chifre destes à soma fabulosa de cem mil libras, o que hoje significaria perto de um bilhão de reais.

O comércio do embuste na Itália cresceu e passou a exportar para toda a Europa. Restos de marfim de elefante ou mármore moldado eram vendidos na Alemanha e na França como chifres de unicórnio com poderes incríveis. Couro de cavalo, na Espanha, transformava-se em couro de unicórnio. Entre outros tantos exemplos.

De acordo com a crendice medieval, se um unicórnio enfurecido invadisse um feudo – o que nunca ocorreu –, era preciso que uma virgem se pusesse à sua frente; desta forma, o bicho amansaria e deitaria a cabeça em seu colo para ser acariciado. Desta forma, a fera era morta a lançadas dos moradores dos vilarejos.


De onde surgiu a ideia de um cavalo com chifre?
Ao que tudo indica, foi um erro de identidade bastante antigo. O viajante grego Ctésia, em 400 a.C., parece descrever um rinoceronte. Os antigos chineses usavam chifre de rinoceronte contra casos de envenenamento quando a Europa começou a fazer comércio com o Oriente. Na Índia antiga, havia vários relatos de rinocerontes enfurecidos em vilas.

A crendice popular fez todo o resto de mistificar essa lenda. Como quem conta um conto sempre aumenta um ponto, o chifre de rinoceronte da China chegou à Itália como um chifre milagroso de um animal desconhecido e que ganhou fama nas vilas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mitos, curiosidades, fatos e farsas (11)

Ao longo da história as sociedades passaram inúmeros mitos e curiosidades que foram – e ainda são – encarados como fatos. No entanto, não passam de folclores que escondem farsas incríveis e bastante inventivas. Vamos, então, descobrir um pouco delas? Voilà!

A gripe tem origem alemã?
Bem, de acordo com os estudos, a palavra “gripe” tem origem em um antigo idioma germânico, e não a doença. Tudo começou com “grippan”, o mesmo que “pegar”. Daí vieram em francês “gripper”, “agarrar” e em inglês “grip”, com o mesmo sentido. Em meados do século 18, na França, “grippe” virou o nome do resfriado porque pegava a pessoa subitamente de um dia para o outro. No português virou o nome do resfriado forte, mas também há a corruptela relacionada ao verbo “pegar”: “Beltrano pegou uma doença”.


De onde vem a origem da famosa guilhotina?
Até 1790, na França, os condenados à pena capital tinham suas cabeças decepadas a golpes de machado. Era um método brutal e sujo, principalmente quando o carrasco errava o golpe do pescoço e cortava metade da cabeça, por exemplo. Diferentemente do que dizem, não foi o médico Joseph Ignace Guillotin quem a inventou, mas sim a pedido dele pelo médico Antoine Louis. O que ele fez foi sugerir um método mais rápido e menos sujo de condenação à morte, sendo que este mecanismo já era usado em outras partes da Europa. Com o tempo, ela ganhou o nome do seu defensor maior: “guillotine”; outras vezes era chamada de “viúva negra”, uma vez que nos anos pós-Revolução Francesa, em Paris, matavam-se mais de 300 homens por dia através da guilhotina, deixando muitas mulheres viúvas. Antes de ser posta em prática, foram feitos vários testes com pessoas mortas; o primeiro vivo guilhotinado foi um ladrão, em 1792.

O que a histeria louca tem a ver com o útero da mulher?
Histeria foi muito trabalhada por Frued, mas é um mal muito antigo. O nome foi dado pelos gregos – “hystéra” –, vindo a ser “útero”, pois eles acreditavam que a histeria fosse causada por um desarranjo uterino, uma doença exclusivamente feminina. Esse pensamento se perpetuou por muitos séculos, sendo que o médico francês Louis Landouse afirmou que a histeria fosse uma neurose do aparelho reprodutor feminino, ocorrendo a doença sem sinal de febre mas com sinal terrível de estrangulamento. No popular, dizia-se que a histeria acontecia quando a mulher sentia “falta do marido”, se é que entendem.


Qual a origem de chamar alguém de idiota?
Tudo vem do grego: “idiós”, o mesmo que “próprio” ou “particular”. Daí originou “idioma” e “idiotés”, este que significava homem particular, ou contrário do homem público (magistrados, prefeitos, governadores, funcionários públicos). Assim, “idiotés” ganhou o sentido de ignorante na Grécia porque, diferentemente do homem público, ele desconhecia a política de sua cidade. Portanto, não seria difícil chamarmos a nós mesmos de idiotas quando falamos de alguns políticos, tudo por questões óbvias, né. Não temos as regalias que eles têm e as tamanhas facilitações.

Qual a origem da palavra “inferno”?
Tudo teve origem no latim “infernus”, derivada de “inferus”, o mesmo que “inferior” ou “subterrâneo”. De acordo com a mitologia greco-romana, os infernos eram lugares subterrâneos por onde desciam as almas para serem castigadas ou recompensadas – assim, mesmo os justos moravam no “inferno”, uma vez que ele estava localizado abaixo da terra. Foi daí que o cristianismo tirou a ideia de inferno, mas como um lugar único de tortura e punições aos de coração impuro.


A insulina que o diabético toma diariamente tem algo a ver com ilhas?
A palavra veio do francês “insuline”, que teve origem no latim “insula”, o mesmo que “ilha”. “Insula” gerou o significado de ilha em vários idiomas: português, espanhol, inglês, francês, italiano etc. O pâncreas contém um grupo de células chamadas de ilhotas de Langerhans, pesquisadas pela primeira vez em 1869, por um médico alemão com este sobrenome. Ele descobriu que elas produzem o hormônio responsável pela “queima” de glicose no sangue. Assim, essas “ilhas” produzem sua “ajudante”, a “insulina”, já que “insuline” significa “quem vem da ilha”.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Considerações sobre Nero, o imperador considerado louco...

Nero Cláudio César Augusto Germânico. Um nome controverso na história que envolve um pouco de tudo: poder, exageros, loucura, crueldade, sexualidade, excentricidade. Vários têm sido os livros e documentários que tentam entender um pouco desde homem, nascido em 37 d.C. e que morreu no ano 68. Um imperador que governou o maior império do mundo, o Romano, de 54 até a sua morte. Por ser tão controverso e comum nos livros de história, decidimos fazer uma lista de considerações revelando o que é fato e o que é farsa na vida deste homem.


