quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O fato e a farsa envolvendo o símbolo egípcio “ankh”...

Ankh – pronuncia-se “anak” – é, também, conhecida como cruz ansata, faz parte da escrita hieroglífica do Egito Antigo e, naquela cultura, representava a vida. Para os sacerdotes antigos, era o poder da vida eterna e, por extensão, a vida após a morte, seja no paraíso ou no inferno. Por se assemelhar à cruz romana/cristã, sempre esteve associada ao ocultismo e à bruxaria e aos cultos anticristãos.


Recentemente, escrevi um texto sobre outro aspecto da cultura egípcia antiga, o olho de Hórus. Para lê-lo, clique aqui!

Junto aos aspectos relacionados ao misticismo, ainda há muitas especulações sobre o surgimento e real significado do ankh, mas egiptólogos apontam a Quinta Dinastia, que começa por volta do ano 2490 antes de Cristo. Quanto ao significado, há várias possibilidades: vida eterna, vida terrena, ressurreição, esperança de vida tranquila no outro plano etc.

O maior problema nos estudos é que muitas pessoas, sem nenhuma base teórica e histórica, afirmam ser um símbolo do satanismo e da magia negra, justamente pelo símbolo assemelhar-se com a cruz, símbolo do Cristianismo. Entre os egiptólogos contemporâneos há o consenso de que o ankh esteja relacionado à vida, e não às forças obscuras.


A alça oval da parte superior sugere um cordão entrelaçado, que significam os gêneros masculino e feminino, fundamentais para a criação e perpetuação da vida. Em outras interpretações, representa a união entre as divindades Osíris e Ísis, que proporcionava a cheia periódica do Nilo, fundamental para a sobrevivência da civilização egípcia. Neste caso, o ciclo previsível e inalterável das águas era atribuído ao conceito de reencarnação, uma das principais características da crença egípcia. A linha vertical que desce exatamente do centro do laço é o ponto de intersecção dos polos, e representa o fruto da união entre os opostos – os filhos, a humanidade ou as colheitas das cheias.

Os historiadores Andrew Gordon e Calvin Schwabe especulam que o ankh tem uma simbologia puramente biológica: o laço seria o cérebro com uma coluna vertebral e braços. Curiosamente, no Egito Antigo, acreditava-se que o sêmen fosse desenvolvido na coluna vertebral e, por isso, um símbolo representando a coluna simbolizaria a vida.

Apesar de sua origem egípcia, ao longo da história o ankh foi adotado por diversas culturas. Manteve sua popularidade, mesmo após a cristianização do povo egípcio a partir do século terceiro da nossa era. Os egípcios convertidos ficaram conhecidos como cristãos cópticos, e o ankh (por sua semelhança com a cruz utilizada pelos cristãos) manteve-se como um de seus principais símbolos, chamado agora de cruz cóptica (foto abaixo).


A popularização no mundo...
No final do século 19, com a popularização da egiptologia na Europa, junto às descobertas arqueológicas, o ankh foi agregado pelos movimentos ocultistas que se propagavam, além de alguns grupos esotéricos e as tribos hippies do final da década de 60. É utilizado por bruxos contemporâneos em rituais que envolvem saúde, fertilidade e divinação; ou como um amuleto protetor de quem o carrega. O ankh também foi incluído na simbologia da Ordem Rosa-Cruz, representando a união entre o reino do céu e a terra. Em outras situações, está associado aos vampiros, em mais uma atribuição à longevidade e imortalidade. Ainda encontra-se como uma alusão ao nascente-poente do Sol, simbolizando novamente o ciclo vital da natureza.

A popularização no Brasil...
O ankh popularizou-se no Brasil no início dos anos 70, quando Raul Seixas e Paulo Coelho criaram a Sociedade Alternativa. O selo dessa sociedade possuía um ankh adaptado com dois degraus na haste inferior, simbolizando os degraus da iniciação, ou a chave que abre todas as portas. Numa outra interpretação, representa o laço da sandália do peregrino, ou seja, aquele que quer caminhar, aprender e evoluir.


O “lado negro” do ankh...
O símbolo foi associado pela primeira vez ao vampirismo e à cultura gótica através do filme “Fome de viver”, dos anos 80, em que David Bowie e Catherine Deneuve protagonizam vampiros em busca de sangue. Há uma cena em que a dupla, usando ankhs egípcios, está à espreita de suas presas numa casa noturna. Assim, elementos como a figura do vampiro e do ankh podem atuar num mesmo contexto. Possivelmente, através deste filme, o ankh foi inserido na cultura gótica.

Desse modo, vemos que o ankh não sofreu grandes variações em seu significado e emprego primitivo, embora tenha sido associado a várias culturas diferentes. Mesmo assim, lhe foi atribuído um caráter negativista por aqueles que desconhecem a sua origem e significados reais, associando este símbolo a grupos e seitas satânicas ou de magia negra.