sábado, 7 de abril de 2012

Cientistas teriam gravado “o som do inferno”. Fato ou farsa?

O caso teria acontecido bem no interior da Sibéria, em 1989, em um lugar indeterminado e sem nome. Uma equipe de geólogos teriam encontrado o inferno e o caso ganhou o mundo sensacionalista. Antes de tudo repare como tudo fica no condicional: teria encontrado, teria acontecido, em um lugar sem nome, onde não se sabe onde é. Mas antes de debater, convido a ouvir a tal gravação...





Como ocorre em histórias bizarras, o local do ocorrido é sempre distante e indeterminado, o que impede as pessoas de confirmarem os relatos. De acordo com a notícia, a equipe procurava petróleo com uma broca que atingiu cerca de 10 quilômetros de profundidade. A Sibéria é bem rica em gás natural e petróleo. O responsável pelo trabalho, identificado como Dr. Azacovy teria ficado surpreso quando introduziram um microfone no buraco.

1ª análise...
Não há relatos na Rússia de nenhum geólogo renomado chamado Dr. Azacovy, conforme alerta o jornal inglês. A temperatura a 10 mil metros na Terra é muito alta, chegando a mais de mil graus Celsius. Um microfone não derreteria? Caso o microfone não derretesse, imaginem quantos quilômetros de cabos seriam necessários para levar o equipamento a uma profundidade tão grande!

Ao analisar as fitas gravadas com os estranhos sons, os cientistas ouviram gritos bizarros. Vozes pedindo perdão, misericórdia e água. Pronto, os cientistas teriam descoberto que o inferno realmente existe, que ele é quente, e agora havia uma porta para a entrada do reino das trevas!

Os parapsicólogos ficaram céticos quanto à notícia, uma vez que as almas seriam entidades desmaterializadas, incorpóreas. Então, por que estariam pedindo água? Água é um mineral material palpável. Muito estranho o boato.

2ª análise...
O inferno é uma questão cultural. Cada povo e etnia o concebem de uma forma. O cristianismo o concebe como a morada do diabo debaixo da terra, eternizado como terra de fogo depois da obra clássica de Dante Alighieri, “O inferno de Dante”. Para os vikings, por exemplo, o paraíso era um lugar quente e o inferno era um lugar frio e escuro. O inferno penoso, com almas sedentas de misericórdia, é uma criação greco-romana: Hades morava embaixo da terra, onde as almas penitentes clamavam misericórdia a ele.


O assunto ganhou admiradores no meio evangélico neopentecostal nos Estados Unidos nos anos 1990. Muitos líderes religiosos dessa corrente fizeram paralelismos com versículos bíblicos que faziam referência ao inferno nesse modelo dantesco. Chegaram a organizar excursões até o tal buraco a fim de libertarem almas com orações e cultos frequentes.

3ª análise...
Como os tais cientistas russos identificaram as vozes pedindo misericórdia e água? O inferno é russo, então. As pessoas que morrem e não merecem o perdão cristão são de várias culturas, portanto de idiomas diferenciados. Ou seja, mais uma vez concluímos que a gravação é uma farsa.


Como essa historinha surgiu, afinal?
Em 1984, foi publicado na revista “Scientific American” um artigo falando de um poço com 12 quilômetros de profundidade cavado pelos russos na Península de Kola. O texto menciona que aos 10 quilômetros de profundidade, registrou-se a temperatura de 180°C, quando o esperado era 100°C. O tal poço teve a construção iniciada em 1970 e foi interrompida em 1994 ao atingir 12.262 metros. Quase dois quilômetros menos que os 14 relatados e a temperatura era de 180 graus, bem menos que os 2.000 graus mencionados na reportagem.

Em 1989, o Trinity Broadcasting Network, dos Estados Unidos, publicou matéria intitulada “Scientists discover the hell” (Cientistas descobrem o inferno). Dizia que cientistas russos cavaram um poço, que o tal buraco ficava na Península de Kola e que, no fundo do buraco, eles haviam encontrado as portas do inferno. Um professor norueguês que, na ocasião, visitava os Estados Unidos viu a reportagem. Ao retornar ao seu país, ele escreveu uma carta sobre o tema e a enviou para uma revista religiosa da Finlândia que a publicou na sua seção de cartas.


Ou seja, tudo não passa de um folclore local confundido por uma série de fatores em outros países, com o excesso de religiosidade. Não se sabe é como foi feita essa gravação, mas atualmente tudo não passa de uma tremenda farsa realimentada pela internet.