1º Apesar da tirania e da extravagância, durante seu poder, teve foco na diplomacia e no comércio, mas também tentou melhorar o nível cultural da sociedade, construindo teatros e estádios para competições desportivas;

2º Realmente mandou matar a sua mãe, Agripina, e seu irmão, Britânico. Perseguiu muitos cristãos que, mais tarde, foram reconhecidos como mártires pela Igreja. No entanto, conseguia enorme popularidade entre as classes mais baixas da população, talvez por conta da política do pão e circo;

3º Era sobrinho de Calígula, outro imperador com má fama histórica durante os tempos romanos;

4º Teoricamente, ele não teria direito ao trono romano. Mas uma série de complôs com assassinatos e casamentos fez com que seu tio se casasse com sua mãe, que voltava do exílio. Por ser mais velho que seu meio-irmão Britânico, tornou-se herdeiro direto;

5º Ganhou emancipação aos 14 anos de idade, ou seja, tornando-se maior de idade;


6º Os primeiros anos do seu reinado são conhecidos como exemplo de boa administração;

7º Nero teve vários casos extraconjugais, enquanto sua mãe tramava em favor do seu filho nos bastidores, a contragosto do Senado. Entretanto, o jogo virou quando ela descobriu a série de traições com escravas e estrangeiras, o que fez azedar o trato entre mãe e filho. Não procede a informação de que eles vivessem um romance incestuoso;

8º Quando Britânico ia ser declarado adulto, apareceu morto. Há a suspeita que Nero o envenenara com vinho, uma vez que Agripina já tramava para que o Senado proclamasse o enteado o verdadeiro herdeiro do trono romano. Diante disso, Nero colocou a mãe no exílio. Para continuar suas aventuras sexuais, em 59 decidiu cometer matricídio;

9º Com poder cada vez maior em suas mãos, tratou de matar quem aparecesse em seu caminho. Assim, tramou as mortes de antigos amigos, parentes e até mesmo da esposa Otávia. Com atitudes como estas, sua popularidade começou a cair. Diante disso, abriu tabernas de bebidas, liberou prostíbulos e expandiu o território na Armênia, o que fez tornar-se benquisto entre o povo;

10º Ficou ainda mais popular quando fez um decreto diminuindo alguns impostos e libertando alguns escravos presos por dívidas que, supostamente, jamais conseguiriam pagar. Além disso, praticamente cortou os impostos de gêneros alimentícios, o que diminuiu o custo de vida;


11º Recebeu graves críticas por usar dinheiro público em espetáculos artísticos e construção de obras de artes, como enormes estátuas. Amante de jogos, patrocinou muitas lutas entre gladiadores em várias partes do império;

12º Uma das lendas mais divulgadas sobre Roma e seu louco imperador Nero diz que ele mesmo colocou fogo na cidade quando viu seus projetos ruírem. No entanto, não existe nenhum documento que culpe o imperador; mais louca ainda é a historinha de que ele tocava violino alegremente enquanto a cidade ardia em chamas. O violino só foi inventado no século 16. De acordo com o historiador romano Tácito, Nero estava a uns 80 quilômetros de distância de Roma quando teve início o fogaréu; ainda segundo ele, o imperador mandou tropas para controlar o incêndio;

13º Durante catástrofes públicas em Roma, como o referido incêndio, Nero costumava abrir as portas dos prédios públicos para abrigar as famílias que ficaram sem lar;

14º Nero atribuiu o incêndio aos cristãos. Era notório e é um fato que ele tinha uma grande antipatia pela nova religião. Sua crueldade com judeus e cristãos entrou para a história. Muitos foram jogados em estádios durante espetáculos que eram devorados por feras como leões e cães. Entretanto, é um mito de que cristãos tenham sido mortos no famoso Coliseu Romano. Lá era palco de lutas entre animais e entre gladiadores;

15º Nero gostava de cantar, tocar harpa e escrever poesias e canções. Muito se perdeu ao longo da história, mas consta que ele gostava de cantar durante alguns saraus, enquanto inimigos políticos eram envenenados nesses sádicos jantares;


16º Quando foi morto, os políticos e as classes mais altas celebraram publicamente o fato, uma vez que os gastos públicos eram gigantescos com assuntos supérfluos e as tramas de morte, cada vez maiores. No entanto, as classes mais baixas sentiram-se desprovidas de futuro seguro. Extremamente populista e demagogo, Nero tinha o desejo de ser o mais popular possível;

17º Após sua morte, a nova aristocracia fez questão de retirar seu nome de monumentos. Surgiu em todo Império o mito de que ele estaria vivo em um exílio tramando sua volta triunfal, para deleite de seus correligionários e população mais pobre. Isso virou uma lenda tão popular que até mesmo Santo Agostinho o nomeia em sua obra como uma importante crença romana.


A história de Nero é muito controversa, principalmente por conta de fontes duvidosas. Há uma polaridade muito grande: ou são críticas, ou ufanistas. Outro problema é a distância: muito do escrito que nos chegou não é contemporâneo à sua governança, havendo um hiato de pelo menos 50 anos.

Há muitas farsas nessa história tão interessante, bem como fatos interessantíssimos. Apesar das fontes controversas, Nero realmente foi um homem psicopata que não via limites para seu maior objetivo: ser popular. Por isso tramou tanto, matou tanto e surpreendeu tanto. A maior história atribuída a ele – o incêndio – é um embuste que o folclore tratou de perpetuar.

Um nome tão importante da história não pode ficar resumido a poucas linhas de um blog e vários livros não seriam possíveis para tentar mostrar um perfil exato de alguém tão controverso.

sábado, 22 de setembro de 2012

Monstro do Lago Ness, a maior “personalidade” da Escócia...

Lago Ness – no idioma local Loch Ness –, na Escócia, acredita-se ser o local onde habita um monstro de que se fala, com graus variáveis de credibilidade, há pelo menos 1400 anos. O lago, que é a maior extensão de água doce da Grã-Bretanha, apresenta um aspecto sinistro, mesmo quando o sol brilha sobre as suas águas sombrias e turvas. A profundidade média é de 270 metros, o que poderia cobrir muitos prédios bem altos das grandes cidades.



Não são menos fantásticas algumas das descrições do tal monstro. A mais antiga data de 566 d.C., quando teria sido visto por São Columba. De acordo com esse relato, o tal bicho surgiu da água e emitiu um enorme rugido com a boca escancarada. Depois disso há algumas raras aparições no Lago Ness. Na realidade, só em 1933, decorridos quatorzes séculos, surgiu uma descrição clara do monstro, facultada por um cirurgião londrino que, ao passar de automóvel, durante as férias, obteve a primeira foto daquele, tirada a uns 200 metros de distância, que reproduzia o que parecia ser um longo pescoço.


