sábado, 7 de julho de 2012

O dia em que o diabo passeou pela terra: fato ou farsa?

Em todo o sul da Inglaterra, o inverno de 1854 foi o mais frio até então registrado. Durante a noite de 05 de fevereiro de 1855, verificou-se uma forte nevasca que cobriu o pasto com mais de dez centímetros de neve no condado de Devon. Quando a manhã raiou, o campo era um vasto lençol branco e frio e chamou atenção um rastro de 160 quilômetros de pegadas que faziam ziguezague por cinco paróquias, atravessando jardins, pastos, passando por cima de telhados etc.

As marcas tinham 10cm de comprimento e 7cm de largura, eram distanciadas entre si cerca de 20cm e pareciam ter sido feitas por um animal com cascos fendidos, deslocando-se ereto por duas patas. Os camponeses, apavorados, não tiveram dúvidas: o diabo havia subido à terra e passeado pelo Devon, observando pelo menos cinco igrejas por um caminho irregular de 160 quilômetros!


As misteriosas pegadas começavam no meio de um jardim perto à igreja de Totnes e terminava tão misteriosamente como havia aparecido, num campo em Littleham. Quem quer que tivesse feito, passou silenciosamente sobre telhados de pelo menos 35 casas e 18 celeiros. Na igrejinha de Woodburry, as marcas deixadas na porta surpreendiam: parecia que foram feitas com ferro em brasa. Em Dawlish, local por onde o diabo teria passado naquela noite, os habitantes disseram que os cães uivaram na madrugada, mas ninguém deu atenção.

Rapidamente a notícia se espalhou por toda Inglaterra e ganhou os jornais, uma vez que centenas de pessoas da região viram o rastro misterioso. Várias cartas chegaram às redações com possíveis teorias mirabolantes, interpretando o passeio do diabo por aquele recanto monótono do mundo.

O naturalista Richard Owen, numa carta endereçada ao “Illustrated London News”, sugeriu que as pegadas pertenciam a um texugo (foto abaixo), que coloca as suas patas traseiras nas marcas deixadas pelas dianteiras, fazendo que pareça ser bípede em suas pegadas. Embora hiberne, esse bicho arrisca-se por vezes a sair em busca de alimentos.


Outros cientistas identificaram o animal sendo uma raposa, ou uma lontra, ou gatos selvagens ou até mesmo um pônei com o casco defeituoso. Um naturalista amador chegou a sugerir que as pegadas eram de um canguru e que o animal poderia ter escapado de um circo. As pegadas foram atribuídas a ratos, coelhos, sapos.

Entretanto, o problema é que as pegadas aparecem sem explicação e terminam muitos quilômetros à frente misteriosamente. O animal ainda passou por vários telhados sem ser percebido por ninguém, em uma madrugada extremamente fria e silenciosa.

A Igreja Anglicana não entrou na teoria folclórica do diabo passeando pela terra. Preferiu aderir à teoria ao passeio de um animal selvagem. Um grupo de aldeãos do Devon, com medo do suposto bicho desconhecido, organizou vigílias de captura, mas sem nenhum sucesso.

Mesmo com a igreja afirmando tratar-se de um animal, muitos habitantes da região não ficaram convencidos e recusaram-se a sair de casa depois do pôr do sol, e as crianças passaram a dormir dentro de armários. Algumas pessoas passaram a fechar suas lareiras com tijolos, com medo de o diabo entrar em casa.


Atualmente, o diabo de Devon é um personagem folclórico do Reino Unido. Há muitos outros bastante famosos e que conhecemos: recentemente, escrevi sobre Jack Estripador (leia o post clicando aqui) e sobre Jack dos saltos de mola (leia o post clicando aqui).