terça-feira, 27 de novembro de 2012

A incrível história do outro homem da máscara de ferro...

Quase todo mundo conhece a história que se passou na França, do homem com máscara de ferro. Inicialmente imortalizada pelo folhetim diário, há alguns anos foi encenada por Hollywood cujo papel principal coube a Leonardo DiCaprio. Recentemente, escrevi sobre essa história bem popular na Europa. Confira clicando aqui!


Poderá o homem dar uma volta ao mundo sem mostrar o rosto? Esta foi uma daquelas perguntas fúteis que surgiu entre os membros do London National Sporting Club, em 1907. John Pierport Morgan, um milionário americano criador da famosa agência financeira J. P. Morgan, e Lord Donsdale, discutiam a questão, cuja concretização Donsdale, contrariamente a Morgan, considerava bastante possível.

A discussão resultou numa aposta de cem mil dólares – um valor extremamente alto para a época. Faltava apenas encontrar alguém disposto a tentar a proeza. Neste mesmo grupo encontrava-se Harry Bensley (foto abaixo), um playboy de 31 anos, com um rendimento anual de fazer inveja a qualquer rapaz; fez fortuna investindo em petróleo na Rússia e, para fugir do tédio daquele clube de homens, ofereceu seus préstimos à “loucura” da aposta.



Fixou uma série rígida de regras, a principal das quais estabelecia que, tal como o personagem do folhetim clássico de Alexandre Dumas, Bensley usaria sempre uma máscara de ferro. Além disso, empurraria um carrinho de criança, partiria com somente uma libra no bolso (o que hoje seriam dez reais) e não levaria mais nada além de uma muda de roupa numa sacola de couro. Vale lembrar que, em 1907, todo o dinheiro que o bon-vivant tinha não adiantaria de nada, uma vez que não havia cartões de crédito internacionais e caixas de saque eletrônico. Esta aposta mais parecia uma missão impossível.

Harry Bensley tinha de atravessar um número determinado de cidades inglesas e 125 lugares em 18 países. Devia ainda arranjar casamento durante a jornada, e a mulher não deveria ver o seu rosto. Para financiar todo esse empreendimento, venderia cartões postais em estações de trem. Como garantia do cumprimento de todas essas regras, uma escolta paga iria acompanhá-lo à distância.

No dia 1º de janeiro de 1908, usando um elmo de ferro com mais de dois quilos e empurrando um carrinho de bebê com rodas altas, com mais de 90 quilos, Harry partiu da Trafalgar Square, no centro de Londres, aplaudido por uma multidão.


Chegou a se encontrar com o Rei Eduardo VII em uma corrida de cavalos. Vendeu-lhe um postal. O rei, achando divertida a história, pediu-lhe um autógrafo, mas Harry recusou a fim de que sua identidade não fosse revelada. Em outra cidade foi preso por vender postais sem licença da prefeitura; em frente ao juiz, recusou-se a tirar a máscara, o que irritou o magistrado. Harry explicou a aposta divertida, então o juiz somente lhe deu uma multa, escrevendo na sentença que aquele era “o outro homem da máscara de ferro”.

Harry Bensley passou seis anos empurrando o tal carrinho e vendendo postais em doze países, passando por Nova York, Montreal, Sydney etc. Conseguiu mais de 200 propostas de casamento, muitas delas de mulheres bastante ricas e curiosas com a identidade do sujeito.

Em agosto de 1914 chegou a Gênova, na Itália, faltando passar por mais seis países, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Patriota, achou certo abandonar a brincadeira e se alistar. Os apostadores consentiram em parar com a tal brincadeira e deram a ele um prêmio de consolação de quatro mil libras, que foi doado a obras de caridade.

Foi um dos afortunados que sobreviveram à guerra e à gripe espanhola, mas em 1917 viu sua boa vida ruir com a Revolução Russa, quando seus empreendimentos de petróleo foram estatizados. Harry Bensley conseguiu completar a façanha de viajar sem nunca ter sido reconhecido, sem tirar a máscara e conseguir a proposta de casamento. O outro homem da máscara de ferro entrou para a história.

Bensley, entretanto, caiu na miséria com esse golpe contra suas finanças. Morreu em um quarto de pensão alugado em 1956, num subúrbio perto de Londres, totalmente esquecido.