Essa foto acabou sendo publicada nos principais jornais do mundo e causou o maior abalo científico. Uns ficaram entusiasmados em começar uma caçada, outros se mantiveram céticos e pediram calma e mais análises, alegando que poderia ser um galho podre na água. O fato é que desde os anos 1930, o Lago Ness deixou de ser somente um ponto misterioso do folclore escocês e acabou virando ponto turístico relacionado ao misticismo e ao sobrenatural; desde então, várias pessoas dizem ter visto algo descrito como “estranho”, mas nada foi comprovado.

Enquanto a ciência deixa de lado a discussão, as pessoas permanecem afirmando terem visto o monstro, como é o caso de um guarda florestal que, em 1951, alega ter visto um corpo enorme na água, subindo e descendo do leito do lago. Desesperado, buscou um amigo para servir de testemunha a fim de que não fosse taxado como louco.


Diante de tantos avistamentos, a polícia local decidiu iniciar uma investigação no lago em 1961. Foram reunidos depoimentos imensos, fotos, arquivos de vídeos etc. Até a Marinha Britânica auxiliou com pequenos submarinos nas águas turvas. Entretanto, o possível animal manteve-se oculto e o caso foi encerrado sem nenhuma conclusão. Adeptos das teorias de total conspiração dizem que o governo, sim, teria descoberto algo relacionado a alienígenas e cruzamentos bizarros, ou até mesmo uma espécie de dinossauro que sobreviveu ao cataclismo que devastou a espécie, mas isso tudo é especulação.

Até os dias de hoje há as investigações independentes. Cientistas não costumam falar abertamente sobre o monstro do Lago Ness, dizendo ser folclore, mas nunca explicam os avistamentos que duram quase 1500 anos.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sereias, a verdade sobre o mito das belas donzelas do mar...

A sereia apanhada no Lago de Belfast, na Irlanda do Norte, no ano 558 d.C., tinha um passado incomum. Cerca de 300 anos antes fora uma linda jovem chamada Liban, cuja família morrera numa inundação. Viveu durante um ano no mar, sendo gradualmente transformada naquilo que conhecemos por sereia. A sereia começou a cantar debaixo da água, quando foi ouvida e recolhida pelas redes de um grupo de pescadores, que lhe chamaram Murgen, que no idioma local significa “nascida no mar”, e a colocaram num tanque para que todos pudessem vê-la. Recebeu um batismo e, quando morreu, ficou conhecida como Santa Murgen (foto abaixo) e muitos milagres lhe foram atribuídos.


Em 1403, outra sereia ficou presa em um charco de lama em Edam, na Holanda. Segundo um relato do século 17, foi salva por mulheres da vila, que a limparam e alimentaram. Nunca aprendeu a falar, mas viveu durante 15 anos e, após a sua morte, recebeu uma sepultura cristã no cemitério da capela local.

A belíssima sereia da Ilha Santa Iona, na Escócia, visitava diariamente um velho senhor que lá vivia em reclusão, por quem se apaixonara e cuja alma, que as sereias não possuem, ansiosamente pretendia. O homem, então, disse que era preciso que ela renunciasse a vida no mar. Com isso, desesperada, a sereia partiu e nunca mais voltou. Suas lágrimas se transformaram em flores que enfeitam a costa dessa ilha.

Na Amazônia, uma linda jovem causava inveja em toda a tribo, até que uma noite seus irmãos a pegaram numa tocaia e mataram-na. Os peixes, piedosos, levaram Iara até o encontro dos rios Negro e Solimões, transformando-a em uma belíssima sereia para cantar a sua tristeza.


O mito...
As sereias aparecem em lendas extremamente antigas. Os filisteus e os babilônios dos tempos bíblicos adoravam deuses com caudas de peixe. Aparecem também sereias em moedas coríntias e fenícias. Diz o mito que o conquistador Alexandre O Grande teve várias aventuras sexuais com sereias no Mediterrâneo. Há vários relatos de viajantes romanos que afirmavam terem visto sereias em vários cantos do mundo conhecido daquela época.

A tradição folclórica sempre é parecida: uma jovem que é castigada pela inveja humana, mas ganha a piedade da natureza. Com isso, uma vez por ano ganha o direito de ir à terra com forma humana e aproveitar um pouco algum festejo local. Às vezes, homens desavisados se apaixonam por elas e quase provocam situações embaraçosas e desastrosas. A lição moral do mito é o mesmo: pesar a vida entre a razão e a paixão. Na Idade Média, na França e na Inglaterra, várias pessoas diziam que um dia tiveram sereias em sua árvore genealógica: uma tia distante, uma bisavó, uma madrinha que morava em outro canto do reino.

Os marinheiros que voltavam de longas viagens sempre contavam histórias de mulheres do mar. Em 1717, em Amsterdã, foi lançada uma coleção sobre a fauna marinha da Índia e lá estava a figura de várias sereias que poderiam ser encontradas ao longo do difícil caminho. O mais interessante é a descrição enciclopédica e quase científica do bicho:

“MULHER DO MAR: monstro com cerca de 1m50 de comprimento. Vive na água, mas pode chegar à terra e ficar lá por até três dias. De tempos em tempos solta uns grunhidos, não sabe falar e não tem nenhuma cultura. Não aceita nenhuma espécie de alimento conhecido oferecido: pequenos peixes, caranguejos, lagostas etc. É um ser perigoso”

É interessante notar as inúmeras descrições sobre as sereias supostamente vistas e até capturadas. Cabelo verde, rosa, azul-celeste. Pele cinza, esverdeada, azulada. Pelos corporais amarelos, pretos e duros como espetos, ou rosados.


Um recurso muito lucrativo!
Em 1830, em Londres, um taxidermista trouxe a público o que ele havia dito ser a prova da existência de uma sereia. Conseguiu vender o exemplar a um preço incrível a um colecionador de história natural. Alguns meses depois, um biólogo estudou o animal e esclareceu a farsa: tratava-se de um macaco costurado com partes de peixe. Essa mesma fórmula bizarra – macaco-peixe – foi um comércio lucrativo nos portos do Japão durante o século 18 e muita gente assim fez fortuna.

Adeptos da teoria dos deuses astronautas creem piamente na existência de sereias, que eles atribuem a cruzamentos estranhos feitos pelos aliens. O problema é a falta de provas físicas, como esqueletos. Mas essa polêmica é assunto para outro post mais à frente.

