quarta-feira, 25 de abril de 2012

“Eu sou Anastácia”: o mistério da sobrevivente dos Romanov...

Sempre houve uma bruma espessa na história fatídica do fim dos Romanov, a dinastia de czares que comandava a Rússia quando irrompeu a revolução soviética em 1917. Todos teriam sido fuzilados em uma floresta, nas Anastácia teria sobrevivido e tornou-se uma lenda europeia sobre o seu paradeiro. Durante várias décadas, centenas de pretendentes apareceram reclamando seu direito para arrematar a fortuna real.


No entanto, a história de uma adolescente salva inconsciente em um valão em Berlim no dia 27 de fevereiro de 1920 tinha um cunho enorme de veracidade que acabou sendo aceita como verdade pelos historiadores e aristocratas russos. Ela queria ser reconhecida grã-duquesa Anastácia Romanov, filha do czar Nicolau II, último monarca do Império Russo. Não era somente o reconhecimento em jogo. Dizia-se que antes de explodir a revolução a família real transferiu sua fortuna para bancos variados na Suécia, Suíça, França e Áustria.

Será que as crianças foram poupadas?
De acordo com os arquivos do governo soviético, em julho de 1918 o czar foi executado, mas a família teria sido poupada e enviada para um destino secreto e seus documentos trocados. No entanto, após o período de abertura econômica em 1991, foi revelado o local do enterro e descobriu-se que pelo menos três membros foram mortos: o czar, a czarina e a filha mais velha.


A tal jovem salva no valão de esgoto em Berlim trazia documentos com o nome de Ana Tchaikovski. Porém, quando recobrou a consciência disse ser Anastácia Romanov e contou à polícia como escapou da execução nos arredores de Moscou; falou que foi conduzida com a família a um lugar distante, levada a um quarto escuro e, feriada com os tiros, desmaiou. Ao se recuperar, foi abrigada por camponeses e conseguiu fugir.

Os homens, dois irmãos de sobrenome Tchaikovski, eram guardas bolcheviques que não queriam participar do assassinato, perceberam que ela ainda respirava e entregaram-na a esses camponeses. Com a venda de algumas joias, conseguiu fugir da Rússia e chegar a Bucareste, onde conseguiu a nova identidade.

Na Romênia, a jovem Ana casou-se com um desses soldados e teve com ele dois filhos. No entanto, anos depois, o marido foi reconhecido como soldado traidor e desertor, sendo assassinado brutalmente. A garota entregou os filhos à adoção e fugiu para Berlim com a ajuda de um cunhado, que também desapareceu misteriosamente. Cansada da vida que levava, decidiu se matar jogando-se num canal de esgotos em Berlim.


Nos dez anos seguintes a jovem apresentou perante autoridades e simpatizantes do czarismo o que seriam provas de ser Anastácia Romanov. Não foram encontrados qualquer registros dos tais irmãos Tchaikovski, ou de algum filho dela adotado na Romênia. No entanto, assustava o nível de conhecimento dela da rotina da vida íntima do czar de Moscou, o que fez com que ela ganhasse simpatizantes.

Denunciada como impostora!
A comunidade russa instalada em Berlim após a revolução estava dividida quanto à veracidade da história. O problema é que muitos dos que poderiam atestar se era verdade ou não já estavam mortos. Pierre Gilliard, francês, amigo íntimo dos Romanov, dizia que ela era uma impostora por três motivos: (1) ela não entendia bem o russo, não falando fluentemente; (2) a estatura do corpo era diferente; (3) fazia suas preces e benzia-se como católica e não como ortodoxa.

Vários nobres europeus recusaram a recebê-la alegando ser uma loucura a teoria divulgada por ela. Enquanto isso, alguns parentes da czarina acreditavam ser ela, sim, e sem dúvida.


Em 1933, os tribunais em Berlim, Estocolmo e Zurique fecharam o caso da morte dos Romanov e distribuíram a fortuna entre seis parentes próximos, deixando de fora Ana Tchaikovski. A reviravolta do caso se deu anos mais tarde, quando um exame de raio-x mostrou na jovem uma série de contusões na cabeça, que poderiam ser de espancamentos e coronhadas. Além disso ela tinha joanetes no mesmo lugar que Anastácia Romanov. A menina ainda tinha uma cicatriz no dedo médio da mão direita, de quando era menina e fecharam a porta sobre seu dedo, causando um machucado bem grave.

Com tantas evidências posteriores, em 1938 os advogados entraram na justiça pedindo revisão no processo de distribuição da herança. Naquela época não havia testes de DNA, o que dificultava qualquer investigação com possibilidades de certeza. No entanto, em 1939 explodiu a Segunda Guerra Mundial e, na Europa, todos os processos foram arquivados até que o tempo se acalmasse. Em 1968 o tribunal berlinense fechou o caso em desfavor de Ana.


Atualizações que mostram o embuste de Ana Tchaikovski
Em agosto de 2007, um arqueólogo russo anunciou a descoberta de dois esqueletos em um sítio perto de Ekaterimburgo. Os arqueólogos disseram que as ossadas eram de um garoto que estava mais ou menos entre 10 e 13 anos e de uma jovem mulher, entre 18 e 23 anos. Anastásia tinha 17 anos, sua irmã, Maria, tinha 19 anos e seu irmão, Alexei, estava a dois meses para completar 14 anos. As duas irmãs mais velhas de Anastásia, Olga e Tatiana, tinham 22 e 21 anos respectivamente. Junto com os restos dos dois corpos foram achados fragmentos de um recipiente contendo ácido sulfúrico, unhas, tiras de uma caixa de madeira e balas de vários calibres.


Testes preliminares indicaram uma alta probabilidade que os restos fossem do czarevich Alexei e de uma de suas irmãs. No dia 30 de abril de 2008, cientistas forenses anunciaram que os testes de DNA provaram que os achados se tratavam mesmo de Alexei, Maria e Anastácia.

Em 2000, Anastásia e sua família foram canonizados como portadores da paz pela Igreja Ortodoxa Russa. A família foi anteriormente canonizada em 1981 pela Igreja Ortodoxa Russa no estrangeiro como santos mártires. Os corpos do czar Nicolau II, da czarina Alexandra e de três filhas foram finalmente enterrados na Catedral de São Pedro e Paulo em São Petersburgo em 17 de julho de 1998, oitenta anos após seu assassinato.