sábado, 20 de outubro de 2012

Vampiros: lenda europeia cuja defesa varia de país para país...

Os visitantes que regressaram do território onde hoje está a Romênia, no século 14, trouxeram consigo relatos estranhos sobre seres que não eram deste mundo. Seres diabólicos que perambulavam pela noite em busca de sangue, principalmente humano. Os monstros eram conhecidos por nomes como wampyres, vurculacs, ou vampiros. Embora as mitologias grega e hebraica tenham relatos de bestas parecidas com vampiros, o mito é quase totalmente europeu medieval, nascido na Europa do Leste. Junto a essa lenda, encontram-se duas crenças: um espírito diabólico pode apoderar-se do corpo de um defunto inocente e praticar malvadezas por aí, ou o morto é tão pestilento que não ganha o direito de ficar no inferno e, por isso, é condenado a vagar pelo mundo na forma de um vampiro.

A mitologia do vampiro é bem detalhada. A espécie romena, por exemplo, é reconhecível pelos seus aspectos noturnos, cor pálida, lábios sanguinolentos, dentes grandes, olhos com cor de fogo e mãos peludas. Esses seres têm hálito desagradável, unhas longas e aspecto cadavérico aterrorizante.


Na Rússia, os vampiros em geral são sacerdotes que se revoltaram contra a Igreja, têm lábio leporino e cabelos ruivos. Na Bulgária, eles também consomem sangue de gado e têm doze dedos. Na Polônia, atacam pessoas nuas (geralmente durante o banho ou o ato sexual) consumindo sangue por trás das orelhas. Enfim, é um mito riquíssimo que encontra variantes em toda a Europa.

O folclore de cada país também dá a receita para combater esses seres satânicos. Na Romênia, o melhor dia para o combate é o sábado, e a garantia de que o vampiro jamais volte é jogar água fervendo sobre sua sepultura ao meio-dia. Algo bem diferente daquilo que conhecemos através dos contos de terror: alho, estaca de madeira virgem, bala de prata, cruz e água benta, por exemplo. Na Bulgária, o método mais recomendado era jogar água benta e cal sobre a sepultura. A história do alho e da estaca de madeira vem da Rússia e Ucrânia.


Interessante era o ritual romeno para se identificar a sepultura de um vampiro: um rapaz virgem montava um cavalo negro, também virgem, e uma procissão ia pelo cemitério, atrás deles, entoando orações. Onde o cavalo empacasse indicaria a morada diurna do ser diabólico.

Em 1727, em Belgrado, capital da Sérvia, houve uma verdadeira caça a vampiros depois que várias pessoas disseram terem sido atacadas. Vários rituais foram celebrados com auxílio de sacerdotes locais e pelo menos quatro mil defuntos foram queimados em praça pública e seus restos atirados ao Rio Danúbio.

E assim veio a popularidade...
De acordo com historiadores e antropólogos, o mito do vampiro surgiu entre os cristãos medievais que visitavam as áreas de conflitos entre ortodoxos e muçulmanos turco-otomanos. Os cristãos tentavam demonizar os rivais dizendo que estes tinham belo prazer por matar suas vítimas e beber seu sangue. Isso espalhou o terror nas vizinhanças dos campos de batalha, justamente a Europa Oriental. Mais tarde, a tuberculose se espalhou por toda Europa e os doentes foram acusados de serem vampiros porque, naquela época, a doença era extremamente mortal. A vítima adquiria as características dadas a um ser diabólico: fraqueza, palidez, lábios mais vermelhos, pouca resistência à luz do sol etc.


No final do século 18, quando os romances góticos se tornaram populares, o vampiro era o personagem ideal para histórias cuja ação decorria em castelos, masmorras, calabouços, florestas escuras etc. No século 19, os vampiros surgiram com tudo em folhetins e contos nebulosos, principalmente pelas mãos de Alexandre Dumas e Bram Stoker, criador do Drácula.

Recentemente, escrevi sobre o Conde Drácula, personagem mais popular dos contos de terror da atualidade. Para ler, clique aqui!

A riqueza de detalhes e de variações deste mito mostra como é interessante estudar o folclore das regiões, além da forma de como a religião influenciou na sua construção (como o medo do inimigo e tentativa de difamação dele) e erro de identidade (evidenciar uma doença da época como sinal de vampirismo). Enfim, trazendo as devidas proporções, os vampiros são seres folclóricos do Leste Europeu, assim como Saci e Curupira são personagens do nosso.