Recentemente, povoaram na internet fotos de possíveis esqueletos de sereias encontrados em praias da Austrália. As fotos chocaram várias pessoas, que passaram a questionar a comunidade científica. Entretanto, tudo não passava de uma brincadeira de um artista plástico bastante habilidoso que, da mesma forma que no século 19, em Londres, juntou carcaças de animais marinhos e criou esses seres – que mais tarde vendeu a um preço exorbitante na internet, mas não enganando a população, mas sim a preço de artesanato.



A verdade sobre o mito...
Atualmente, há um consenso entre biólogos, naturalistas e historiadores: as sereias são fruto da mente humana e sua invencionice folclórica. O que os navegadores presenciavam eram animais que podem ser confundidos com sereias vistos de longe por conta da sua formação quase antropomórfica. São animais como: peixe-boi, peixe-boi marinho, foca, leão-marinho, dugongo etc.





As focas gostam de se estender nos rochedos das praias para se aquecer ao sol enquanto emitem gritos estranhos em coro, o que poderia ser confundido com canto de sereias vistas de longe, somado a isso a própria mentalidade medieval repleta de folclorismos e monstros míticos. Ou seja, o mito da sereia é mais um erro de identidade.

O mais interessante é que desde 1962 o Departamento Turístico da Ilha de Man oferece um prêmio, hoje avaliado em 600 mil libras, a quem trouxer do mar uma sereia viva. Há quem continue a caçada incessantemente, mas outros tantos já desistiram de buscar uma bela donzela das águas profundas.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fênix: a história de um mito mais do que imortal...

A fênix, o mais belo de todos os animais fabulosos, simbolizava a esperança de a continuidade da vida após a morte, a reencarnação. Revestida de penas vermelhas e douradas, as cores do sol nascente, possuía uma voz melodiosa que se tornava triste quando a morte se aproximava. A impressão que a sua beleza e tristeza causavam em outros animais chegava a provocar a morte destes últimos.



Segundo a lenda, apenas uma fênix poderia viver de cada vez em uma região, pois era a rainha de todos os animais para os habitantes da Europa e do Oriente Médio, apesar de ninguém nunca tê-la visto, somente reinando em boatos.

Hesíodo, poeta grego do século oitavo antes de Cristo, afirmou que esta ave vivia nove vezes o tempo de existência do corvo, que já tem uma vida longa; portanto, uma fênix viveria, em média, 500 anos. Outros cálculos de contemporâneos de Hesíodo apontam que essa ave especial vivia por até 97 mil anos, entre uma ressurreição e outra.

Diz a lenda que quando a ave sentia a morte aproximar-se, construía uma pira de ramos de árvore de canela, em cujas chamas morria queimada. Mas das cinzas de aroma agradável erguia-se, então, uma nova fênix que colocava piedosamente os restos da anterior em um ovo de mirra e voava com ele rumo à cidade egípcia de Heliópolis, onde o colocava no altar dedicado ao Sol.


No Oriente Médio, acreditava-se que a mirra e o incenso fossem restos mortais de fênix recolhidos em recantos dos oásis do deserto. Na Europa, dizia-se que essas cinzas tinham o poder de ressuscitar um morto. O tresloucado imperador romano Heliogábalo, por volta de 220 a.C., decidiu comer carne de fênix para conseguir a tão sonhada imortalidade. Seus serviçais serviram-lhe faisão, uma vez que, por questões mais do que óbvias, não encontraram uma fênix para ser caçada e cozida. O governante acreditou no que havia comido, mesmo assim foi assassinado dois anos mais tarde.

Atualmente, etnólogos e folcloristas acreditam que a lenda tenha surgido no Egito e adotada pelos sacerdotes adoradores do sol de Heliópolis como uma alegoria da morte e renascimento diários do astro-rei e do faraó. Na cristandade primitiva, a fênix chegou a ser simbolizada como a ave de Jesus, por causa da Sua ressurreição no tempo de Páscoa.

Curiosamente, o seu nome pode dever-se a um equívoco de Heródoto, historiador grego do quinto século antes de Cristo, considerado “o pai da história”. Na sua descrição da ave, ele pode tê-la erradamente designado por fênix (“phoenix”) a palmeira (“foienix”, em grego) sobre a qual a ave era nessa época habitualmente representada.


sábado, 15 de setembro de 2012

Mito dos dragões: demônios no Ocidente, anjos no Oriente...

Aqui no Ocidente, o dragão, revestido de escamas e vomitando fogo, representa o mal e a destruição. Já no extremo Oriente, o dragão representa um animal benévolo, simbolizando a chuva, a neblina e o vento. No período medievo da Coreia e da China, por exemplo, cada vila tinha o imaginário de seu dragão protetor como hoje cada cidade cristã tem um santo padroeiro.

Nesse período medieval asiático, os chineses acreditavam que tufões e inundações representavam dragões combatendo no alto dos céus. Os trovões, na Coreia, eram urros de dragões se digladiando no horizonte. As enormes pedras redondas de rios eram ovos camuflados desses animais. A invencionice popular era bem fértil e interessante!

Na China, a cor do dragão representava algo bem específico: preto – tempestade, amarelo – sorte, azul – fertilidade da terra que se plantava. Acreditava-se que eles viviam nas profundezas de lagos e do mar, e que as pérolas eram preciosas verrugas de sua pele cheia de escamas.

Atualmente, paleontólogos argumentam que os dragões que um dia habitaram o folclore medieval da Ásia e da Europa eram, na realidade, fósseis de animais pré-históricos como os dinossauros.


Adversários dos heróis, os vilões das pequenas cidades...
No Ocidente, os dragões devoravam os homens e ocultavam tesouros em cavernas. Voavam de noite vomitando fogo e berrando. Eram vistos como prenúncio de catástrofes, mesmo que ninguém tenha visto um de verdade voando por aí. É como a nossa história de quem vê o Saci, mas não há provas da sua existência.

A lenda do homem que mata dragões aparece em todas as cultuas europeias do período, sempre sangrentas e provando a masculinidade deste personagem. Siegfried, Beowulf, São Jorge, São Miguel, Tristão: todos eles trucidam dragões e ganham a confiança de um povo, marcando sua bravura.

Na maior parte das lendas europeias, os dragões raptam donzelas enquanto jovens heróis têm que ir salvá-las do perigo em troca de um casamento promissor. É aí que surge o conto de fadas tão popular na nossa cultura ocidental, mas tão estranho no Oriente, uma vez que lá os dragões são seres bondosos. Enquanto no Ocidente esses animais se alimentam de cavalos, carne humana e veneno, no Oriente a cultura diz que a alimentação é à base de alface, repolho e maçãs.


Não se sabe de que maneira a lenda dos dragões tenha surgido. O que se sabe é que os homens viram fósseis pré-históricos e fizeram associações nebulosas com seres de seu imaginário. O fato é que há uma inversão de papéis do dragão em nossa cultura e na oriental.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Os caixões movediços que aterrorizaram uma ilha inteira...

No século 18, os Wallronds, uma família abastada de plantadores de cana-de-açúcar, construiu um túmulo escavado na rocha em Christchurch (foto abaixo), em Barbados, no Caribe, fechando-o com um bloco de mármore o que mais parecia fortaleza e não um lugar para seus mortos descansarem. O primeiro membro da família a estrear a morada foi Thomasina Goddard, em 1807. Um ano depois, por questões variadas, o mausoléu foi adquirido pela família Chase, também ricos plantadores da região, que nele queria enterrar duas filhas, mortas respectivamente em 1809 e 1812.


Quando o túmulo foi aberto novamente, em 1813, para receber o corpo do pai das jovens, as urnas de chumbo estavam no chão, sendo que não havia nenhum sinal de arrombamento. O mesmo ocorrera em 1816, quando fora aberto para o enterro de um primo: e mais uma vez os caixões estavam em posições diversas diferentes de como estiveram colocados pelos coveiros e familiares. Os caixões estavam bagunçados. O de Thomasina, por exemplo, era tão pesado que oito homens o carregaram no enterro. Mesmo assim ele estava encostado na parede, de pé.


Por ocasião do funeral seguinte, em 1817, toda a cidade já sabia dos mistérios da cripta envolvendo caixões movediços. Uma multidão apareceu no enterro de mais um membro da família Chase a fim de conferir se a lenda era, mesmo, uma realidade. O susto foi generalizado: quatro caixões estavam deslocados de maneira estranha.

Em 1819, o governo de Barbados decidiu selar o mármore que fecha a cripta, uma vez que a história dos caixões movediços já criava uma histeria coletiva. Falava-se em mortos-vivos, zumbis e pessoas enfeitiçadas pelo vodu – prática recorrente no Caribe. Recentemente, escrevi um post sobre a religião vodu (você pode lê-lo clicando aqui) e também sobre os zumbis (leia clicando aqui).


Dizem que ruídos eram ouvidos dentro do mausoléu, o que assustava a população mais ainda, que temia em Christchurch uma invasão de zumbis. O governo local decidiu abrir a cripta, que estava selada com cimento, e constatou que os caixões pesadíssimos estavam revirados mais uma vez.

O caso chegou até a Inglaterra, onde Arthur Conan Coyle, criador do renomado personagem Sherlock Holmes, escreveu em jornal duas possibilidades sobrenaturais: (1) os corpos estarem se revolvendo em protesto por conta dos caixões de chumbo, o que impede a putrefação natural; (2) manifestações estranhas porque um dos membros da família Chase, ali enterrado, havia cometido suicídio – que naquela época era visto como uma atitude totalmente antirreligiosa e imoral.

Por fim, em 1822, o governo de Barbados decidiu pôr fim à histeria coletiva e enterrou os corpos na terra, em sepulturas comuns, e esvaziou o misterioso mausoléu dos ricos plantadores de cana.


Hoje em dia acredita-se que o caso seja explicado facilmente por meio da lógica: habilidosos assaltantes de túmulos agiam durante a noite a fim de profanar os caixões; por serem membros de famílias muito ricas, os corpos poderiam ter joias e outros objetos de valor facilmente vendidos no mercado negro. Junto a isso, soma-se o medo dos colonizadores europeus frente às práticas religiosas locais do vodu com zumbis ressuscitados.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Papisa Joana: será que a Igreja teve uma mulher como um líder máximo?!

Desde sempre há uma história envolta em mito e cultura anticlerical: a Papisa Joana, que teria sido a única mulher a liderar o catolicismo por três anos. Essa lenda começou na Europa durante o final da Idade Média e se perpetua até hoje. Livros foram lançados, documentários abordam o tema e há uma certeza: de que ainda não há consenso algum acerca deste complexo tema.


Como surgiram a lenda e algumas versões...
A história da papisa pode ter aparecido pela primeira vez em alguns documentos do ano 1100. Outro cronista, desta vez do século 13, data o papado de Joana de até três séculos e meio antes, depois da morte do Papa Leão IV, coincidindo com uma época de crise e confusão na diocese de Roma. Joana ocupou o cargo durante três anos, entre o Papa Leão IV e o Papa Bento III (anos de 850 e 858).

A história possui várias versões. Segundo alguns relatos, Joana teria sido uma jovem oriental, nascida com o possível nome de Giliberta, talvez vinda de Constantinopla, que se fez passar por homem para escapar à proibição de estudar, imposta às mulheres na época. Extremamente culta, possuía formação em filosofia e teologia. Ao chegar a Roma, apresentou-se como monge e surpreendeu os doutores da Igreja com sua sabedoria. A mesma lenda conta que Joana se tornou amante de um oficial da Guarda Suíça e ficou grávida.

Outra versão, atribuída a Martinho de Opava, afirma que Joana teria nascido na cidade de Mainz, na Alemanha, filha de um casal inglês. Na idade adulta, conheceu um monge por quem se apaixonou. Foram ambos para a Grécia, onde passaram três anos, após o que se mudaram para Roma. Para evitar o escândalo que a relação poderia causar, Joana decidiu vestir roupas masculinas, passando assim por monge, com o nome de Johannes Angelicus, e teria então ingressado no mosteiro de São Martinho. Conseguiu ser nomeada cardeal, ficando conhecida como João, o Inglês. Segundo as fontes, João, em virtude de sua notável inteligência, foi eleito Papa por unanimidade após a morte de Leão IV, ocorrida em 17 de julho de 855.


Apesar de ter sido fácil ocultar sua gravidez, devido às vestes folgadas dos papas, acabou por ser acometida pelas dores do parto em meio a uma procissão numa rua estreita, entre o Coliseu de Roma e a Igreja de São Clemente, e deu à luz perante a multidão. As versões divergem também sobre este ponto, mas todas coincidem em que a multidão reagiu com indignação, por considerar que o trono de São Pedro havia sido profanado. João/Joana teria sido amarrada num cavalo e apedrejada até a morte. Noutro relato, Joana teria morrido devido a complicações no parto, enquanto os cardeais se ajoelhavam clamando: “Milagre!”.

A história foi publicada pela primeira vez no século 13 pelo escritor Esteban de Borbón e espalhada pelos séculos, porém sem provas. O teólogo David Blondel e o filósofo alemão Wilhelm Leibnitz, além dos enciclopedistas franceses, rotularam a história como falsa. Em 1886, voltou a ser difundida pelo escritor grego Emmanuel Royidios no romance “A Papisa Joana”.


Investigação mais profunda...
A história do possível papado de Joana rendeu um cisma na historiografia religiosa; alguns pesquisadores a aceitam justamente pela época corresponder a uma confusão dentro do catolicismo. Outros contestam alegando ser invenção. Quem defende a teoria conspiratória aponta que a maior prova é o exame aplicado até 1800 aos papas eleitos, que deveriam postar-se nus diante de um pequeno colegiado para, então, provar a sua masculinidade.

Alguns céticos afirmam que o mito pode ter surgido em Constantinopla, devido ao ódio da Igreja Ortodoxa contra a Igreja Católica. O objetivo seria desmoralizar a igreja rival. Outra vertente é de que este papa seria, na verdade, um eunuco que, por ser castrado, não foi eleito. Outra hipótese é que, no século 13, o papado tinha um grande número de inimigos, especialmente entre a Ordem dos Franciscanos ou a dos Dominicanos, descontentes com as diversas restrições a que eram submetidas. Para se vingar, teriam espalhado verbalmente a história da papisa.

Outro fato interessante é que a história da Papisa Joana nasce no período anterior ao Cisma do Oriente, quando as igrejas cristãs rompem e ganha força e popularidade logo após 1520, época que Lutero rompe com o catolicismo e inicia o movimento de Reforma Protestante. Ou seja, os historiadores dizem que os fatos comprovam que Joana poderia ser um embuste para desmoralizar a Igreja em duas épocas em que a informação demorava meses, ou anos, para circular dentro da Europa.


Já quem defende a história envolvendo Papisa Joana aponta que o acervo histórico do Vaticano permanece fechado à pesquisa e que a Igreja é, e continua sendo, muito misógina; portanto, é natural a negação do papado de uma mulher. Um dos sinais mais interessantes da existência de Joana é um decreto publicado pela corte de Roma, proibindo que se colocasse Joana no catálogo dos papas.

Genebrardo, arcebispo de Aix, afirma que, durante perto de dois séculos, a Santa Sé foi ocupada por papas de um desregramento tão espantoso que eram dignos de serem chamados apostáticos e não apostólicos, e acrescenta que as mulheres governavam a Itália.Assim, alguns historiadores explicam que, muito provavelmente, a Papisa Joana não tenha existido, mas Joana sim. Com tanto desregramento papal e escândalos em Roma, era natural que os clérigos tivessem amantes e famílias. Portanto, Joana poderia ter sido uma amante mandona de algum papa.

A lenda da Papisa Joana foi imortalizada no jogo de tarô através da carta “A papisa”, que representa sabedoria, conhecimento, intuição, sexto sentido e descoberta de grandes mistérios. Recentemente, escrevi um post sobre a cultura do tarô, que originalmente não tem nada de adivinhação. Para saber, clique aqui e aqui!


No geral, podemos afirmar que não há fundamento histórico algum para comprovar a existência da Papisa Joana, mesmo com os adeptos da teoria da conspiração dizendo que a Igreja, com todo o seu poder, tenta acobertar os fatos. Ou seja, tudo indica que essa seja uma tremenda farsa para desmoralizar a instituição em períodos conturbados da política através de exemplos bastante reais: o excesso de sexualidade entre os clérigos.

sábado, 8 de setembro de 2012

Pseudociência: tão falada e debatida, mas você sabe do que se trata?

Nos últimos anos, principalmente através da popularização da internet e da TV a cabo, tornou-se comum falar em pseudociência. A lista de disciplinas dessa área é gigantesca: ufologia, viagem no tempo, milenarismo, parapsicologia, feng-shui, criptozoologia, astrologia etc. De acordo com filósofos da ciência, a pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em fatos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.

Em geral, teóricos dizem que são tipos de conhecimento de puro entretenimento e que não fazem mal à sociedade. Já outros, como o renomado físico Richard Dawkins, consideram uma forma perigosíssima de manipular conhecimento, pois pode resultar em danos sociais sem precedentes, como histeria coletiva e problemas de saúde (como a cromoterapia e a cristalterapia).


Classificação geral...
Tipicamente, as pseudociências falham ao não adotarem os critérios da ciência em geral (incluindo o método científico), e podem ser identificadas por uma combinação de uma destas características: (1) aceitar verdades sem o suporte de uma evidência experimental; (2) aceitar verdades que contradizem resultados experimentais estabelecidos; (3) deixar de fornecer uma possibilidade experimental de reproduzir os seus resultados; (4) aceitar verdades que violam falseabilidade; (5) violar a Razão de Ockham (o princípio da escolha da explicação mais simples quando múltiplas explicações viáveis são possíveis), pois quanto pior for a escolha, maior será a possibilidade de errar.

O nobre leitor deve estar se perguntando, então, por que a teologia e a filosofia não se enquadram no propósito das pseudociências. Bem, as pseudociências são distinguíveis de filosofias, revelações, teologias ou espiritualidade, pois elas dizem revelar a verdade do mundo físico por meios científicos (ou seja, muitas normalmente de acordo com o método científico). Na teologia, por exemplo, ninguém diz que teve uma revelação de Javé ou de Buda através de métodos cartesianos de análise do “problema”.


Pseudociência versus protociência...
A pseudociência difere também da protociência. A última pode ser definida como especulações ou hipóteses que ainda não foram testadas adequadamente por um método científico, mas que é de todo modo consistente com a ciência existente ou que, sendo inconsistente, oferece uma explicação razoável para a inconsistência. Esse é o caso da exobiologia (que estuda o comportamento e possibilidade de vida microbiótica em outros planetas) e da exometeorologia (que analisa as massas de ar e atmosferas em outros planetas).

Pseudociência, ao contrário, procura testes adequados ou a possibilidade destes, ocasionalmente não testáveis em princípio, e seus defensores são frequentemente estridentes em insistir que os resultados científicos existentes estão errados. Ela, frequentemente, não responde aos procedimentos científicos normais (exemplo, revisões, publicações em periódicos padrões). Em grande parte das vezes, os defensores de alguma pseudociência acusam o sistema de dificultar a comprovação das suas teorias.

Entretanto, as fronteiras entre pseudociência, protociência, e a ciência real são pouco claras para observadores não especialistas. Elas podem ser mesmo obscuras para especialistas. Muitas pessoas já tentaram estabelecer um critério objetivo para o termo, com pouco sucesso. Se as verdades de uma dada pseudociência pudessem ser experimentalmente testadas ela pode ser uma ciência real, mesmo que não seja usual ou intuitivamente inaceitável. Se ela não pode ser testada, ela deve ser uma pseudociência. Se as assertivas feitas são inconsistentes com os resultados experimentais existentes ou com a teoria estabelecida, ela é frequentemente uma pseudociência.

Existem vários exemplos que tangem dúvidas na comunidade científica: (1) por muitos anos, a psicologia foi considerada uma pseudociência pela comunidade médica, bem como até hoje muitos entendem desta mesma forma a psicanálise; (2) a questão do aquecimento global é a pauta em voga nas comunidades de cientistas, quando uns mostram-se favoráveis à questão e outros dizem que faltam comprovações mais contundentes; (3) muitos físicos e astrônomos apontam que a parapsicologia e a ufologia não merecem crédito de ciência por trabalharem com “o desconhecido”, causando um racha enorme no fórum de debates.


A questão da imparcialidade...
Inúmeros filósofos da ciência criticam que os praticantes das pseudociências não atuam com total imparcialidade e análise crítica total da razão, agindo com maior paixão ao defender o status daquilo que pesquisam. Assim, segundo eles, estariam agindo ufólogos, homeopatas, astrólogos, numerólogos, acupunturistas etc. No entanto, uma outra corrente desta filosofia da ciência faz um questionamento interessante: quem vai pesquisar ou trabalhar com algo, dedicando-se anos e décadas da sua vida, sem ter tal paixão pela coisa? Por que um engenheiro é engenheiro? Por que um médico neurologista exerce tal função por tantas décadas? Simplesmente porque, naturalmente, já há uma paixão dentro da prática.

Absurdos da não-pseudociência...
Existe um subconjunto do que é comumente chamado de pseudociência que difere do que aqui foi definido como pseudociência. A maioria deles é baseado na matemática, e os problemas são geralmente apresentados com uma simplicidade tentadora. Eles normalmente vivem num sistema fechado de suposições e premissas e dependem de uma interpretação falha das regras deste sistema. Enquanto pseudocientistas falharam em provar que estavam certos, estes empreendimentos podem ser provados impossíveis.

Os antigos problemas geométricos de dividir um ângulo em três usando apenas uma régua e um compasso e de desenhar um quadrado com a mesma área de um dado círculo são exemplos deste tipo de problema. Alguns dizem que invenções que pretendem ilustrar o motor contínuo também entram neste grupo. Este último aparece com tanta frequência que o escritório de patentes dos Estados Unidos tem como política desconsiderar a aplicação de patentes deste tipo.

Por causa do fato de seu sucesso não depender de evidências empíricas do mundo real, alguns cientistas não consideram a matemática uma ciência. Neste contexto, a violação das regras da matemática não pode ser considerada pseudociência. Estes cientistas, que são matemáticos, no entanto, diriam que o termo técnico correto para alguma coisa violando as regras da matemática seria “errado”. A matemática difere as outras ciências por estar baseada em provas que (como diriam os matemáticos) proveem um grau de certeza muito maior do que o que pode ser alcançado por experimentos (embora alguns experimentalistas discordem).


Recentemente, publiquei um texto falando sobre o que é alquimia. Clique aqui!

Recentemente, postei um texto debatendo sobre a polêmica parapsicologia. Para lê-lo, clique aqui!

Recentemente, o blog divulgou um texto sobre a teoria do fim do mundo em 2012. Para acessar, clique aqui!

Recentemente, postamos um texto sobre o que é a ufologia. Clique aqui!

Recentemente, postei um texto debatendo sobre o que é a exobiologia. Clique aqui!

Recentemente, publicamos um texto falando sobre o que são os chamados contatos imediatos. Para ter acesso, clique aqui!

Recentemente, explicamos o que é e como funciona a Mufon. Clique aqui!

Recentemente, apontamos o que é e como funciona uma EVP. Para ler, clique aqui!

Recentemente, publicamos um texto falando sobre como se tornar um ufólogo. Para saber como, clique aqui!


A discussão está aberta e é muito polêmica. A questão das pseudociências e das protociências é muito longa e complexa, porém bastante inquietante para quem se interessa em explorar o mundo das teorias das conspirações. O mais interessante é perceber a paixão declarada nesses discursos onde cada lado aponta suas virtudes; ou seja, mais popularmente, cada um puxa a brasa para a sua sardinha!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O fato e a farsa envolvendo o símbolo egípcio “ankh”...

Ankh – pronuncia-se “anak” – é, também, conhecida como cruz ansata, faz parte da escrita hieroglífica do Egito Antigo e, naquela cultura, representava a vida. Para os sacerdotes antigos, era o poder da vida eterna e, por extensão, a vida após a morte, seja no paraíso ou no inferno. Por se assemelhar à cruz romana/cristã, sempre esteve associada ao ocultismo e à bruxaria e aos cultos anticristãos.


Recentemente, escrevi um texto sobre outro aspecto da cultura egípcia antiga, o olho de Hórus. Para lê-lo, clique aqui!

Junto aos aspectos relacionados ao misticismo, ainda há muitas especulações sobre o surgimento e real significado do ankh, mas egiptólogos apontam a Quinta Dinastia, que começa por volta do ano 2490 antes de Cristo. Quanto ao significado, há várias possibilidades: vida eterna, vida terrena, ressurreição, esperança de vida tranquila no outro plano etc.

O maior problema nos estudos é que muitas pessoas, sem nenhuma base teórica e histórica, afirmam ser um símbolo do satanismo e da magia negra, justamente pelo símbolo assemelhar-se com a cruz, símbolo do Cristianismo. Entre os egiptólogos contemporâneos há o consenso de que o ankh esteja relacionado à vida, e não às forças obscuras.


A alça oval da parte superior sugere um cordão entrelaçado, que significam os gêneros masculino e feminino, fundamentais para a criação e perpetuação da vida. Em outras interpretações, representa a união entre as divindades Osíris e Ísis, que proporcionava a cheia periódica do Nilo, fundamental para a sobrevivência da civilização egípcia. Neste caso, o ciclo previsível e inalterável das águas era atribuído ao conceito de reencarnação, uma das principais características da crença egípcia. A linha vertical que desce exatamente do centro do laço é o ponto de intersecção dos polos, e representa o fruto da união entre os opostos – os filhos, a humanidade ou as colheitas das cheias.

Os historiadores Andrew Gordon e Calvin Schwabe especulam que o ankh tem uma simbologia puramente biológica: o laço seria o cérebro com uma coluna vertebral e braços. Curiosamente, no Egito Antigo, acreditava-se que o sêmen fosse desenvolvido na coluna vertebral e, por isso, um símbolo representando a coluna simbolizaria a vida.

Apesar de sua origem egípcia, ao longo da história o ankh foi adotado por diversas culturas. Manteve sua popularidade, mesmo após a cristianização do povo egípcio a partir do século terceiro da nossa era. Os egípcios convertidos ficaram conhecidos como cristãos cópticos, e o ankh (por sua semelhança com a cruz utilizada pelos cristãos) manteve-se como um de seus principais símbolos, chamado agora de cruz cóptica (foto abaixo).


A popularização no mundo...
No final do século 19, com a popularização da egiptologia na Europa, junto às descobertas arqueológicas, o ankh foi agregado pelos movimentos ocultistas que se propagavam, além de alguns grupos esotéricos e as tribos hippies do final da década de 60. É utilizado por bruxos contemporâneos em rituais que envolvem saúde, fertilidade e divinação; ou como um amuleto protetor de quem o carrega. O ankh também foi incluído na simbologia da Ordem Rosa-Cruz, representando a união entre o reino do céu e a terra. Em outras situações, está associado aos vampiros, em mais uma atribuição à longevidade e imortalidade. Ainda encontra-se como uma alusão ao nascente-poente do Sol, simbolizando novamente o ciclo vital da natureza.

A popularização no Brasil...
O ankh popularizou-se no Brasil no início dos anos 70, quando Raul Seixas e Paulo Coelho criaram a Sociedade Alternativa. O selo dessa sociedade possuía um ankh adaptado com dois degraus na haste inferior, simbolizando os degraus da iniciação, ou a chave que abre todas as portas. Numa outra interpretação, representa o laço da sandália do peregrino, ou seja, aquele que quer caminhar, aprender e evoluir.


O “lado negro” do ankh...
O símbolo foi associado pela primeira vez ao vampirismo e à cultura gótica através do filme “Fome de viver”, dos anos 80, em que David Bowie e Catherine Deneuve protagonizam vampiros em busca de sangue. Há uma cena em que a dupla, usando ankhs egípcios, está à espreita de suas presas numa casa noturna. Assim, elementos como a figura do vampiro e do ankh podem atuar num mesmo contexto. Possivelmente, através deste filme, o ankh foi inserido na cultura gótica.

Desse modo, vemos que o ankh não sofreu grandes variações em seu significado e emprego primitivo, embora tenha sido associado a várias culturas diferentes. Mesmo assim, lhe foi atribuído um caráter negativista por aqueles que desconhecem a sua origem e significados reais, associando este símbolo a grupos e seitas satânicas ou de magia negra.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre o livro “Eram os deuses astronautas?”

Em algum momento da vida, você já vai ter ouvido falar no livro “Eram os deuses astronautas?”, dada a sua polêmica teórica e científica. Uma publicação lançada originalmente em 1968 pelo suíço Erich Von Däniken, é disparada uma saraivada de novidades em relação a quase tudo que a humanidade entende como ciência, aquele método cartesiano já clássico e concebido.

O livro teoriza a possibilidade das antigas civilizações terrestres serem resultado de cruzamento alienígena, há milhares de anos. Por isso, para a cultura, esses “astronautas” alienígenas eram conhecidos por deuses. Isso foi suficiente para acender um debate com a biologia, a paleontologia, a teologia, a física, a bioquímica etc.


O fato é que a publicação virou um sucesso em todo o planeta e rendeu muitos milhões de dólares ao autor em edições em inúmeros idiomas. Assim nascia a teoria dos antigos astronautas, que merece um post mais detalhado no futuro. Em todo o mundo, Däniken arrebanhou uma massa de estudiosos que passaram a estudar na possibilidade de a Terra ter sido um dia uma espécie de laboratório alienígena.

Em sua publicação, Däniken apresenta como provas ligações entre as colossais pirâmides do Egito e aquelas construídas na América Central, as linhas de Nazca, os moais da Ilha de Páscoa etc. Outro ponto polêmico apontado no livro é o fato de o homem ter saído do estado primata e começar a construir enormes pirâmides em tão pouco tempo.



Recentemente, escrevi um post sobre as famosas linhas de Nazca. Confira aqui!

Recentemente, escrevi um post sobre as enormes estátuas da Ilha de Páscoa. Confira aqui!

Recentemente, escrevi um post sobre Stonehenge. Confira aqui!

Recentemente, escrevi um post sobre a possível semelhança, ou não, das pirâmides americanas e egípcias. Confira aqui!

Diz o autor que esses extraterrestres de forma humanoide eram considerados divindades pelos antigos povos, por isso vem a explicação do título do livro. Naturalmente, levando o pensamento há mil ou dois mil anos atrás, é impossível definir um objeto voador com trinta metros de comprimento – que hoje chamamos de avião ou ônibus espacial –, portanto correlações próximas à realidade da época foram feitas: Deus, Javé, Anúbis etc. Foi isso que solapou uma gigantesca querela com os meios religiosos.

Unido à época lançada – um ano antes do homem ir à Lua –, Däniken conseguiu vender milhares de livros e convencer muitos leitores. As teorias defendidas neste e em outros livros ainda são tema de discussão, leiga ou acadêmica, contrária ou favorável. Alguns autores exploram o tema da teoria dos astronautas antigos; isso rendeu um documentário homônimo, outros tantos livros e uma série de TV que atualmente vai ao ar no History Channel.


Sobre o autor...
Erich Von Däniken (foto abaixo) nasceu na Suíça, em 1935. Lançou 28 livros, todos traduzidos em 35 línguas e vendendo pelo menos 70 milhões de exemplares. Seu interesse em desvendar enigmas históricos começou quando passou a ler escritos indianos antigos que falavam de seres vindos do céu em suas máquinas de fogo, em meio a tanta fumaça e ruídos. A partir daí, ele começou a se questionar: se nossos antecedentes mencionavam esses seres estelares que nos visitavam como não sendo deuses, o que seriam então? Atualmente Däniken coordena grupos de viagens para lugares como Stonehenge, na Inglaterra, a região de Nazca, no Peru, as pirâmides do Egito, entre outros.


Sob o meu ponto de vista, o livro “Eram os deuses astronautas?” pode ser lido sem compromisso como entretenimento e como proposta questionadora. No entanto, a teoria sofre uma série de críticas por ser cega demais em relação aos outros métodos científicos; quem crê nos deuses astronautas sempre acusa os outros métodos de serem comungados com as teorias conspiratórias que negam a existência dos alienígenas. A crítica merece um post à parte, publicado futuramente.

Para quem quiser comprar o livro ou o documentário, clique aqui!